A torturante função da educação na década de 1970 - Le Monde Diplomatique

OLHO NA PRESSÃO

A torturante função da educação na década de 1970

por Roberta Traspadini
18 de janeiro de 2019
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Os anos 1970 demarcaram a consolidação de uma geração educada no vazio político, com um silêncio ensurdecedor e gritos contestáveis nos porões da ditadura. Confira aqui a continuação deste artigo 

Para os que nascemos no início da década de 1970, a depender de onde nossos pais, professores e padres estavam situados na cadeia alimentar do capital ou contra ele, entender que se vivia a ditadura militar não era tão rápido, tampouco simples. Sendo filhos de trabalhadores que viveram a transição do rural para o urbano, na lógica esperançosa, e em muitos sentidos, real, da inclusão pelo trabalho formal, fez absoluta diferença a pedagogia do exemplo. Em outras palavras, tanto o engajamento político, ou não, de nossos pais e pessoas próximas, como as condições materiais objetivas de acesso à informação em uma sociedade sitiada, dado o desenvolvimento dependente e muito atrasado de parte expressiva das regiões do Brasil, em plena ode à ordem e ao progresso, condicionavam o não pensar sobre o vivido a partir daquilo que, no bairro, se vivia como uma suposta expressão de harmonia social.

Nos anos 1970, a informação era expressamente controlada e forjada para silenciar as contestações, mediada pela lógica moral e cívica de amar a pátria acima de tudo, tendo a ética protestante para o sentido do trabalho em nome de Deus, como princípio educativo acima de todos. Segundo o censo de 1970, apenas 4 milhões de lares no Brasil possuíam TV. No entanto, era pelo rádio que se faziam as principais propagandas sobre “pra frente Brasil”, “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Isso se somava à lógica de aliança do Estado militar com o capital transnacional norte-americano e seu principal propagador, o Estado deste país.

Enquanto os canteiros de obras abriam o país de norte a sul, com contração de dívidas odiosas, a escola e a família cimentavam, sob controle e pressão, o sentido de disciplina e compromisso com a formação para o emprego. Somado a isso, apresentava-se, na euforia da vitória da Copa do Mundo pelo Brasil no México, a ideia de “comigo ninguém pode”, “avante Brasil”.

Olhar para trás a partir do que vivemos hoje é repensar como reproduzimos parte expressiva do aprendido no passado. Sendo crianças, filhos e filhas da classe trabalhadora não engajada em movimentos políticos articulados, nos tocava viver e não pensar sobre outro possível sentido para isso.

A memória sozinha pode revelar perspicazes caminhos de fuga sobre a verdade. Mas a memória indissociada de uma história cujos registros apontam para o que ouve, para além de como se viveu, proíbe a fuga e revela situações de uma formação centrada no apagamento do real, no sufocamento dos gritos e, não menos importante, no condicionamento de um sentido de escola pública e educação assentado em respostas que não poderiam dialogar com o real.

Forjava-se assim parte de uma geração que, quase cinquenta anos depois, expressa seus limites analíticos sobre os anos de chumbo e expõe, no âmbito do voto, e de frases que ecoam os anos 1960/1970, as dificuldades de se entender o que tocou a muitos viverem nos espaços físicos de torturas ao longo dos mais de quinhentos anos de história, em especial no período militar. Mesmo sendo fruto da venda de sua força de trabalho e de seus antepassados, a dose cavalar de alienação e medo conformou corpos para lá de dóceis, reificadores da ordem estabelecida e não reconhecedores de sua condição de classe superexplorada e oprimida. A estrutura raiz dessa condição foi dada na condição de retirar a política do espaço dialógico na escola, na família, na religião.

Este texto apresenta a história da formação intencionalmente alienada de muitas outras pessoas, condicionadas à lógica educativa cristã-militar hegemônicas na década de 1970. Os filhos e as filhas nascidos no período militar, tendo como base a década da minha geração citada acima.

