As sanções tarifárias ao Brasil como vetor da disputa sistêmica EUA-China
Ao tratar o Brasil, a América Latina e demais regiões do Sul Global como zonas de contenção subordinadas à lógica da rivalidade sino-americana, os Estados Unidos correm o risco de reduzir parceiros potenciais a peões descartáveis
A imposição de tarifas de até 50% sobre produtos estratégicos brasileiros pelos Estados Unidos revela-se mais do que uma medida pontual de política comercial, uma vez que, fundamentadas no discurso nacionalista do “America First”, essas ações sinalizaram um movimento mais amplo de reposicionamento estratégico norte-americano diante da ascensão estrutural da China. Trata-se, portanto, de uma manifestação concreta da disputa por hegemonia em um cenário internacional marcado uma transição sistêmica de poder, em que a hegemonia norte-americana, alicerçada no domínio tecnológico e institucional, é desafiada pela ascensão multidimensional da China.

Historicamente, tarifas e sanções jamais foram instrumentos neutros. Desde o colbertismo francês até os embargos da Guerra Fria, tais medidas estiveram invariavelmente associadas à projeção de poder e ao controle de fluxos estratégicos. A decisão de atingir o Brasil — parceiro tradicional dos Estados Unidos e fornecedor relevante de insumos como ferro, celulose, manganês, soja processada e nióbio — não pode ser dissociada do contexto geopolítico contemporâneo. Ao mirar um país de importância regional, os EUA sinalizam não apenas uma redefinição de suas prioridades comerciais, mas um gesto simbólico de contenção à crescente influência chinesa na América Latina.
No século XXI, o campo de disputa entre grandes potências deslocou-se da geopolítica clássica para a geoeconomia das tecnologias críticas. Inteligência artificial, semicondutores, redes 5G, tecnologias verdes e controle de dados tornaram-se os novos vetores de poder. Nesse tabuleiro, o acesso a matérias-primas estratégicas, como lítio, nióbio e terras raras, bem como a capacidade de moldar ambientes regulatórios e dominar plataformas digitais, passou a ser condição essencial para sustentar ou deslocar hegemonias.
O Brasil, nesse contexto, assume papel geopolítico de relevo. Com abundância de recursos naturais, inserção industrial relevante e projeção diplomática no hemisfério sul, o país deixa de ser apenas parceiro comercial para tornar-se uma variável estratégica. As tarifas impostas não visam apenas corrigir desequilíbrios comerciais: elas funcionam como mecanismos de teste ao alinhamento político e diplomático, enviando um recado direto — ao Brasil e à região — sobre os custos da ambiguidade frente à disputa sino-americana.
Essa tensão se intensifica diante da simbiose entre o Estado norte-americano e os conglomerados tecnológicos privados. Empresas como Google, Amazon, Microsoft, Apple, Meta e Nvidia não apenas dominam a inovação global, mas integram uma engrenagem de poder que opera em consonância com o Pentágono, a NSA e influentes centros de formulação estratégica. Assim, a rivalidade com a China transcende o comércio: trata-se de um conflito entre arquiteturas civilizacionais distintas, nas quais o controle da informação e da infraestrutura cognitiva desempenha papel central.
Enquanto os Estados Unidos promovem um modelo baseado na liberdade regulatória seletiva, na concentração de propriedade intelectual e na hegemonia de mercado, a China aposta em um modelo tecnocrático, com forte protagonismo estatal, investimentos massivos e centralização das cadeias críticas de valor. A disputa entre essas visões se materializa em ações concretas: embargos, sanções, acordos bilaterais de exclusão e restrições ao acesso a tecnologias sensíveis.
Nesse cenário, o Brasil tornou-se alvo de uma política de “duplo cerco”. De um lado, Washington impõe tarifas como mecanismo de pressão. De outro, exige contrapartidas ideológicas, como o veto à Huawei na infraestrutura do 5G. A retórica de defesa da indústria americana oculta, na prática, a tentativa de moldar a política externa brasileira segundo os vetores estratégicos norte-americanos. Trata-se de um desdobramento moderno da Doutrina Monroe, revestido de linguagem econômica, mas animado pela lógica da contenção.
