China e Estados Unidos, até onde vai a escalada de sanções? - Le Monde Diplomatique

GUERRA COMERCIAL, TENSÕES ESTRATÉGICAS

China e Estados Unidos, até onde vai a escalada de sanções?

por Martine Bulard
outubro 1, 2018
Imagem por Alves
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Em cruzada contra as importações, Donald Trump ameaça sobretaxar todos os produtos chineses que entram nos Estados Unidos. O presidente espera formar uma frente com a Europa contra Pequim. A China, por sua vez, procura se livrar da influência ocidental em sua economia acelerando sua modernização e encontrando novos mercados, especialmente com as “rotas da seda”

Estados Unidos e China resolveram declarar guerra (comercial), e nada parece impedi-los. Donald Trump começou por ameaçar aqueles que “estão nos roubando” (18 abr. 2017), recebendo uma advertência de Xi Jinping: “Não se pode esperar que a China engula sapos em função de seus interesses” (18 out. 2017).1 Da escalada verbal, logo passamos para o mecanismo das sanções aduaneiras. Washington elevou as tarifas (de 10% para 25%) sobre uma série de importações chinesas; Pequim reagiu.

Iniciada no primeiro semestre, a novela continuou durante o meio do ano e ameaça ir muito além da virada para 2019. No final de agosto, o equivalente a US$ 100 bilhões de produtos chineses (aço, alumínio, químicos, têxteis, eletrônicos) foi sobretaxado ao entrar nos Estados Unidos, medida logo seguida por um aumento das tarifas chinesas sobre US$ 50 bilhões de produtos norte-americanos (soja, carne suína, automóveis). Mais represálias estão sendo preparadas. Da parte dos Estados Unidos, foi elaborada uma lista com 1.300 produtos, para um valor possível de US$ 200 bilhões (de um total de US$ 505,6 bilhões em importações em 2017). Da parte da China, foram indicados 150 produtos, que podem representar US$ 60 bilhões (de US$ 128 bilhões de produtos norte-americanos em 2017).

A julgar pelo que dizem os membros de alguns círculos de Pequim e Hong Kong, que preferem não falar publicamente: “A China parece ter sido surpreendida pela blitz protecionista de Trump, além de ter subestimado a ascensão do sentimento antichinês na elite norte-americana”.2 E vale citar um antigo conselheiro político dos Estados Unidos: “Para compreender a política de Washington, Pequim confia demais em Wall Street e na elite política (incluindo Henry Kissinger, que ajudou a abrir as relações entre os dois países) – pessoas que não têm nenhuma influência sobre Trump”.

De fato, os negociadores chineses, liderados pelo homem de confiança do presidente, Liu He, pensavam ter chegado a um acordo em maio, prometendo elevar as compras de energia e de produtos agrícolas, além de oferecer às empresas estrangeiras – particularmente dos Estados Unidos, claro – a possibilidade de compor maioria em companhias chinesas. Muito pouco, e tarde demais. De acordo com a agência financeira norte-americana Bloomberg, “Trump parou o acordo”. Foi o suficiente para convencer a China de que o presidente dos Estados Unidos “não desistirá até bloquear a ascensão chinesa”.3

O sentimento é amplamente compartilhado entre as elites chinesas. O debate (muito abafado) gira basicamente em torno de como operar com o amigo da América do Norte. Alguns, como o diretor do Centro de Estudos Americanos da Universidade Renmin, em Pequim, Shi Yinhong, acreditam que esse confronto “se deve em grande parte à China, que durante anos não fez nada a respeito”,4 e recomenda cautela. Um falso problema, explica o oficialíssimo Global Times: “A curto prazo, os Estados Unidos não vão desistir de conter a China. [O conflito] pode, portanto, ser resolvido por meio de nossos esforços para sermos discretos e ajustar nossa atitude diplomática e pública”.5 O jornal faz referência direta à doutrina do pai das reformas, Deng Xiaoping, que defendia “esconder seus talentos e esperar sua hora”. Já o atual presidente, ao contrário, optou por afirmar-se no cenário internacional como o número um de um “grande país” – para usar suas palavras –, falando com os Estados Unidos de igual para igual.