É um exercício de memória a partir da história dos bairros e de um reconto do papel da escola, da religião e da família nos territórios operários do Brasil, a partir da realidade do atraso do desenvolvimento industrial do Espírito Santo, se comparado à realidade dos demais estados do Sudeste, do qual faz parte, cuja matriz urbano-industrial apresenta-se apenas na década de 1960. É um texto que recupera o quanto da história foi ocultada em nome de um sentido de desenvolvimento abertamente repugnante se pensado para além do acesso à lógica e sentido dos sonhos propositalmente desenhados para os filhos da classe trabalhadora nos períodos subsequentes. Nessa história hegemônica torturante, não havia espaço para dizer que tantas crianças, como nós, haviam perdido seus pais e pessoas próximas, ficando órfãs, outras tantas foram também torturadas em porões de casas com aparência de residência de famílias felizes e de “bons costumes”. Uma geração que conseguiu sobreviver sem jamais se perguntar sobre os e as que não sobreviveram a partir da realidade dos anos em que haviam nascido (1960-1970).

É um texto de proposição dialógica, que aposta na reflexão sobre nosso processo político atual à luz do que vivenciamos ao longo de nossa própria história iniciada na década de 1960/1970. Buscar na história recente e passada elementos que nos ajudem a entender o hoje é, além de fundamental, necessário para reordenar o que se entende por projetos, sujeitos, processos políticos em disputas.

Uma geração que foi educada para um sentido de nacionalismo, patriotismo e de inclusão individual para o progresso atrelado ao ganho econômico se não se depara com outros caminhos, outras rotas reflexivas possíveis, à medida que amadurece, está fadada a reproduzir a história sem sequer visualizar as contradições que a mesma carrega. Cresce em idade, mas estaciona em pensamento.

A educação em 1970: um retrato 3×4

O anuário estatístico do IBGE (1980) mostra que a população brasileira estimada em 1970 era de 92.599.590, com uma equivalência entre homens e mulheres de 46 milhões, cada. Foi a década do giro quantitativo da superação do rural pelo urbano. Em 1950 a população rural era quase 64% do total dos mais de 51 milhões de pessoas. Já em 1970, a população rural passava para 44% do total de mais de 92 milhões. Há que se tomar em consideração a desigualdade das regiões brasileiras no tema rural-urbano, desenvolvimento desigual e combinado, pois a realidade da maior parte dos estados brasileiros, que compunham o tão propagado êxito industrializante do Sudeste, advinha do forçado êxodo rural do Norte-Nordeste, desde os anos 1930. E nesse processo, a dominação da oligarquia agrária e do jeito de ser no campo sitiado, da era da invasão colonial adiante, conformou um sentido de desenvolvimento de desigualdades inclusive no interior das próprias regiões dos estados brasileiros.

As infâncias da década de 1970 dependem das singularidades dos territórios, mas têm em comum a universalidade do sentido torturante militar em geral.

Outros dados para termos em conta sobre o ano de 1970:

– Do total de mais de 92 milhões da população, quase 78 milhões eram compostos por pessoas acima de 5 anos;

– A população de 1 dia até 19 anos correspondia a 53% do total da população, chegando a mais de 49 milhões de crianças, adolescentes e recentes jovens.

– Ainda sobre a população acima de 5 anos de idade (78 milhões), quase 31 milhões não eram alfabetizados.

– Na discrepância entre rural e urbano: dos 45 milhões de sujeitos residentes na área urbana, haviam mais de 11 milhões de não alfabetizados (24%). No campo, dos mais de 33 milhões de residentes acima de 5 anos, chegava-se a 19 milhões de não alfabetizados (57%).

– havia 154 mil unidades escolares de primeiro, 8 mil de segundo e 2 mil de terceiro graus.

– As redes eram compostas por mais de 820 mil professores, sendo aproximadamente 654 mil no primeiro grau, 112 mil no segundo e 54 mil no terceiro.

– Havia 17.232.580 pessoas matriculadas nos três graus: mais de 16 milhões no primeiro, quase 1 milhão no segundo e 425 mil no terceiro. A escola não era obrigatória e, a depender da função da criança na família, ela sequer se apresentaria como opção.

– Somente 5% dos 92 milhões eram pessoas com 60 anos ou mais de idade.

