LITERATURA

“Caixa d’água”, de Febraro de Oliveira: delicadezas submersas

Livro vencedor do Prêmio Caio Fernando Abreu se baseia em história real de jovem homossexual assassinado no sudeste do Pará

No dia 9 de fevereiro de 2022, o corpo de Matheus Cavalcante Cunha, um homossexual de 22 anos, foi encontrado numa caixa d’água em Itaituba, no sudeste do Pará. O jovem estava submerso e com roupas abaixo do joelho. A história percorreu o país e causou comoção, angústia e revolta, especialmente por não se tratar de um caso isolado. Naquele mesmo ano, 273 pessoas LGBTQIAP+ foram assassinadas no Brasil, de acordo com dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania. No ano passado, foram 257, segundo a Ong Grupo Gay Bahia (GGB).

A história de Matheus também foi parar na literatura, através de “Caixa d’água”, de Febraro de Oliveira, obra vencedora do Prêmio Caio Fernando Abreu, no Festival Mix Literário de 2022. O livro de poesias recém-publicado pela Editora Reformatório é marcado por uma reflexão sensível e necessária sobre questões dolorosas e abrangentes de um Brasil desigual, hipócrita e violento.

A capa do livro "Caixa d'água", de Febraro de Oliveira (Editora Reformatório)
A capa do livro “Caixa d’água”, de Febraro de Oliveira (Editora Reformatório)

Divido em cinco partes – “Rebaixamento do lençol freático”, “Trações dentárias, biópsias ósseas”, “Hipoplasia do osso nasal fetal”, “Abaulamento da margem cranial” e “Cardume argênteo de peixes verbais” –, o livro explora diversos pontos de vista diante de um mesmo fato.

Há uma voz que seria a de Matheus. Um eu lírico que prefere não ter nascido. Alguém que se depara com o sofrimento tão logo descobre sua homossexualidade.  Aquele que recebe golpes cotidianos da vida. O que entrega amor e, em troca, recebe violência. Um corpo submerso na caixa d’água.

Alguns versos evidenciam sua tentativa de pertencer a um mundo que lhe vira as costas e de se encaixar em relacionamentos tóxicos: “Tenho andado distraído/chorado um pouco/levado umas porradas e a isso dado o nome de coração/Venho chamando de amor/aquilo que, distante/possa ser casa, ser muro/Venho, dizem aí/imitando e rascunhando o já feito/Mentindo memórias/sendo estrangeiro.”

Em outros, o eu lírico parece ciente daquele que viria a ser seu destino: “Tão lindo seu rosto/me lembro que também sorria/entre estocadas na Caixa d’Água/sim me lembro meu assombro.”

Também há momentos na obra em que pai, mãe e irmã ganham voz, em meio à revolta e ao desespero. “Sei que meu filho/não será enterrado/aqui ele não toca o Céu/não Venta o nosso rosto/Os passos de meu filho/são sete os palmos/vai-se o véu, sujeito próprio/em mim, os/caquinhos colecionando/a toalha bordada com seu nome”, diz o pai, enquanto a mãe lamenta: “Pensa em mim/como aquela que/não parte/perde o filho.”

Com versos ágeis e uma atmosfera claustrofóbica, Febraro de Oliveira constrói um livro de poesia repleto de narrativas e subtextos. O autor subverte estruturas, expõe violências e denuncia injustiças cotidianas a partir de uma escrita sensível, autêntica e pra lá de corajosa.

“Caixa d’água” distribui metáforas memoráveis, métricas anárquicas e versos tão potentes que dão à obra a capacidade de ocupar novos espaços e cobrar respostas de um país em que o ódio continua a matar diariamente.

 

Bruno Inácio é jornalista, mestre em comunicação e autor de “Desprazeres existenciais em colapso” (Patuá) e “Desemprego e outras heresias” (Sabiá Livros). É colaborador do Jornal Rascunho e da São Paulo Review e tem textos publicados em veículos como Le Monde Diplomatique, Rolling Stone Brasil e Estado de Minas.

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