As discussões não foram totalmente suspensas. No final de agosto, uma delegação liderada pelo vice-ministro do Comércio, Wang Shouwen, viajou para Washington. Ninguém esperava resultados, e não houve nenhum. Wang foi chamado de “valentão comercial” (trade bully) por autoridades dos Estados Unidos. Veja quem desencoraja o diálogo…

Para Yifan Ding, um dos assessores econômicos do presidente chinês, a agressividade dos Estados Unidos lembra a ofensiva lançada na década de 1980 pela administração Reagan “contra o Japão, então segunda maior economia do mundo”. Com tarifas alfandegárias exorbitantes (até 100% sobre televisores e aparelhos de videocassete) e forçando uma elevação das taxas de juros japonesas, os Estados Unidos conseguiram “dobrar” o país, a ponto de levá-lo a uma depressão da qual ele ainda não se recuperou completamente… Um cenário inconcebível para os chineses: “Não queremos guerra comercial, mas temos condições de enfrentá-la se acontecer”, garante Yifan.

EUA brincam de estar assustados

Como outrora Tóquio, Pequim também apostou nas exportações, que por muito tempo foram o motor de seu crescimento. Para sair da estagnação e do declínio do período maoista, no final da década de 1970, os dirigentes comunistas usaram as ferramentas que tinham à disposição: mão de obra numerosa, educada, disciplinada e mal paga; capital estrangeiro em busca de novos mercados; instituições internacionais interessadas em derrubar as travas de proteção das economias do Velho Mundo. “A China hesitou em reunir-se, em 2001, à Organização Mundial do Comércio [OMC]”, reconheceu o presidente Xi no Fórum de Davos de janeiro de 2017. “Mas concluímos que era necessário ter a coragem de nadar no grande oceano dos mercados mundiais, e aprendemos a nadar”6 – tão bem e tão rápido que o país alcançou o dobro do tamanho das economias francesa, britânica, alemã e japonesa. Seu PIB chegou a US$ 11,2 trilhões em 2016, contra US$ 18,569 trilhões nos Estados Unidos. Há quem pense, sobretudo em Washington, que a China está em posição de ultrapassar os Estados Unidos. No linguajar florido pelo qual é conhecido, o presidente Trump lançou: “Todos os imbecis obcecados pela Rússia deveriam estar se preocupando é com a China”.7 Ele marcou um ponto, em agosto, com a lei de defesa nacional aprovada pelo Congresso (inclusive pela maioria dos democratas), que faz da China e da luta para “frear sua influência” a “grande prioridade dos Estados Unidos, [que] requer a integração de múltiplos elementos, especialmente diplomáticos, econômicos, militares e de inteligência”.8 Não estamos falando só de comércio…

No entanto, não há dúvida sobre a superioridade dos Estados Unidos em todos esses campos (tecnológico, econômico, diplomático e militar) e, embora o Império do Meio cresça em alta velocidade, seu PIB per capita não chega a 15% do apresentado pelos Estados Unidos. No momento, a América brinca de estar assustada. Em compensação, o superávit comercial chinês bate recordes: chega a US$ 276 bilhões, o equivalente a algo entre 35% e 40% da fatura comercial norte-americana. “Nossa indústria tem sido alvo, há anos, até mesmo décadas, de ataques comerciais injustos”, brada Trump. “E isso nos levou a fechar fábricas, altos-fornos, demitir milhões de trabalhadores, dizimar comunidades.”9