Esses dados mostram uma situação concreta a refletir: o assim chamado “povo brasileiro”, termo que indistingue a perspectiva particular entre quem de fato tinha acesso e os que ficariam de fora da ode ao progresso, era composto majoritariamente por uma expressiva população que se conformaria, nas décadas seguintes, como classe de trabalhadora do país. A infância era assim o ponto de partida para o formativo, técnico mas não político, processo de inserção futura dos filhos e filhas dos trabalhadores do campo e da cidade nascidos nos 1960-1970. Seus pais trabalhavam sem ter que estudar. Parte dos filhos estudaria para poder trabalhar. Outra parte não estudaria, trabalharia, mas seguiria invisível no direito à cidadania pelo trabalho formal. Na totalidade, todos, do campo e da cidade, estavam inseridos na lógica do não pensar: esgotar-se no trabalho com vistas a “melhorar de vida” sem cobrar do Estado seus deveres. Encarnava-se assim nos corpos e mentes uma ideologia vigorosa de sucesso-fracasso individuais

Já a população acima dos 60 anos conformaria décadas depois nos pais-mães-avós-tios, cuja memória sempre esteve ligada ao trabalho, ao ambiente rural ou de transição, e a ideologia que se concretizou em parte expressiva da classe trabalhadora, da melhoria de vida (consumo), mas jamais em uma leitura político-reflexiva.

Um processo de trabalho que anestesiou todos os outros sentidos ontológicos de nossos seres sociais. Anestesia social geral.

A intensificação da lógica urbano industrial assentada sobre o avanço do latifúndio extrativista e de expulsão do campo forjou um sentido concreto de participação na lógica do capitalismo dependente brasileiro e latino. Isso gerou uma matriz contraditória entre os que ousavam refletir sobre a lógica ditatorial (punidos com torturas, exílios e mortes) – e não era expressiva maioria do povo brasileiro –, e aqueles ávidos por melhorar suas condições objetivas de vida, ampla maioria.

É dessa concepção de história como movimento vivido pela mordaça que entram a centralidade educativa da escola, da família e da religião majoritariamente católica na década de 1970. Nessas células, educadas para a letargia, após retirados a golpe sujeitos que não seguissem os protocolos do silêncio como educação, eram proibidas palavras como torturadora, censura, desaparecimento, ditadura.

A ordem e o progresso, lema fundante da ode industrial desenvolvimentista puxada por São Paulo a partir da construção imagética e subliminar da ideia de nação e nacionalismo, tornou-se a propaganda que ocultava a real desordem, social e política das décadas de 1960 e 1970.

A imagem de ruas militarizadas pelas tropas do exército nacional, com toque de recolher, eram apresentadas como segurança para a população e assentadas na ideia de progresso, o tão mencionado ainda hoje “direito de ir e vir”. Nada diferente do que se tem hoje como discurso sobre o crime, os criminosos e como contê-los com o aval, é claro, de parte expressiva da própria classe trabalhadora.

As gerações nascidas nestas décadas, 1960-1970, foram formadas por um eficiente processo cirúrgico, com anestesia geral social, que as pôs, ao que tudo indica se relemos com calma o que vivemos no século XXI, em coma induzido com olhos abertos sem nenhum outro movimento. Um verdadeiro ensaio sobre a cegueira, para parafrasear José Saramago.

A fotografia da educação pública e privada brasileira, dos anos 1970, era similar a um retrato 3×4. A foto é tão pequena que ao resgatá-la da gaveta em 2019 não se consegue lembrar do que estava à volta compondo a imagem. Menos ainda o que estava para além dela.

Um Brasil em construção neodesenvolvimentista para a formação profissional, técnica, sem estudos de formação crítica. História e geografia, por exemplo, eram substituídas por “estudos sociais” com destaque para nenhum tipo de alusão ao escravismo, ao colonialismo, e às contínuas invisibilidades das lutas sociais e populares ao longo dos mais de quatrocentos anos de invasão sob diversas expressões políticas que tendem a expressar, sem discussão, uma ideia de soberania e autonomia nacionais.

