VIOLÊNCIA ESTRUTURAL

Desejo e reparação em saúde mental coletiva

É possível reparar o dano? E quando é realizado por pessoas as quais deveriam nos proteger, como pais, irmãos, parentes?

Ao longo da evolução humana, a auto-predação é um elemento em comum. O porquê um humano fere, intencionalmente, outro da mesma espécie, permanece central nas pesquisas sobre o comportamento humano e o trauma coletivo. O resultado destes eventos, cada vez mais, é testemunhado por profissionais da saúde, visto o elevado índice de sofrimento mental ao redor de todo o planeta. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 970 milhões de pessoas no mundo vivem hoje com algum transtorno mental, principalmente ansiedade e depressão; em populações afetadas por guerras e deslocamentos, essa prevalência ultrapassa 22%. Uma epidemia global, ninguém fica de fora. Vitimas de guerras, deslocamentos forçados, intolerância política, religiosas e também da própria família e da sociedade que o ser vive, podemos dizer que há um sofrimento crônico genômico e transgeracional do trauma que estes eventos causam na biografia humana. A ferida não é apenas psicológica, mas social e civilizatória: atravessa famílias, instituições e democracias.

É possível reparar o dano? E quando é realizado por pessoas as quais deveriam nos proteger, como pais, irmãos, parentes? Nestas situações, o trauma como dano moral e físico, ultrapassa o campo pessoal e alcança também o campo jurídico e suas formas de como mitigar o outro que foi lesado, levantando questões sobre responsabilidade, justiça e reparação moral.

Nas relações humanas, cada conflito traz uma história de desejo não ouvido. A violência, em suas múltiplas expressões, seja psicológica, política, institucional, é o modo mais precário que encontramos para expressar a ausência de escuta. O sociólogo norueguês e fundador dos estudos de paz e conflito, Johan Galtung chamava de violência estrutural aquilo que perpetua a desigualdade e a dor sem necessidade de armas. O trauma, nesse sentido, é sempre relacional: nasce do que faltou entre mim e o outro: não há trauma sem contexto, e não há cura sem reconhecimento do prejuízo.

O trauma interrompe o tempo interno e nos causa o dano. Não é o passado que dói, mas o presente que repete o passado porque não pôde integrá-lo.

A palavra dano vem do latim damnum, que significa perda, ferida ou prejuízo. O dano é uma forma de silêncio. Quando uma dor não é reconhecida, ela se transforma em sintoma: no corpo, na mente, nas relações e, em escala ampliada, nas estruturas da sociedade. A palavra reparação origina-se do latim reparare, que significa restaurar, tornar novamente íntegro, reconstruir o que foi quebrado. Enquanto damnum expressa perda e fragmentação, reparare evoca o gesto de recompor – não apenas o objeto ferido, mas também o sentido do vínculo. Reparar, portanto, é devolver forma ao que foi desfeito, é transformar a dor em aprendizado e o conflito em consciência.

A neurociência demonstra que memórias traumáticas permanecem vivas no corpo: o sistema límbico, emocional e que nos humaniza, reage como se o perigo ainda estivesse presente, o complexo sistema corporal fica preso a um “antes” que nunca se resolve, um o estresse crônico e a não-reparação que geram respostas inflamatórias, imunológica e memórias corporais que nos vulnerabilizam e nos adoecem.

Pesquisas em epigenética revelam que traumas podem deixar marcas químicas transmissíveis por gerações, alterando a expressão de genes ligados ao estresse e à imunidade. O neuropsiquiatra austríaco Wilhelm Reich, e seu discípulo norte-americano Alexander Lowen, descreveram o corpo como biografia encarnada: cada músculo carrega uma história de defesa, cada postura revela um medo antigo. Ambos, foram pioneiros ao integrar corpo e emoção, abrindo caminho para a compreensão psicofisiológica do trauma. Assim, o trabalho terapêutico e restaurativo não é apenas cognitivo, mas também corporal, afetivo e social, um processo de reinscrever o tempo, de reabrir o fluxo vital bloqueado.

O sofrimento individual não se encerra na pessoa, ele reverbera como ruído coletivo, um eco contínuo e permanente, como um zumbido que nunca cessa em nossos ouvidos. E atormentado e doente, o trauma pessoal torna-se cultural, e o desamparo íntimo se converte em desumanização social. Todos nós já vivemos uma reação de outrem que nos provocou a sensação que o outro foi “desumano”. E também, todos nós, de alguma forma, também já provocamos, em alguém, tal reação, mesmo que não nos lembremos. Afinal, o trauma é a voz não ouvida também do outro. Então, para a reparação é necessário o desejo dele também.

