A mídia alternativa ecoou as vozes não hegemônicas

Da Vaza Jato às periferias

A mídia alternativa ecoou as vozes não hegemônicas

por Alex Hercog
15 de maio de 2020
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De midiativistas indígenas a subsidiárias de grandes grupos internacionais, de comunicadores independentes a portais de notícias regionais, a diversidade de vozes trazida pelas mídias alternativas em 2019 mostrou perspectivas e visões sobre grandes problemas nacionais normalmente ignoradas pela grande mídia

O ano de 2019 foi marcado pela continuidade da turbulência social que vem sacudindo o Brasil, com as mídias exercendo um papel decisivo na agenda política do país. Mas, além dos tradicionais oligopólios que controlam a imprensa, muitos outros grupos realizaram a disputa pelas narrativas sociais. Antigos e novos meios trouxeram ao debate público uma diversidade de vozes, de midiativistas indígenas a subsidiárias de grandes grupos internacionais, de comunicadores e comunicadoras da periferia a portais de notícias regionais.

Cobertura de manifestação feita pela Mídia Ninja (Divulgação)

 “Mídia livre”, “mídia independente”, “mídia contra-hegemônica”, “mídia alternativa” – não há consenso sobre a nomenclatura a ser usada para definir os grupos que disputam espaço com a grande mídia. O fato é que eles sempre existiram e, em 2019, protagonizaram momentos importantes no Brasil. O caso mais emblemático foi a “Vaza Jato”, que pautou a grande mídia, alcançou proporção internacional e sacudiu as estruturas políticas do país.

O principal diferencial desses grupos é mostrar uma perspectiva normalmente ignorada pela grande mídia, a exemplo das coberturas regionais sobre o vazamento de petróleo que atingiu o Nordeste ou uma versão “não oficial” dada por moradores das favelas que sofrem com a violência praticada pelo Estado.

Vaza Jato

No dia 9 de junho de 2019, uma bomba estourou na política brasileira. O The Intercept Brasil publicou em seu site trechos de conversas privadas trocadas entre procuradores da força tarefa da Lava Jato e o então juiz Sergio Moro. O episódio apelidado de Vaza Jato logo ganhou repercussão nacional e internacional.

Os diálogos ocorreram por meio do aplicativo Telegram e teriam chegado aos jornalistas do Intercept Brasil após hackers acessarem os dados dos celulares dos procuradores – de acordo com Walter Delgatti Neto, um dos suspeitos de ter acessado o conteúdo. O editor do Intercept, Glenn Greenwald, usou do direito constitucional e manteve em sigilo as fontes das reportagens.

Imagem de divulgação das reportagens produzidas pelo The Intercept Brasil

O conteúdo publicado inicialmente trazia conversas ocorridas entre 2015 e 2017 – posteriormente, outras reportagens foram publicadas, contendo mensagens trocadas em um período maior. Os chats indicavam uma série de ilegalidades e uso político dos processos da Lava Jato, sobretudo a respeito daquilo que envolvia o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva. Nas mensagens, o então juiz Moro orientava a atuação da Procuradoria e a condução das investigações.

A Vaza Jato chamou a atenção pelo teor dos diálogos, mas também por apresentar uma novidade. A “bomba jornalística” não partiu da grande mídia, mas sim de um jornal digital fundado em 2014 e que atua no Brasil desde 2016.

Esse fato raro na história do jornalismo brasileiro dividiu a mídia tradicional. A rede Globo, que já chegou a exibir, em primeira mão, vazamentos de grampos obtidos ilegalmente por Moro e que atingiam Lula, assumiu um discurso mais comedido. Na primeira reportagem exibida pelo Fantástico após o escândalo da Vaza Jato, adotou uma narrativa que criava suspeita sobre a veracidade das mensagens divulgadas pelo Intercept.

Nos demais veículos do grupo Globo, o foco também era dado sobre essa suspeita e reforçava a acusação de que o conteúdo dos chats teria sido obtido criminosamente por um hacker, em sintonia com os posicionamentos do então já ministro da Justiça Sergio Moro e do procurador Deltan Dallagnol. O conteúdo e as ilegalidades reveladas na troca de mensagens, contudo, não receberam o mesmo destaque.

No sentido oposto, a Veja e a Folha de S. Paulo endossaram as denúncias do Intercept. Em uma Carta ao Leitor intitulada “Sobre princípios e valores”, a Veja reforçou seu apoio à Lava Jato, mas condenou suas irregularidades e a parcialidade de Moro revelada pela Vaza Jato.