Isso sem falar que nesse período, jamais saberíamos logo disto, muitos grandes nomes de pensadores e militantes já estavam mortos. Outros tantos exilados, tendo passado antes por torturas, interrogações, desaparecimentos. Tudo isso compunha um álbum maior do que o retrato 3×4. Mas ele não está presente nas casas de parte expressiva da classe trabalhadora, equivocadamente tratada como média no Brasil. Se de média se trata, nem a da escola, nem a dos valores a tornou de fato consciente sobre esse período que precisa, de fato, ser tirado a limpo por essa mesma geração, agora entre 40 e 50 anos.

 

Modelagens padrões x medidas originais: os bairros e suas células

Os anos 1970 caracterizam-se por muitos trabalhos sem direitos feitos por mulheres em jornadas não remuneradas dentro de seus próprios lares ou remuneradas fora, mas sem direitos, como é o caso nos bairros operários das capitais e seus entornos: costureiras, salgadeiras, doceiras, marmiteiras, benzedeiras, sacoleiras e ambulantes em geral.

Essas profissões davam o tom do singular que ainda possuía espaço para ser forjado, em meio ao padrão hegemônico dos negócios que cresciam tornando-se grandes redes, cadeias do processo alimentar do capital.

As costureiras dos bairros, assim como os sapateiros eram pessoas conhecidas por todos, pontos de referências do território. Atualmente resistem mas não têm nenhum reconhecimento ou poder local. Sofrem, como a maioria para pagar dívidas e se manter vivas no trabalho, em plena era da produção flexível. Poderosos sujeitos políticos do bairro sem fazer política, era expressa nas relações de confiança, de uma condição de oralidade e vizinhança que encarnavam, no afeto, proximidades.

Enquanto essas mulheres e homens demarcavam que cada um era singular, no corpo e no gosto, e tiravam medidas e as revisavam dias seguidos, na escola, na família e na igreja o molde era pré-estabelecido. Essas células cumpriam uma mesma função: educar para que a juventude operária tivesse um futuro fora das margens. Essa era a promissora propaganda para o ocultamento das diversas expressões de dor que ocorriam no quintal ao lado. E se tornaram na ditadura militar referências pré-moldadas cujos ajustes não eram necessários desde que o indivíduo trabalhasse arduamente para caber no molde.

A escola tradicional, convencional, da ditadura era dos moldes, comportamentos, silêncios. Isso valia para todos e todas: professores/as, estudantes, servidoras/es em geral. Sem chance para o voo, o controle morava ao lado. E os próprios sujeitos iam traçando o caminhar da referência dos corpos disciplinados.

A escola apresentava-se como um ponto de desconexão entre a vida vivida no bairro, “livre”, jogada, conhecida nos detalhes, fora da política é claro. Os conteúdos velavam o sentido do olhar a partir do temer e do não ousar caminhar por trilhas fora das propostas pelo civilismo moral da época: o militar. Perguntar, não. Responder, com a resposta já pré-moldada, sim.

Mas essa desconexão tinha tempo para ser desfeita. Para a modelagem padrão ocorrer como norma, a cotidianidade dos bairros era, aos poucos, substituída pela projeção imagética do sucesso de grandes marcas e centros comerciais/serviços.

Os padrões do hino nacional, da fila, dos uniformes, dos cadernos, foram transformados em método para todas as áreas. Aos poucos, a diversidade do bairro, nos tons e estilos dos costumes em comum dos diversos tipos de operários/camponeses do território, sofreu a mutação em sua tessitura pela jorrada de mercadorias, placas, acenos à lógica do consumo.

A escola pública da década de 1970 começava aos 6 para 7 anos, sem obrigatoriedade de matrícula, e traçava um processo comportamental de não reflexão. Apesar de toda mordaça, o silêncio político jamais conseguiu silenciar, em absoluto, a vida cotidiana e seu movimento complexo/concreto.

Na escola do não se aprendiam coisas novas, mesmo que pré-moldadas, para um grupo de sujeitos que não teria outra oportunidade fora dela de aproximar-se de determinados conhecimentos fadados à condição miserável da superexploração da força de trabalho e exclusão real. Mas, dada sua função maior, jamais seriam aprendizagens suficientes para que se sonhasse fora das normas, a partir de reflexões e porquês próprios da condição humana.

