As ilusões que sustentam a busca por uma “terceira via”

As ilusões que sustentam a busca por uma “terceira via”

por Matheus Alexandre, Valdeci Rodrigues e Leopoldina Lavor
12 de julho de 2021
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É comum em algumas análises sobre a conjuntura política certo clamor por uma terceira via. Fazem isso reafirmando que o petismo e o bolsonarismo se retroalimentam

Desde que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conquistou a anulação dos seus processos na 13ª Vara Criminal de Curitiba, parte dos atores políticos e da grande mídia brasileira iniciaram uma verdadeira saga para encontrar a chamada “terceira via”. Composta por um candidato que faça contraponto tanto a Jair Bolsonaro quanto a Lula, essa alternativa teria como objetivo encontrar um projeto comum de centro, rejeitando ideias consideradas “extremistas” e sendo acolhida por parte do eleitorado a ponto de conseguir disputar o executivo federal no segundo turno da eleição de 2022.

Para começar, é necessário, antes, estabelecer uma diferença basilar entre os dois candidatos que polarizam a corrida presidencial, até então, Lula (PT) e Bolsonaro (sem partido). O primeiro está no campo democrático. Aceitou pacificamente as derrotas nas eleições de 1989, 1994 e 1998 e já governou o país por dois mandatos (2003-2010), respeitando e fortalecendo as instituições, dialogando com representações políticas da oposição e com diversas entidades civis durante o período de governo. O segundo, por sua vez, desafia o Congresso Nacional, confronta o Supremo Tribunal Federal (STF), descredibiliza o sistema eleitoral e já adianta que não aceitará pacificamente o resultado eleitoral, caso seja derrotado. Portanto, não se trata de uma disputa entre dois extremos igualmente danosos à democracia.

É comum em algumas análises sobre a conjuntura política certo clamor por uma terceira via. Fazem isso reafirmando que o petismo e o bolsonarismo se retroalimentam.

Ora, isso não corresponde à trajetória política do Partido dos Trabalhadores (PT), legenda relevante nacionalmente desde a década de 1980, muito antes do bolsonarismo existir, e que, apesar da deposição da ex-presidenta Dilma Rousseff, em 2016, e da forte onda antipetista que se seguiu até 2018, o partido elegeu a maior bancada da Câmara das Deputadas e dos Deputados.

Além disso, essa perspectiva tampouco serve para diagnosticar as razões que tornam possível a existência do bolsonarismo, que é pautado principalmente pela rejeição à política e às instituições. Uma rejeição fomentada, sobretudo, pela judicialização da política e o lavajatismo, que imperou na política brasileira entre 2015-2018.

Manifestação contra governo Bolsonaro na Avenida Paulista em 03 de julho de 2021 (Foto: Paulo Pinto/FotosPublicas)
A ascensão do bolsonarismo e o petismo

O bolsonarismo é um fenômeno complexo que surge em um contexto de crise de hegemonia do consenso estabelecido pela Constituição de 1988 e consolidado durante a década de 1990 e anos 2000. Desde 2013, no entanto, assistimos a um novo período político marcado pelo questionamento do establishment. Esse novo ciclo foi inaugurado pelas manifestações de junho. Somado a ele, a prolongada crise econômica e a criminalização da política pela Operação Lava Jato prepararam o terreno ideal para a ascensão do bolsonarismo como a alternativa “contra tudo que está aí”.

Uma pesquisa realizada pelo Instituto Data Folha nas vésperas da eleição em 2018 atesta essa hipótese. Os resultados apontaram que o principal fator que motivava o voto de cerca de 30% eleitorado de Jair Bolsonaro era a vontade de mudança ou renovação. Nessa mesma direção, os resultados eleitorais de 2018 mostraram que entre os partidos tradicionais na disputa para o Congresso Nacional, o PT foi o menos prejudicado, mantendo-se firme com a maior bancada e presente no segundo turno presidencial. Enquanto isso, o PSDB e o MDB tiveram drástica redução no número de votos e candidaturas eleitas.

Ademais, é importante convocar à responsabilidade os partidos que hoje reivindicam uma terceira via, mas que anos atrás atuaram na construção do fenômeno político que, mais tarde, veio a ser conhecido como bolsonarismo.

Além da não aceitação do resultado das urnas, quando lançaram desconfianças sobre o sistema eleitoral, os tucanos marcharam por um impeachment sem crime de responsabilidade junto de grupos que pediam a intervenção militar, o retorno da monarquia e que propagavam toda ordem de violência política contra ativistas de esquerda e uma governante legitimamente eleita. Portanto, o razoável, na verdade, é afirmar que o bolsonarismo foi alimentado por uma oposição de direita imbuída de sentimentos antidemocráticos e que utilizou o ódio como arma política mobilizadora.

Já o petismo é fruto da união e da ação política autônoma na esfera pública de trabalhadores e trabalhadoras rurais, sindicalistas, intelectuais, movimentos sociais feministas, antirracistas, comunidades eclesiais de base etc. Um feito inédito na história política brasileira, marcada por pouca participação popular e por construções partidárias verticalizadas. Os petistas se apresentaram para a sociedade brasileira em meados da década de 1980 e se estabeleceram como uma força presente no segundo turno de todas as eleições presidenciais desde 1989. Portanto, trata-se de uma força construída a partir das mobilizações sociais e com legados fincados na construção do Brasil pós-redemocratização.