A desindustrialização, iniciada bem antes da chegada da China ao cenário mundial, não entra na discussão. Nem a desesperança e a raiva do povo, que se volta cada vez mais para políticos autoritários e representantes de extrema direita, tanto nos Estados Unidos como na Europa e na Ásia. Isso não deve confundir o diagnóstico. Não são as “práticas injustas” que fizeram o sucesso chinês – mesmo que elas existam, como mostram os inúmeros recursos à OMC. A China, que adora se gabar de seus resultados (800 milhões de chineses saíram da extrema pobreza), usou em seu favor regras criadas pelos países mais poderosos, a começar pelos Estados Unidos. Nada, porém, obrigou os líderes ocidentais a abrir seu país a todos os ventos comerciais, incentivar as deslocalizações e suprimir, um por um, seus instrumentos de intervenção econômica sob a pressão das multinacionais – que se atiraram para o território chinês. Ainda hoje, mais de quatro em cada dez exportações “chinesas” (42,6%) são feitas por empresas estrangeiras que controlam toda a cadeia do produto (da concepção à venda), obtendo o máximo lucro. O exemplo mais conhecido é o do iPhone da Apple, montado na China, mas cuja participação chinesa não passa de 3,8% do valor adicionado, enquanto 28,5% voltam para os Estados Unidos.

Claro que os dirigentes chineses pressionaram as empresas estrangeiras para transferir parte de sua tecnologia e know-how, principalmente nos setores de aeronáutica, eletrônica, automóveis, trens de alta velocidade, energia nuclear etc. Mas as multinacionais não reclamaram, felizes em poder explorar a mão de obra barata e ignorar as consequências ambientais de sua produção. É lamentável que as autoridades não tenham tido tanto zelo para proteger sua população contra o aumento da desigualdade e da poluição; mas não é isso que aparece no rosário de queixas apresentadas por Trump e seus amigos.

O que os incomoda é que “o Partido Comunista Chinês não foi domado pelo comércio. O Partido-Estado exerce firme controle sobre a economia chinesa”, afirma o economista Brad W. Setser.10 Em outras palavras, ali os gigantes do capitalismo não podem fazer negócio como bem entenderem. Isso se aplica a setores tradicionais, como a siderúrgica, mas também aos gigantes da web, como Google, Amazon e Facebook, sendo a Apple a única do Gafa [acrônimo dessas quatro empresas] que conseguiu escapar. Com Alibaba, Tencent, Weibo e WeChat, a China desenvolveu de fato suas próprias tecnologias. É verdade que as autoridades comunistas as usam para censurar os oponentes, mas os 802 milhões de internautas (57,7% da população) e seus metadados continuam distantes do alcance do Gafa, o que faz da China um dos poucos recantos no mundo a escapar de seu controle. Eis por que o moderníssimo Vale do Silício – bastião democrata – está do lado do bom e velho rust belt – o “cinturão da ferrugem”, feudo do presidente dos Estados Unidos – e dos gigantes da siderurgia. Eles “têm laços muito estreitos com diversos altos funcionários” da administração Trump, incluindo o representante do comércio, Robert Lightizer, já presente na equipe de Reagan da década de 1980, como lembra uma reportagem do jornal The New York Times.11 É mais uma questão de defender os acionistas do que os trabalhadores enraivecidos, mesmo que alguns destes possam se beneficiar com a luta contra as importações baratas.

Se o livre-comércio louvado um pouco em toda parte – inclusive por Xi – abandonou à própria sorte milhões de trabalhadores em todo o mundo e causou impactos ambientais sem precedentes, o protecionismo inteiramente voltado ao livre lucro, como praticado por Trump, também não mudará quase nada para a imensa maioria dos cidadãos norte-americanos. A queda de braço comercial pode, portanto, ter poucos vencedores… ou nenhum.

Para o principal assessor econômico da Casa Branca, Lawrence Kudlow, não há dúvida: a China vai acabar cedendo às injunções do presidente dos Estados Unidos. Segundo ele, a economia chinesa está à beira da explosão. “As vendas no varejo e os investimentos estão afundando”, disse em uma discussão de gabinete filmada por jornalistas norte-americanos com a aprovação de Trump.12 Mas nenhum dado confirma tais fanfarronices. As importações chinesas continuam subindo, 27,3% entre julho de 2017 e julho de 2018 – o que implica uma atividade sustentada. Quanto às exportações, elas se mantêm em ascensão – menos rápida, mas ao respeitável ritmo de 12,2% ao ano.