Para os/as filhas/os da classe trabalhadora a escola era/é em meio às podas um espaço-tempo de realização futura de sonhos de inclusão em meio a gerações anteriores de trabalhadores que não tiveram a mesma condição. Equivocada ou não, essa era uma situação pré-existente. Ir à escola permitia possibilidades diferentes frente aos que não iam.

Assim como as plantas, os bairros tomaram um tom contraditório entre o que foram/eram e o que deveriam se tornar. Padrões de moradias, padrões de casas para determinados tipos de trabalhadores, referências de quem mora onde e como se situa na esfera social. O inorgânico foi substituindo, em desejos e praticidades, os orgânicos. Mas para isso foram necessárias mordaça, chibata, uma educação para o terror, o temor, o medo.

Os bairros guardavam uma contradição concreta que as escolas não reconheciam, dados os conteúdos de manutenção e reprodução do poder coercitivo dominante. Assim como as plantas que quebram os concretos padronizados a partir de suas raízes rebeldes, as crianças, a juventude que ousava quebrar os protocolos do tom de cinza corrente, eram coercitivamente colocadas em exposição como marginais, sem educação, a serem disciplinadas ou morrerem sem destino certo. A pedagogia do exemplo era implacável. E as famílias, os padres da ordem, as catequizadoras e as educadoras deveriam dar o tom dos crimes e castigos cotidianos.

Mas nos bairros havia, entre um moderno que não nascia e um histórico que não morria, brechas-raízes nas escolas que décadas depois se apresentariam como rupturas do concreto pré-moldado educativo militar. Uma delas quiçá a mais importante era a cumplicidade e o silêncio presentes na hora do intervalo para a merenda escolar e o papel fundamental que cumpriam as merendeiras nas nossas vidas. Talvez, naquele instante, olhos fixos no que seria servido, e na fila gigante que se formava, com o prato e a caneca de metal nas mãos, conseguíssemos ter a noção de para quantos aquela era a única refeição, enquanto para outros a não necessidade dela na escola, dadas suas vidas, mais confortáveis, os permitia estar fora da fila.

Era na hora da merenda que a desigualdade social do bairro se apresentava. Mas era uma desigualdade no interior da classe trabalhadora. O/a melhor alimentado/a era quiçá o filho, a filha de comerciantes do bairro. Mas víamos e conhecíamos seus pais no ambiente de trabalho deles ao longo do percurso da casa para a escola e das cadernetas de anotação para pagar no recebimento dos salários dos pais e mães. Na maior parte das casas dos bairros, os livros não habitavam as prateleiras. Eram os retratos dos antepassados, os pinguins de geladeiras e as cozinhas sempre com panelas sobre os fogões.

Na saída escolar havia novamente os contrastes entre estes dois grupos de filhos de trabalhadores: os que compravam pipocas, chupe-chups, algodões doces e os que iam embora com a vontade de algum dia fazer parte daquele banquete ainda nada acessível. E isso vai forjar, sim, um desejo de inclusão contínuo na história dessas gerações. Trabalhar para consumir. O que vai mudar é o estímulo a que tipo de consumo. Mas a conformação do consumo já está materializada.

Para os militares, a escola e a família foram/são lugares de educação para a poda, o controle, o disciplinamento dos corpos/mentes. Cortar as asas, proibir os voos, ensinar o dever ser sem direito a questionamentos. E se questiona, bate, põe de castigo, até que aprendam a não mais fazê-lo. Talvez daí emane o tom vermelho das cores da recuperação/reprovação, frente aos tons azuis da aprovação. Talvez este momento seja o mais próximo que chegamos da cotidianidade da tortura daquele então. Bater, castigar, prender no quarto eram, sim, movimentos pedagógicos de conduta exemplar militar no interior das células que não tolerariam, ainda que fizessem, políticas de contestação. Comportamento e disciplina, assiduidade e asseio eram tão centrais como o estudo e a obediência.

