Americanismo neoliberal em transe: China ultrapassa os EUA em aprovação global de liderança
“O mundo está passando por mudanças profundas nunca vistas em um século”: a China ultrapassou os Estados Unidos na aprovação global de liderança, segundo a Gallup. Pela primeira vez em quase duas décadas, o país alcançou 36% de aprovação, contra 31% para Washington, enquanto a desaprovação aos EUA atinge níveis recordes: 48% do planeta vê a liderança americana como instável e coercitiva. Ou seja, a opinião pública de quase metade dos mais de 130 países pesquisados rejeitam a liderança dos EUA.
Importante destacar que a alta taxa de reprovação, segundo dados que foram coletados durante 2025, pode ser ainda maior hoje. Em janeiro de 2026, Washington se retirou de 66 organizações internacionais, incluindo 31 agências ligadas ao sistema ONU voltadas à emergência climática, sustentabilidade e governança global. Subsequentemente, ao final de fevereiro, se instalou a escalada militar contra o Irã e a recente ameaça explícita de Donald Trump de “extinguir uma civilização”, retórica que estarreceu a comunidade internacional e nacionalmente produziu reflexo imediato: a aprovação do Presidente estadunidense caiu de 40% para 36% em poucos dias, menor patamar desde seu retorno à Casa Branca, conforme dados Ipsos/Reuters.
Outras pesquisas já vinham antecipando o movimento diagnosticado pela Gallup. Em 2024, o Pew Research Center registrou que, em 34 países, apenas 28% diziam confiar em Trump para “fazer a coisa certa” em assuntos mundiais, enquanto 69% declaravam não confiar. Em 2025, a Morning Consult, em levantamento reportado pela Axios com adultos de 41 países, mostrou a China com favorabilidade líquida global de +8,8, ao passo que os EUA recuavam para -1,5. Um ano antes, o quadro era inverso: em menos de 18 meses, Beijing atingiu seu melhor desempenho desde o início da série histórica em 2020.
E se as pesquisas mencionadas capturam a percepção popular sobre liderança estatal, as redes sociais denunciam sintomas também em relação à dimensão da vida social mais comum. Em 2026, hashtags como #newlychinese, #becomingchinese e o conceito de “chinamaxxing” acumulam mais de 4 bilhões de visualizações nas redes sociais. A juventude global, exausta da instabilidade ocidental, passa a consumir e reivindicar o estilo de vida chinês. O “China wellbeing”, ou ainda, o Sonho Chinês tornou-se o novo fetiche aspiracional, ofuscando a narrativa de progresso individualista de Hollywood e projetando formas de vida percebidas como mais estáveis, saudáveis e socialmente integradas.

A crise orgânica do Sonho Americano é cada vez mais palpável, e o contraste do estado das coisas dos EUA com a trajetória da ascensão chinesa e os horizontes que se abrem a partir dela, acentua de forma nítida a distância entre essas duas realidades. A opção pela desindustrialização em prol da financeirização rentista e a consequente perda de empregos industriais, a estagnação salarial, a erosão da classe média e o aumento do acúmulo de capital em estratos cada vez menores da elite, transformaram o sonho americano em pesadelo de precariedade.
Em 1970, as famílias de renda média nos EUA detinham 62% da renda total; em 2018, esse número caiu para 43%. A proporção da classe média encolheu quase 10 pontos percentuais desde 1971. Em contraste, a China consolidou a maior classe média absoluta do planeta, com quase 500 milhões de pessoas e uma meta de atingir 800 milhões até 2030. Com mais de 90% da população com casa própria e a erradicação da extrema pobreza beneficiando 850 milhões de pessoas colaborando na construção de um robusto mercado interno que já sustenta 52% de seu crescimento econômico, a estratégia chinesa de “prosperidade comum” oferece uma estabilidade, nacional e internacional, que o Ocidente neoliberal já não consegue garantir.