“O ex-juiz Sergio Moro foi capa da VEJA em diversas oportunidades, a maioria a seu favor: embora ele tenha sido fundamental na luta contra a corrupção, não se pode fechar os olhos ante as irregularidades cometidas”, afirmou a revista. Na mesma nota, a Veja anunciou parceria com o Intercept para acesso aos conteúdos dos chats. Após checagem realizada por sua equipe, a revista afirmou: “todas as comunicações são verdadeiras – palavra por palavra (o que revela fortíssimos indícios de veracidade do conjunto)”.

Antes da revista, a Folha de S. Paulo já havia firmado parceria semelhante. Duas semanas após as revelações da Vaza Jato, o jornal anunciou o trabalho com a equipe do Intercept para analisar as mensagens, o que resultou em uma série de reportagens. Em nota, a Folha afirmou que, “ao examinar o material, reportagem não detectou indício de que ele possa ter sido adulterado”.

As revelações trazidas pelo Intercept também pautaram as mídias não hegemônicas, que se aprofundaram nas discussões suscitadas a partir do conteúdo das conversas vazadas. O Nexo Jornal, por exemplo, publicou diversas matérias que analisaram as implicações legais dos diálogos, a conduta de Moro e como a Operação Lava Jato se utilizou estrategicamente de vazamentos para conquistar o apoio da opinião pública. 

Governo e a grande mídia

A repercussão da Vaza Jato impactou o governo Bolsonaro, uma vez que revelava desvios de conduta do seu ministro da Justiça, Sergio Moro – cuja popularidade era maior que a do próprio presidente. Além disso, colocou em suspeição a condenação de Lula e em descrédito a própria Operação Lava Jato.

Todas essas variáveis – Bolsonaro, Moro, Lula e Lava Jato – tornaram ainda mais complexa a postura da grande mídia e, consequentemente, o relacionamento com o governo. Este cenário ajuda a explicar o surpreendente posicionamento da Veja com críticas a Moro, tendo em vista a tradicional postura editorial da revista.

Já o apoio da Folha ao Intercept não causou espanto. O jornal, que sempre foi crítico ao governo do Partido dos Trabalhadores e que endossou o discurso pró-impeachment de Dilma Rousseff, tem sido atacado e ameaçado por Bolsonaro desde o período eleitoral de 2018. Durante o primeiro ano de governo, o presidente também adotou uma série de medidas que visavam prejudicar financeiramente a Folha, como mostramos em outro texto deste especial.

Outro “inimigo” declarado do presidente é a rede Globo. Além de ataques diretos à emissora, Bolsonaro vem reduzindo consideravelmente o repasse de recursos em publicidade do governo para a companhia, privilegiando as concorrentes Record e SBT.

No entanto, os atritos com determinados veículos da grande mídia não significam uma divergência ideológica em relação às políticas executadas pelo governo. Em entrevista para o especial “De Olho na Mídia”, produzido pelo Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé, a blogueira Cynara Menezes (Socialista Morena) comentou essa relação.

“A posição da mídia comercial é muito dúbia. De um lado, tem os que aderiram abertamente ao governo, como a Record e SBT, além da Band até certo ponto. E tem a Globo e a Folha como críticos ao Bolsonaro. Mas, no aspecto dos direitos humanos, porque, no aspecto econômico, toda a mídia está ao lado do governo”, comenta Cynara. 

Quem também corrobora com essa opinião é André Santana, editor-chefe do Correio Nagô – plataforma digital criada em 2008 pelo Instituto de Mídia Étnica. André afirma haver uma ideia equivocada de que alguns grupos da mídia hegemônica estariam compromissados com causas sociais pelo fato de estarem envolvidos em “aparentes críticas e desavenças com o governo”. Para André, esses mesmos veículos são responsáveis por criar “toda a possibilidade para o pensamento conservador e fascista que impera hoje no Brasil”.

O jornalista também critica a linha editorial desses grupos em relação à questão racial e a abordagem sobre as comunidades periféricas, à cultura negra e ao povo nordestino. “Isso reforça a importância dos meios independentes, da mídia alternativa e contra-hegemônica. Esses são os veículos que sempre estiveram ao lado das pautas sociais e foram a resistência a esse pensamento conservador que tem predominado no Brasil”, destaca.