Isso ocorria porque os detentores do poder tinham e têm total consciência do perigo subversivo da educação, como exposto no documento da década de 1930, Manifesto Pioneiro da Educação Nova, cuja centralidade era para o papel da ciência e do método na organização política do pensar filosófico e social fundamentais à escola pública. Isso vale para o perigo da família em seus diferentes formatos. Quebrar o convencional é colocar em perigo décadas de adestramento para uma ideia de certo.

A educação moral e cívica e OSPB eram disciplinas que orientavam o ritmo do que deveria ser decorado como aprendizagem para os filhos da classe trabalhadora. A escola pública era assim a referência para um mundo do trabalho não pensante, não militante, não reflexivo.

Decorar, não aprender; ouvir, não falar; concordar, não contestar. Eis as aprendizagens de um tempo passado ainda presente em nós, parte de uma geração cuja infância foi forjada na educação dos anos 1970. Modelar para a não pergunta é sinônimo de destruir a costura artesanal, o macarrão artesanal e colocar no seu lugar a comida rápida, a roupa padrão, a morte do singular num plural que se reconhece nos que carregam, nos corpos e mentes, marcas iguais.

O papel ideológico do período militar foi o de propagação da ideia de beleza arraigada no padrão cujo antagonismo era apresentado na aparência do atraso de tudo o que era feito à mão e de tudo que fugisse às normas de conduta exemplarmente traçadas para serem reproduzidas.

Foi tão forte esse processo e tão certeiro na castração que a escola pública da década de 1970 não tinha por que ser um ponto de referência para a pergunta, a curiosidade. Muito menos aquelas crianças teriam como se tornarem adultos reflexivos, se tomado em conta seu recente passado de coma social induzido.

A escola, a família e a igreja tinham como função fortalecer o poder da lógica dominante, romper com o orgânico e instaurar a ausência do sentir, do afetar-se, como ponto de referência. Por isso tanta ojeriza dos militares à perspectiva educativa freiriana. Porque em Paulo Freire o centro do processo de alfabetização de jovens e adultos era partir do vivido, do que o trabalhador trazia como experiências de vida ao ler o mundo, para reconstruir em outra linguagem, ler e escrever textos sobre. A educação entre sujeitos mediada pelo mundo. Algo expressamente proibido para as décadas de 1960 adiante.

Entender por que os militares e a direita abominam Freire é plausível. Mas por que parte da esquerda além de o criticar, o anula, é inaceitável.

Anti-freiriana, a escola traçava na régua como palmatória e nos joelhos como perdão, o tom da tortura e da vergonha como prática convencional de propagação sobre os perigos de ousar questionar as regras assentadas nas bases de uma suposta modernidade que, mesmo quando propagada, ainda tarda em chegar para a maioria. Educadores e educandos foram disciplinados para serem algozes, vigias contínuos da vida alheia, sujeitos violentos na castração e poda das subjetividades, das histórias próprias, das vozes particulares presentes no território no qual a escola fazia parte. Saíram do coma para entrar em um processo contínuo, mas não consciente, de adoecimento coletivo geral.

A escola, a família, a igreja e os demais espaços deformativos do bairro tornaram-se ao longo dos anos 1970, uma panela de pressão prestes a estourar.

 

As ruas como espaços de encontros não políticos: anestesia geral para corpos e mentes

Mas e as ruas? Eram também espaços-tempos de controle? Ou havia margem para fuga? As ruas dos bairros operários centrados na ideologia do trabalho manual, ou intelectual sem reflexão, não eram lugar de vigilância contínua. Daí emana uma contradição fecunda entre um período duríssimo da violenta história passada e o cotidiano dos trabalhadores exaustos por longas jornadas laborais.

Os bairros operários eram repletos de vidas. Jogos, bandas, feiras, tudo coexistia em meio ao processo violento do silêncio sobre o que é a política. Os anos 1970 foram anos de ruas cuja coação subliminar havia dado certo: eram permitidos gritos e brincadeiras, festividades e danças, em horários controlados, sem, é claro, algum tipo de tonalidade política.