É por isso que convém olhar o filme, não a fotografia para perceber que não se trata de uma reprovação conjuntural a que as pesquisa relatam – embora a errática administração Trump seja um fator importante e inegável de aceleração das contradições e esgarçamento do tecido social e legitimidade internacional. É central remontarmos à Guerra do Iraque como um marco, enquanto sintoma e expressão da deterioração da hegemonia estadunidense, em que a opção pela coerção denunciava seu estado e seu futuro: ali já estávamos diante de um velório longo e anterior ao enterro que assistimos atualmente. Já em 2003, o Pew mostrava que a guerra havia aprofundado a cisão entre os EUA e diversos povos, e enfraquecido o apoio internacional aos pilares da ordem do pós-guerra.
Mais interessante ainda o contraste do que o americanismo neoliberal e o socialismo chinês produziram diante dos desafios que a economia global e o sistema internacional apresentavam no período dos anos 2000: enquanto os EUA apostavam na coerção via Guerra do Iraque e o espraiamento militar via mais de 700 bases militares espalhadas por cerca de 80 países, a China consolidava internamente a máxima da construção da “sociedade harmoniosa” e, externamente, iniciava a sua inserção internacional pela via expressa na estratégia Going Global, que viria a consolidar a Iniciativa Cinturão e Rota. Desde 2003, quando as estatísticas chinesas passaram a registrar a expansão dos investimentos de forma sistemática, o IED do país entrou em trajetória de crescimento sustentado: chegou a US$ 147,85 bilhões em 2023 e a US$ 174,38 bilhões em 2025, mantendo a China entre os maiores investidores do mundo em infraestrutura global, com parceria econômica com mais de 160 países.
Se hoje a guerra e a interferência externa estadunidense já não convencem ou atraem como antes, o contraste com a atuação internacional chinesa tem um papel central para que o absurdo deixe de ser normalizado.
O ponto central, portanto, não é apenas que a China tenha ultrapassado os Estados Unidos em aprovação global em uma pesquisa. O que nos interessa é que esse resultado, historicizado no longo termo, revela perfeitamente a crise orgânica da hegemonia estadunidense em que Donald Trump não é a causa, mas a expressão perfeita desse esgarçamento social: um líder que vira a mesa do sistema internacional que seu próprio país criou, se impondo pela violência da chantagem econômica e militar, por não conseguir mais competir dentro das regras que ele mesmo ditou.
Em pesquisa produzida pelo Global Times com levantamento feito em 46 países, com 51.689 respostas válidas, o relatório mostra que 58% dos respondentes esperam que a ordem internacional caminhe para um mundo multipolar, igualitário e ordenado, e mais de 70% esperam que a China participe mais ou tenha papel maior nos assuntos internacionais.
Melissa Cambuhy é presidente do instituto iBRICS+, pesquisadora visitante da Academia Chinesa de Ciências Sociais, doutoranda em Relações Internacionais (UERJ), mestra em Direito Econômico (Mackenzie) e graduada em Direito com habilitação em Direito e Desenvolvimento (Mackenzie).
REFERÊNCIAS
Gallup News. China Edges Past U.S. in Global Approval Ratings – Gallup World Poll 2025. Disponível em: https://news.gallup.com/poll/707945/china-edges-past-global-approval-ratings.aspx
Pew Research Center. Views of the United States in 24 Nations (2024–2025). Disponível em: https://www.pewresearch.org/global/2024/06/11/appendix-a-favorability-of-the-united-states-since-2000-us-image-2024/
Pew Research Center. Views of the United States and China During the Trump and Biden Administrations. 2024.
Gallup Historical Trends. U.S. Position in the World. 2008. Disponível em: https://news.gallup.com/poll/116350/position-world.aspx
Pew Research Center. How the American Middle Class Has Changed in the Past Five Decades (2022). Disponível em: https://www.pewresearch.org/short-reads/2022/04/20/how-the-american-middle-class-has-changed-in-the-past-five-decades/
Pew Research Center. The State of the American Middle Class (2024).
Pew Research Center. Trends in Income and Wealth Inequality (2020).
Statista. Median Household Income by Tier, U.S., 2020.
U.S. Census / estatísticas históricas de renda familiar dos EUA, desde 1970
Global Times. Global Survey on Impression and Understanding of China. Disponível em: https://www.globaltimes.cn/page/202601/1353255.shtml