 

O sonho de uma coalizão asiática

Claro que esse confronto não será indolor. As vendas para os Estados Unidos representam 20% do total dessas exportações. Sua redução drástica inevitavelmente resultará em cortes de produção, em setores como o de eletrônicos e têxteis, mas também naqueles com sobrecapacidade, como o setor de aço e o de produtos químicos. Isso deve acelerar as reestruturações em curso, com o fantasma de movimentos sociais com consequências incalculáveis. Além disso, no final de agosto, o primeiro-ministro Li Keqiang prometeu US$ 100 bilhões em ajudas a empresas afetadas pelas restrições comerciais. Mais que o impacto direto sobre o crescimento – entre 0,1% e 0,2%, segundo os estudos feitos pelos Estados Unidos –, é a sincronização entre essas reestruturações e a mudança para uma economia mais qualificada, planejada pelo governo, que pode se revelar temível.

Por enquanto, a China exibe uma taxa de crescimento de 6,7% para o segundo trimestre de 2018, mais que a previsão oficial (6,5%). Esse número destaca acima de tudo o nível necessário para absorver a mão de obra que chega ao mercado de trabalho e evitar um conflito social de grande envergadura. No entanto, faz muito tempo que as exportações não servem mais como locomotiva da economia chinesa. O consumo interno e os investimentos (respectivamente 43,4% e 40% do PIB) assumiram o controle. Se as coisas ficam ruins demais, o presidente tem instrumentos para reiniciar a máquina. Claro que ele não pode repetir o golpe de 2007-2008, quando, no momento da crise, seu antecessor abriu amplamente as torneiras fiscais, à custa de uma confusão assustadora e um endividamento preocupante – que o atual governo busca reverter. Mas ele tem margem para ação. Diferentemente do Japão na década de 1980, “nós temos um mercado de 1,3 bilhão de habitantes, que Trump e seus assessores não conseguem destruir”, destaca um economista chinês.

Xi e sua equipe têm uma segunda arma para enfrentar uma desaceleração: o plano “Made in China 2025”, lançado há três anos para desenvolver uma indústria mais inovadora e ganhar autonomia em dez setores (como tecnologia da informação, robótica, aeronáutica e espacial, engenharia oceânica, veículos elétricos, biomedicina, novos materiais e energia). Os gastos com pesquisa e desenvolvimento, públicos e privados, acompanharam: eles são mais de 2,3% do PIB. Naturalmente, o governo queria encurtar o tempo de aquisição das tecnologias do futuro, comprando empresas no exterior; mas os Estados Unidos vetaram, e alguns governos europeus, como o da Alemanha, impuseram restrições. No entanto, há reservas financeiras suficientes para prolongar a aposta na própria China. Não houve anúncios fanfarrões, mas, como explica Yifan, “o embargo dos Estados Unidos sobre os produtos eletrônicos colocou uma pulga atrás da orelha das autoridades, porque a China é o maior mercado do mundo para os chips norte-americanos. Em pouco tempo, as empresas chinesas estarão produzindo esses componentes… e a um preço melhor”.

Além de recuperar sua própria economia, as autoridades chinesas têm dois objetivos: manter sua liberdade e ganhar audiência no mundo, especialmente junto aos países em desenvolvimento. A utilização por Trump de tecnologias sob patente norte-americana e do “privilégio exorbitante do dólar” – nas palavras de Valéry Giscard d’Estaing, em 1964 – para sancionar as empresas que trabalham com o Irã e forçá-las à ruptura deve ter acabado de convencê-las a sair da armadilha da dependência. Elas inclusive disseram que a China continuará fazendo negócios com o Irã usando o yuan, em conformidade com acordos financeiros bilaterais. “Isso teria sido impossível sem a política de internacionalização de nossa moeda”, enfatiza um economista de Pequim especializado em relações internacionais, que prefere permanecer anônimo.13 Mas os principais bancos chineses ainda operam majoritariamente em dólares. Já os produtos exportados para países odiados pelos Estados Unidos não podem conter nenhum componente norte-americano, para não cair nas sanções de Trump. O grupo telefônico Zhongxing Telecommunication Equipment (ZTE), que esteve banido do além-Pacífico por fazer negócios com a Coreia do Norte e o Irã, teve de recuar; ele agora é observado de perto por Washington.14 Essa forma de soberania limitada é difícil de engolir para os nacionalistas de Zhongnanhai, sede do poder, à sombra da Cidade Proibida.