Vaza Petróleo

No final de agosto de 2019, foram noticiados os primeiros registros de um vazamento de petróleo que provocou grande desastre ambiental no litoral brasileiro, predominantemente no Nordeste. A cobertura da mídia alternativa teve um papel de destaque, sobretudo por se tratar de uma região pouco privilegiada pela grande mídia – cuja atuação está concentrada no eixo Rio-São Paulo e em Brasília. 

Na revista Fórum, o jornalista Wilfred Gadêlha percorreu vários estados nordestinos. No primeiro dia da cobertura especial, Wilfred destacou a reação da população atingida pelo petróleo. Em Barra de Jangada e Recife (PE), revelou a preocupação de pescadores, barraqueiros e vendedores ambulantes diante da contaminação das praias, que já provocava a morte de peixes e prejuízos financeiros. No litoral de Alagoas, retratou o trabalho de voluntários para retirar o petróleo do mar. “Nós dependemos do turismo. Fizemos um mutirão e tiramos 20 caçambas de piche e areia”, afirmou à reportagem Jeovane Ferreira, que trabalha como bugueiro em Maragogi. No litoral de Coruripe, o repórter encontrou dezenas de sacos com óleo e areia coletados pelos voluntários.

Em matéria publicada em dezembro, a Pública denunciou o armazenamento e descarte irregulares do petróleo retirado das praias. Um vídeo exclusivo flagrou tonéis do óleo guardados em uma escola abandonada no município de Canavieiras (BA). A Pública, por meio da jornalista Mariama Correia, também esteve no quilombo de Mercês (PE), outra área afetada. A reportagem exclusiva flagrou irregularidades e conversou com pescadores e quilombolas, que relataram a morte de diversas espécies marinhas.

Já o coletivo pernambucano Marco Zero acompanhou o drama dos pescadores e marisqueiras durante o vazamento do petróleo, mas também nos meses que se sucederam. Diversas reportagens pautaram as mobilizações para cobrar do poder público o auxílio financeiro e a assistência à saúde prometidos. Ao todo, foram 25 matérias reunidas no especial “Óleo no Nordeste”.

No Le Monde Diplomatique Brasil, a análise de William Nozaki, professor de Ciência Política da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (Ineep), sobre o derramamento do petróleo, fez parte da edição de dezembro que trazia como tema de capa “Natureza Morta”.

Quem também deu voz a uma pescadora quilombola, Elionice Sacramento (mestra em Sustentabilidade Junto a Povos e Terras Tradicionais), foi a Revista Afirmativa. Na matéria, a publicação tratou da responsabilidade do poder público, a partir da perspectiva do racismo ambiental e estrutural. 

Ouvir a população diretamente atingida pelos vazamentos deveria ser uma premissa básica, mas não foi o que aconteceu na cobertura da grande mídia. O artigo “Mídia silencia povos do mar na cobertura de vazamento no Nordeste”, escrito por Iara Moura para o blog do Intervozes na Carta Capital, apontou que o tema só ganhou menção na mídia nacional quase um mês após os primeiros registros de contaminação.

Após analisar 30 textos publicados pelos jornais O Globo, Folha de S. Paulo e Estado de S. Paulo, a jornalista constatou a ausência de pescadores e marisqueiras como fontes. Apenas uma matéria ouvia os povos do mar. Iara relaciona esse silenciamento à “concentração regional da produção de notícias, centrada no Sudeste, e a falta de diversidade na cobertura jornalística […], resultado direto da alta concentração de propriedade da mídia no Brasil, conforme demonstrou a pesquisa ‘Quem Controla a Mídia’”, tema de outro especial publicado no Le Monde Diplomatique Brasil.

Vozes Silenciadas

A ausência de diversidade de fontes nas matérias publicadas e exibidas pela grande mídia também foi identificada na cobertura da reforma da Previdência. No estudo “Vozes Silenciadas: reforma da Previdência e Mídia”, o jornalista Rodolfo Vianna, do Intervozes, pesquisou publicações dos jornais Folha de S. Paulo, O Estado de S. Paulo e O Globo, além dos telejornais Jornal Nacional (Globo), Jornal da Record (Record) e SBT Brasil (SBT). O resultado revelou um desequilíbrio entre as opiniões ouvidas, corroborando com a narrativa favorável à aprovação da reforma – os jornais impressos pesquisados defenderam a proposta também em seus editoriais.