Essa abordagem, embora sofisticada, reproduz dinâmicas históricas de dominação. Desde o “Big Stick” de Theodore Roosevelt até a contemporânea política de sanções inteligentes, os Estados Unidos mantêm a prática de tutelar o espaço latino-americano, ainda que agora por meio de algoritmos, fluxos de dados e normatizações assimétricas. A hegemonia, portanto, não se limita ao campo militar ou econômico — ela se expande para a arquitetura digital e para os regimes de governança tecnológica.
O papel das Big Techs é ilustrativo desse novo paradigma. Sua força não repousa apenas na disrupção mercadológica, mas em sua inserção estratégica no núcleo decisório do poder. Operando sob o manto da legalidade internacional, essas corporações contam com a proteção ativa do Estado norte-americano, que atua para barrar regulações fiscais, trabalhistas ou de soberania digital em países periféricos. Governos que ousam questionar essa arquitetura — como no caso do Brasil, com iniciativas de regulação de conteúdo, taxação de plataformas ou proteção de dados — enfrentam respostas diplomáticas, campanhas de deslegitimação e pressões institucionais coordenadas.
Essa lógica reforça a assimetria estrutural entre centro e periferia digital. No caso brasileiro, a ausência de tributação efetiva sobre lucros bilionários, a aceitação acrítica de termos de uso e a fragilidade regulatória em relação à extração de dados estratégicos tornam-se indicadores claros de um alinhamento geopolítico disfarçado de pragmatismo econômico. E sempre que essa estrutura é questionada, os mecanismos de contenção se reativam, com sofisticação e velocidade.
Entretanto, toda hegemonia baseada na coerção contém o germe de sua erosão. O uso recorrente de medidas punitivas contra países aliados, sem oferecer benefícios tangíveis, mina a confiança estratégica e estimula o surgimento de alternativas. A experiência brasileira durante o governo Bolsonaro é emblemática: mesmo com alinhamento retórico e ideológico à Casa Branca, o país foi alvo de sanções tarifárias e excluído de benefícios duradouros. A ausência de contrapartidas materiais — como acesso privilegiado a mercados, transferência de tecnologia ou proteção normativa — fragilizou a legitimidade da aliança e incentivou uma reavaliação silenciosa do posicionamento externo.
É nesse vácuo que a China avança com eficácia diplomática crescente. Seu modelo de inserção internacional, ainda que criticado por opacidade e centralização, é percebido por muitos países do Sul Global como mais respeitoso à soberania, menos impositivo ideologicamente e mais pragmático nos resultados. A preferência por infraestrutura, crédito e não interferência confere à China uma vantagem simbólica diante de parceiros que rejeitam formas sutis de tutela.
O resultado é a emergência de uma multipolaridade estratégica, marcada por alianças táticas, ajustes dinâmicos e rejeição ao binarismo. Países como o Brasil adotam, cada vez mais, estratégias de realismo periférico, buscando diversificação de parcerias e preservação da autonomia decisória. Paradoxalmente, quanto mais os Estados Unidos pressionam, mais estimulam a construção de alternativas. A tentativa de isolar a China pode estar produzindo, na prática, a consolidação de seu papel como contraponto indispensável no sistema internacional.
Ao longo prazo, esse cenário pode gerar uma fragmentação duradoura da ordem global, com tensões latentes entre polos de poder e perda da capacidade de articulação global plena por parte dos EUA. O declínio de uma hegemonia não se dá apenas pela perda de força bruta, mas pela incapacidade de se adaptar às novas linguagens da legitimidade. A insistência em um modelo baseado na imposição e na exclusão pode transformar instrumentos de controle em fatores de isolamento.
Ao tratar o Brasil, a América Latina e demais regiões do Sul Global como zonas de contenção subordinadas à lógica da rivalidade sino-americana, os Estados Unidos correm o risco de reduzir parceiros potenciais a peões descartáveis. A história ensina que impérios não tombam apenas pela força de seus inimigos, mas por sua própria incapacidade de compreender o tempo em que vivem.
O mundo contemporâneo exige articulação plural, legitimidade compartilhada e capacidade de adaptação. A hegemonia, neste novo ambiente, não se impõe: ela se constrói por consentimento renovado. E, caso os Estados Unidos insistam em sustentar o mundo de ontem, podem acabar sendo apenas espectadores do mundo de amanhã.
Iwao Celso Tadakyio Mura Suzuki é advogado e professor universitário.