A raiz dos bairros operários foi a de cooptação pelo trabalho, pela remuneração e, não menos importante, pelo sonho de progredir no emprego e, consequentemente, no acesso ao consumo. A ética protestante assentada no trabalhar para melhorar de vida conformou um sentido prático não reflexivo que parecia, nos bairros operários do país, passar longe da tortura e violência militares. As escolas só se apresentavam em público pelas ruas dos bairros, na obrigatoriedade do 7 de Setembro. Fora isso, alguns poucos ambientes de festas como as juninas e as de aniversário do bairro. Mas de fato não eram, ainda, referências concretas.

Nas ruas os cantos, as danças, os carnavais das marchinhas, as disputas entre bairros, aconteciam. Apresentavam-se músicas repletas de dubiedades para burlar a obrigação do silêncio projetado na censura. Eram todas tessituras do bairro, da costura ao canto. Uma produção coletiva silenciosa mas cheia de vidas e histórias ocultas. Naquela década as máscaras permitiam sair às ruas sitiadas por inúmeras proibições. Os carnavais e as festividades dos bairros eram um contraponto real ao civilismo da escola, da família e da religião.[1]

As ruas eram fundamentais na sociabilidade dos bairros. Pessoas com as quais não se tinha convívio, tempos depois apresentam-se na memória visual como conhecidas, tamanha era a identidade visual e cúmplice no território. Um reconhecimento de que o espaço da rua era um espaço de sociabilidade para além do silêncio demarcado pela força.

As ruas eram espaços comuns desde que não fosse tomada para encontros entre sujeitos políticos reflexivos. Daí resulta a consequência do que parte de nós se tornou: sujeitos que têm uma memória e história coletiva de tempos vividos em um mesmo território, mas que não discutiam política pois era coisa perigosa ou sequer conhecida.

É essa geração que viveu na rua, como espaço de sociabilidade do brincar sem pensar, que hoje é a geração entre os 40-50 anos. Conservadora, avessa à política e crente de que os anos 1970 foram de grandes oportunidades familiares, repletos de muitas felicidades para quem habitava as ruas.

Brincar sim, pensar não! Eis uma perspectiva ideo-política que formou uma geração que conviveu nos bairros e que, na medida em que amadurecia, optava, ou não, por reaprender a ressignificar dito viver.

Brasil, São Paulo, SP. Repressão militar contra estudantes.

 

Nascidas nos anos 1970, politicamente corretas no século XXI?

Essas repercussões em pleno século XXI do que se viveu na década de 1970 precisa ser analisada com profundo rigor pois demarcaram um sentido de nacionalismo, de patriotismo e de crença em Deus e na família que ocultam diversas barbaridades cometidas no interior dessas células em nome do ocultamento do real ensinado e aprendido por décadas. À medida que os anos passam e a vida ensina, aquelas gerações coercitivamente educadas para a não pergunta vão tecendo seu próprio caminho reaprendendo, ou não, a perguntar. Outros/as tantos/as ficam pelo caminho pois não deram conta de cumprir com todo o receituário de sucesso propagado pelo sistema educativo. Afinal o Sistema S visto como complementar à educação para o trabalho terminava de lapidar aquilo que na moral e cívica a escola formatava: datilografia para meninas, eletrotécnica e garçons para os meninos.

E assim foi forjado o dever ser de uma geração que melhorou quantitativamente perante as vidas mais duras de seus antepassados, mas piorou qualitativamente, em sociabilidade, trocas e encontros geracionais para perguntas e reflexões coletivas. A década de 1970 demarcou a consolidação de uma geração educada no vazio político, com um silêncio ensurdecedor e gritos contestáveis nos porões da ditadura.

Os resultados são duros: depressões generalizadas, solidões coletivizadas, doenças de toda ordem. Isso não é próprio de uma única geração. Mas quiçá todo o vivido na forma do disciplinamento gerou subjetiva e objetivamente processos que no século XXI conseguem ser potencializados na forma de doença.