Com toda a probabilidade, o plano “Made in China 2025” será acelerado, embora esteja justamente no catálogo de queixas apresentadas pelos Estados Unidos. Para este país, o plano é visto como um perigoso “desejo de autossuficiência”, garante Elizabeth C. Economy, diretora de Assuntos Asiáticos no Conselho de Relações Exteriores, em Nova York, e até como uma “nova revolução [que] pretende desafiar os valores e as normas internacionais promovidos pelos Estados Unidos”.15 Aqui, novamente, estamos longe de uma simples briga comercial. O diretor do Centro de Política Econômica Internacional da Universidade de Pequim, Wang Yong, contesta essa visão: “O argumento de que o modelo de desenvolvimento chinês e sua filosofia têm o objetivo de enfrentar os Estados Unidos não faz muito sentido. A China não defende a disseminação de sua ideologia para o exterior e insiste no direito de cada um seguir seu próprio desenvolvimento”.

É verdade que o país não tem ambições messiânicas e que seu modelo político não é muito atrativo, mas ele tem intenções de mexer nas regras elaboradas após a Segunda Guerra Mundial sob a égide dos Estados Unidos, do Banco Mundial e do FMI. O presidente Xi não esconde essa vontade: “Queremos participar ativamente da reforma do sistema de governança global”, declarou aos quadros do Partido Comunista Chinês durante a Conferência Central sobre trabalho diplomático,16 em junho. E, para isso, a China tece sua teia.

Aliás, esta é sua terceira arma para combater o embargo dos Estados Unidos: contar com outros parceiros, a começar por seus vizinhos. A maioria deles teme seu poder e seu apetite econômico, mas precisa de mercados consumidores, e o comércio intra-asiático, sozinho, responde por 43% do comércio dos países da região,17 especialmente desde que, em sua febre punitiva, o presidente dos Estados Unidos resolveu sacudir seus aliados históricos, Japão e Coreia do Sul, taxando-os também (aço, automóveis etc.). A China poderia aproveitar a oportunidade para relançar a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, do inglês Regional Comprehensive Economic Partnership), um acordo de livre-comércio concebido pela China para enfrentar o Acordo de Parceria Transpacífica (TPP), lançado por Barack Obama com a ideia – já então – de conter a China, depois desprezada por Trump. Além dos dez países da Associação das Nações do Sudeste Asiático (Asean, do inglês Association of Southeast Asian Nations),18 o acordo inclui Japão, Austrália, Nova Zelândia, Índia e Coreia do Sul.

O diretor do Centro de Pesquisa Austrália-Japão, da Universidade Nacional da Austrália, Shiro Armstrong, vê na parceria “a oportunidade natural de construir uma coalizão asiática […]. O grupo inclui algumas das maiores e mais dinâmicas economias do mundo”. E cita um estudo australiano segundo o qual, “mesmo que as tarifas aduaneiras aumentassem 15 pontos no mundo (como durante a Grande Depressão), os países da RCEP poderiam continuar sua expansão abolindo as tarifas entre si”. Nada garante que todos estejam prontos para isso. A Austrália, por exemplo, acabou de banir o grupo ZTE, que iria implantar a rede 5G. Mas discussões estão em curso. China e Japão voltaram a conversar. A Coreia do Sul procura pontos de apoio em suas negociações com a vizinha do norte. A Índia tenta um equilíbrio entre China e Estados Unidos…

Quanto às empresas chinesas, elas começaram a se deslocalizar em busca de salários ainda mais baixos, como os de Bangladesh, Vietnã e África do Sul, e também para contornar o embargo e as altas tarifas aduaneiras: com esse movimento, a produção realizada por grupos chineses leva o carimbo “Made in Bangladesh”, “Made in Vietnam” ou “Made in South Africa”, escapando das taxas norte-americanas.