Desta maneira, é temeroso afirmar que o partido se retroalimenta do bolsonarismo, pois, dessa forma, estaríamos dizendo também que eleitorado não recorda que sua vida melhorou substancialmente durante os governos petistas, razão esta que, somada ao forte enraizamento do partido na sociedade, explica porque o PT hoje se levanta como a maior força de oposição ao Bolsonaro e porque desde 1989 disputa o segundo turno das eleições presidenciais.

Para o pleito de 2022, a pesquisa CNT/MDA publicada em 5 de julho, quando perguntados(as) sobre suas preferências para as eleições do ano que vem, 40% do eleitorado respondeu que preferir que “Lula ganhe as eleições e volte a ser presidente”. Esse dado expressa que, mais do que a rejeição a Bolsonaro, há entre os(as) eleitores(as) um grande desejo de que Lula novamente governe o país, rejeitando, portanto, a hipótese de que o eleitorado de Lula é mobilizado através de afetos negativos.

Além do mais, segundo levantamento da CNN que analisou o comportamento das redes sociais em ocasião da decisão do ministro Edson Fachin, que anulou as condenações do ex-juiz Sérgio Moro, foram cerca de 450 mil menções a Lula em apenas uma hora. A maioria das menções faziam referência ao futuro em detrimento do passado, com a captura de sentimentos de alegria e esperança compartilhados, atribuindo a esse eleitorado um caráter progressista – voltado ao futuro – e que é mobilizado principalmente por afetos positivos.

Considerando esses números e o enraizamento do partido no imaginário social de parte significativa da sociedade brasileira, afirmar que o petismo se alimenta do bolsonarismo para se manter relevante, é falsear a realidade e desconsiderar a contribuição do PT para a história brasileira recente. Ademais, é também desconsiderar que o partido forma com as legendas PSOL e PCdoB o grupo que menos se alinha com as pautas governistas na Câmara Federal e no Senado, enquanto o PSDB possui um alinhamento de 87%, e o MDB, Novo e DEM de 100%.

 

Polarização e pós-política

Típico do extremo-centrismo e da pós-política, os argumentos contra a polarização afirmam que a política deve ser o terreno da razão, da construção de consensos, e não da confrontação de projetos políticos opostos. A filósofa Chantal Mouffe, em “Sobre o Político” (2015), nos lembra que essa perspectiva quer eliminar o conflito e o dissenso acaba por eliminar, no entanto, o próprio “político” da esfera pública democrática. Distinto do conceito de “política”, que diz respeito às práticas institucionais, o “político” representa o plano de poder em que os conflitos e “antagonismos constitutivos das sociedades humanas” se manifestam. O dissenso, é tomado pela autora, então, como um elemento fundamental da vida democrática.

Sendo a política o locus do conflito, a pós-política, ao tentar evitar a criação de uma esfera pública vibrante e impor um consenso “racional” pelo centro, acaba por declinar a própria democracia, pois comprime os debates sobre modelos de sociedade, retira esferas de poder do Estado da intervenção soberana do povo e permite que os conflitos, mais tarde, possam ressurgir não mais em forma de “direita vs. esquerda”, mas em forma de “amigo vs. inimigo”, como têm sido comum nos novos movimentos de extrema-direita pelo mundo.

Esse processo também foi debatido pela cientista política estadunidense Wendy Brown, que apontou como a ascensão da extrema-direita ocidental está intimamente ligada ao processo de “desdemocratização” neoliberal. No livro “Nas ruínas do neoliberalismo: a ascensão da política antidemocrática no Ocidente” (2019), a autora aponta que o neoliberalismo busca desdemocratizar o político, visto que este, em muitos momentos, pode representar uma ameaça à liberdade dos mercados. No lugar da deliberação, da contestação e da partilha democrática do poder, o neoliberalismo impôs a “gestão racional” e a tecnocracia. Essa perspectiva pós-política que impõe um suposto consenso centrista-neoliberal, que questiona os princípios da igualdade, do bem-comum e da inclusão e desmantela a democracia em nome da liberdade dos mercados, prepara o terreno para o florescimento de movimentos autoritários.

A polarização, portanto, não deve ser vista como algo necessariamente ruim, mas como um elemento constitutivo das sociedades democráticas. É o enquadramento democrático-pluralista que transforma o “antagonismo entre inimigos” em “agonísmo entre adversários” e é nele que projetos distintos de sociedade podem confrontar.

No caso brasileiro, a polarização entre os candidatos Bolsonaro e Lula deve ser compreendida como a oposição entre o autoritarismo e a democracia, entre o respeito às instituições e a ilegalidade, entre a promoção de políticas que respeitam a vida e o genocídio negacionista. Projetos de sociedade profundamente divergentes, mas que irão se confrontar no espaço democrático, embora o bolsonarismo trabalhe contra esse terreno.

À quem interessa uma terceira via?

Os argumentos, portanto, que impõem a Lula e ao PT a imagem de “extremistas” não possuem fundamento na realidade. São caricaturas construídas pelo antipetismo e o antiesquerdismo. Tampouco é possível tratar como razoável a ideia de que petismo e bolsonarismo são duas faces da mesma moeda. Fazer essa suposição interessa somente aos plutocratas e seus partidos que temem não ter uma alternativa “civilizada” para representar o seu projeto neoliberal no segundo turno das eleições de 2022 e, dessa forma, assistirem novamente à vitória de um projeto de bem-estar social com a presença de um Estado capaz de combater desigualdades.

Matheus Alexandre e Leopoldina Lavor são cientistas sociais e mestrandos em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará. Valdeci Rodrigues é cientista social pela mesma universidade.

 



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