Hoje, parte daquelas crianças dos 1970, são mães e pais jovens reprodutores em seus lares e espaços de sociabilidade do aprendido e memorizado naquele então. E ecoam, ao tom do direito, nada justo, as mesmas frases sobre o Brasil que lhes pertence. Na atualidade, essa geração tem entre 39 e 49 anos, o que corresponde, segundo o último censo-IBGE, a mais de 6% do total da população brasileira. Guardados seus respectivos matizes de classe, territorialidade, e engajamento político, ou não, nos dão, na atualidade, as pistas sobre sua conservadora trajetória sobre a política no Brasil.

No entanto, outros processos para além destes ocorreram, a partir de exemplos de luta da classe trabalhadora do campo e da cidade, no final da década de 1970 e início de 1980, e nos trópicos a terra socialmente tremeu. Desse abalo surgiram novas e fecundas aprendizagens.

Felizmente a história é movimento, apesar de toda a monstruosidade oriunda dos cimentos assentados em determinados períodos. Mas somos mais que isto e seguimos, enquanto estamos vivos, capazes de fazer escolhas, aprender a reaprender, e refazer caminhos. Outros homens e mulheres, vinculados às lutas aprenderam, na prática, outras formas-conteúdos de vida, para além da violenta coisificação dos anos 1960/1970. Do veneno faz-se o antídoto: a reflexão em meio ao suposto silêncio; as linguagens ocultas em meio ao estado contínuo de vigilância pública. Eis algumas das formas da subversão contínua na história dos trabalhadores.

É certo que junto a essa versão histórica, advinda de parte dos processos vividos pelos filhos da classe trabalhadora em bairros operários anestesiados/sequelados pela ode ao progresso, em plena aceleração do roubo do tempo. E se somam outras histórias de resistências de diversos sujeitos em seus territórios ao longo da mesma década, forjando outro tipo de geração e consciência.

Tempos depois, os que fazem essa escolha, na juventude, ou têm acesso a outras leituras, aprendem que na mesma década muitas coisas aconteceram para além das vividas nos bairros operários cooptados pelo progresso. Fora do Brasil, Allende assumia a presidência pelo voto no Chile e anos depois foi, junto com tantos outros, deposto, assassinado, destruído com força. A América Latina e o Caribe viviam um incrível processo de resistências frente ao padrão comum de torturas financiado e treinado a partir dos Estados Unidos. Mas os livros de história do ensino fundamental, as famílias e as religiões hegemônicas não nos ensinarão esses processos. Em parte por desconhecimento, em outra por intencionalidade. Ou quando o faziam, tinham como referência o violento estereótipo dessas histórias como sido protagonizadas por sujeitos perigosos.

É do encontro, tecido em rede, dessas histórias de contestação e rebeldia sobre destinos nada certos que necessitamos forjar o novo e renovar o pensamento crítico vinculado à ação humanamente emancipadora. As histórias dos filhos e das filhas dos “rebeldes” exilados, torturados, desaparecidos, desumanamente condenados a todo tipo de perversidade; as histórias dos filhos e filhas dos ribeirinhos, dos quilombolas, dos indígenas e dos camponeses; as histórias dos filhos e filhas de militares avessos à ordem hegemônica dentro e fora de casa. Tantas histórias ocultas pela história universalmente narrada a partir da coerção como método dominante da classe dominante na história. E não menos importante, a própria história das gerações anteriores formadas nesta década para serem os professores futuros dos anos seguintes.

O que nos ensinaram as décadas seguintes após o período militar? A democracia formal foi capaz de uma participação real com mudanças substantivas no papel da escola, da família e das religiões? Seguiremos?

 

*Roberta Traspadini é educadora popular e professora do curso de Relações Internacionais e Integração da Universidade Federal da Integração Latino-americana (Unila), em cooperação técnica na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). Coordenadora do grupo de pesquisa Saberes em Movimento (Unila) e do Observatório de Educação Popular na América Latina (Ufes).

[1] No caso do bairro operário de Jardim da Penha, vale a pena destacar a referência ao clube ainda existente 106, espaço fundamental de encontro e sociabilidade dos moradores. Dali saiam os carnavais e lá as pessoas se encontravam para bailar. Ainda hoje é assim.



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