Enquanto a falta de diversidade predominou na cobertura da reforma da Previdência, os meios alternativos lançaram um olhar sobre o que foi invisibilizado pela grande mídia. O tema foi capa da edição de abril de 2019 do Le Monde Diplomatique Brasil, que trouxe textos como “A falácia dos argumentos em defesa da reforma”, “O propósito velado da ‘reforma’ da Previdência” e “A desestruturação do mercado de trabalho”.

Também o portal Alma Preta abordou o tema sob a perspectiva dos direitos sociais, com  matérias que traziam, sobretudo, os impactos do projeto do governo sobre a população negra, a exemplo da publicação “Como a reforma da Previdência afetará as mulheres negras?”.

Além da reforma da Previdência, o anúncio do corte de verbas para as universidades públicas também provocou mobilizações em todo o país em 2019. O Brasil de Fato  produziu um especial que reuniu dezenas de matérias sobre a onda de manifestações, dando visibilidade às diversas representações envolvidas em várias capitais do país. Reportagens especiais sobre as vítimas de Brumadinho, afetadas pelo crime cometido pela Vale, e sobre os incêndios que devastaram a Amazônia também foram destaques no Brasil de Fato.

Índigena participando da cobertura da 1º Assembleia da Aliança dos Guardiões da Mãe Natureza Foto: Mídia Ninja

As queimadas que destruíram parte significativa da floresta amazônica também foram acompanhadas pela Mídia Índia – coletivo criado em 2017 por jovens do Povo Guajajara do Maranhão. O coletivo de midiativistas utilizou as redes sociais para pautar o desastre ambiental a partir da perspectiva das pessoas originárias da Amazônia, além de pressionar o poder público a agir para conter o incêndio.

Destaques da mídia alternativa e resistência diante de ameaças

Considerada uma das principais premiações da área do país, o Prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos de 2019 na categoria produção jornalística em multimídia foi dado ao Projeto #Colabora, Amazônia Real e à Ponte Jornalismo pela série de reportagens “Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil”.

O material contou com entrevistas de pessoas cujos direitos fundamentais são negados, como o acesso à moradia, internet e educação. Na reportagem “Os Sem Saneamento”, a jornalista Adriana Barsotti foi às localidades de Ponta da Ilha e Curva, no Maranhão, numa região em que 58,8% da população não tem acesso a coleta de lixo, abastecimento de água e esgoto. Já a reportagem “A mãe de um jovem negro que não teve direito à vida” abordou a violência policial que vitimou Marcus Vinícius, de 14 anos. O adolescente foi assassinado por agentes da força de intervenção federal no complexo de favelas da Maré, no Rio de Janeiro, após operação conjunta da Polícia Civil e do Exército.

Em 2019, o prêmio na categoria “Segurança e Direitos Humanos” da Agência de Notícias das Favelas também foi dado à mídia alternativa. A vencedora foi a reportagem “Ações da intervenção federal poderão afetar escolas a longo prazo no Rio”, escrita por Michel Silva, da Favela em Pauta.

De modo diferente ao que ocorre nas reportagens da grande mídia, as matérias relacionadas à segurança pública produzidas pelos coletivos de mídia alternativa trazem uma perspectiva de quem é mais afetado pela violência praticada pelo Estado: os moradores e moradoras das favelas. Essa produção, no entanto, tem um risco alto para os/as comunicadores/as comunitários/as, como mostra o livro “Militarização e censura – a luta por liberdade de expressão na Favela da Maré”, lançado em dezembro de 2019 pela jornalista Gizele Martins, que foi editora do jornal O Cidadão criado em 1999 no Conjunto de Favelas da Maré.

A violência não tem sido a única forma usada pelo Estado para perseguir comunicadores/as: a burocracia também tem o seu papel. É o caso das rádios comunitárias. Em 2019, os/as comunicadores/as foram surpreendidos com a extinção ou suspenção de 130 rádios, fruto de uma “canetada” do ministro Gilberto Kassab no apagar das luzes do governo Michel Temer.

A Agência Abraço – instituição criada em 2005 “para a produção e distribuição de conteúdos radiofônicos” a partir das rádios comunitárias em operação no país – alerta para a possibilidade de outras 500 rádios comunitárias perderem a suas outorgas, também por questões burocráticas. O que se torna ainda mais grave com a ausência de políticas públicas no governo Bolsonaro, o que compromete a manutenção das demais mídias comunitárias.

Alex Pegna Hercog é relações públicas, membro do Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social e articulador do Coletivo Baiano pelo Direito à Comunicação (CBCom).



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