Além disso, as famosas “rotas da seda”, que permitem chegar à Europa por terra, cruzando as repúblicas da Ásia central e a Rússia, ou por via marítima, passando pela África, também devem servir como mercado, em particular no que diz respeito à construção de infraestrutura. Com grande habilidade, o presidente chinês conseguiu transformar essas rotas míticas em um projeto multilateral, criando o Asian Infrastructure Investment Bank (AIIB). Com 57 fundadores, entre os quais a Alemanha, o Reino Unido, a França, a Índia e a Coreia do Sul, evita-se qualquer isolamento financeiro e diplomático. A China teme, acima de tudo, fechar-se em um cara a cara com os Estados Unidos, como outrora a União Soviética.

Por enquanto, ela aposta nas represálias comerciais contra produtos norte-americanos, para mostrar que não se curva. Nos Estados Unidos, tais medidas têm algum efeito sobre os agricultores, que, com o aumento dos direitos alfandegários, veem suas vendas despencarem, especialmente as de cereais, carne suína e bovina. Trump prometeu-lhes uma ajuda substancial (US$ 12 bilhões), mas ela chega a conta-gotas e, de acordo com The Wall Street Journal, começam a aparecer preocupações: “Patriotismo não paga as contas”, diz um agricultor afetado.19 Ainda mais quando, oportunamente, a China aboliu todas as tarifas sobre a soja importada de Bangladesh, da Índia e da Coreia do Sul, e estabeleceu seu mercado no Brasil (para cereais e carne) e na Austrália. E sabemos que um cliente perdido não é fácil de reconquistar.

A cruzada da Casa Branca contra o invasor chinês é muito bem-vista nos Estados Unidos. No governo, muita gente acha que a China vai se dobrar, como fez o México, o qual aceitou certas restrições, em especial o estabelecimento de um salário mínimo de US$ 16 a hora em algumas empresas exportadoras de automóveis.20 Nunca antes um acordo de livre-comércio havia incluído uma cláusula social, mesmo que sua aplicação seja restrita. A situação é diferente para os gigantes do varejo, como o Walmart, que faz 80% de seu abastecimento no além-Pacífico, e para outros ramos. Reunidos em Washington em meados de agosto, seus representantes avaliaram que “esses direitos causarão desastres financeiros nos [seus] setores e trarão prejuízo aos consumidores norte-americanos”.21 O argumento é clássico quando se trata de opor-se a qualquer proteção, mas não menos verdadeiro. Para serem efetivas, essas decisões teriam de ser acompanhadas por um aumento substancial do poder de compra dos norte-americanos – o que não parece estar na agenda – e, acima de tudo – e ainda mais improvável –, de um retorno das indústrias para o solo dos Estados Unidos. Segundo a Bloomberg, os empresários do setor têxtil e de vestuário, por exemplo, já estão se voltando para outros territórios: Vietnã, Camboja etc.22 Certos setores, como os que utilizam aços especiais, já obtiveram isenções e podem importar mais livremente.

Tanto nos Estados Unidos como na China, os grandes perdedores desse conflito certamente serão os cidadãos comuns. Enquanto o círculo de Trump espera amolecer Pequim, o de Xi acredita que, uma vez passadas as eleições norte-americanas de meio de mandato, em novembro, Washington voltará à mesa de negociações. No entanto, observa An Gang, pesquisador da Pangoal Institution, um think tank chinês, a queda de braço vai muito além da questão comercial: “A disputa agora tem implicações militares e estratégicas”.23 Os círculos dirigentes temem que os problemas tenham repercussões no Mar da China e em Taiwan, onde as tensões nunca foram tão fortes.

Uma coisa é certa: o modelo de internacionalização e especialização da produção colocado em prática nas últimas décadas, tanto no Ocidente como na China, está fazendo água. No entanto, nenhum modelo alternativo foi esboçado, nem entre os adeptos do “comunismo” à chinesa nem entre os apologistas do capitalismo ao estilo de Washington, mesmo com um toque de protecionismo, o que deixa aberta a porta para escaladas de todo tipo.

 

*Martine Bulard é jornalista do Le Monde Diplomatique.

 



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