Freud, neuropsiquiatria austríaco e fundador da psicanálise, identificou no desejo uma força paradoxal: buscamos o que nos falta ou que não foi concluído, mas também repetimos o que nos feriu. Na ausência de reconhecimento, o desejo torna-se compulsão: voltamos às mesmas cenas, às mesmas relações, aos mesmos abismos, as recaídas das dependências, como nos demonstra a neurociência da dopamina. A cultura contemporânea, saturada de estímulos e carente de vínculos, repete esse padrão de ciclos de violência em escala coletiva: redes de ódio, cancelamento, polarização e consumo desenfreado são expressões de uma civilização traumatizada que não consegue metabolizar sua dor. A filósofa alemã Hannah Arendt alertava para o perigo da banalidade do mal: quando deixamos de pensar e sentir – reflexão e empatia – passamos a reproduzir a violência como rotina. A reparação, ao contrário, restaura a humanidade perdida, pois reintroduz o sentir na esfera pública. Ela exige coragem emocional, responsabilidade e empatia, qualidades escassas em tempos de automatismos e egos digitais.

Transformar o conflito exige dar outro destino ao desejo de reparação e não suprimi-lo, mas ressignificá-lo. A paz não é ausência de tensão, mas a capacidade de suportar a diferença sem recorrer à destruição. É sustentar o debate e não polarizar, é discutir sem combater e disputar territórios.

É o que o pensador grego pré-sócratico Demócrito descrevia como euthymía, da junção grega de eu (“bom”) e thymos (“alma” ou “humor”), um estado de equilíbrio do ânimo, e que o filósofo romano estoico Sêneca desenvolveu como a tranquilitas animi tranquilidade interior e o bom ânimo que não negam o mundo, mas o compreendem. Essa condição, que os antigos concebiam como sabedoria emocional, hoje se aproxima do conceito de estabilidade afetiva em saúde mental, equilíbrio que evita as oscilações entre euforia e depressão.

É o mesmo princípio que norteia o tratamento dos transtornos de humor, como a distimia (humor persistentemente baixo), a hipomania (elevação moderada do humor) e suas formas mais intensas, a depressão maior e a mania. “Na linguagem da neurociência contemporânea, poderíamos dizer que a euthymía reflete uma homeostase emocional – uma sinfonia entre córtex e sistema límbico.”

Assim, a euthymía representa não apenas um ideal filosófico, mas também um objetivo clínico: o restabelecimento do ritmo emocional que permite viver com serenidade e consciência. A reparação, portanto, é também um gesto terapêutico, ético e político e o mais revolucionário do nosso tempo e considero também, o que mais nos humaniza. Reparar o que causamos no outro é muito difícil. E o que causamos para nós mesmos, mais ainda. Não se trata de esquecer, mas de transformar o vínculo entre vítima e agressor, entre passado e presente, entre indivíduo e sociedade.

Na justiça restaurativa, a reparação começa pelo reconhecimento: “O que você fez me feriu.” Quando a escuta é verdadeira, o dano perde poder sobre o futuro. A cultura punitiva, em contrapartida, apenas desloca o trauma, não o cura. Jared Diamond, cientista norte-americano, no inicio do seu livro Colapso: como as sociedades escolhem o fracasso ou o sucesso, ele faz esta crítica ao atual sistema jurídico vigente no mundo baseado no foro romano: precisamos sentar coletivamente, e ouvir o outro lado e aguardar o pedido do como podemos reparar. É assim que ele presenciou na Nova Guiné e que as câmaras de arbitragem tentam imitar: a prática da reparação comunitária por meio de assembleias onde as partes são ouvidas e o acordo tem valor simbólico e material. O que importa não é o castigo, mas o restabelecimento do vínculo social. Rápido, coletivo e sem custo para o Estado.

Promover saúde mental é, antes de tudo, promover reparação social. Cada gesto de cuidado, na família, na escola, no trabalho, é um ato político de prevenção da barbárie, como bem nos alerta o filósofo e educador francês Bernard Charlot. Educar para a paz, como propunha a médica e educadora italiana e indicada diversas vezes ao Nobel da Paz, Maria Montessori, é ensinar a reparar, a escutar, a cooperar. O psicólogo e germano-americano Erik Erikson nos oferece a segurança básica dos primeiros anos de vida como essencial para nosso êxito como adultos. E Rudolf Steiner, filósofo e educador austríaco, nos estimula, com sua pedagogia integrativa e holística, que iniciemos nossa biografia pela educação dos sentidos e sua corporeidade, pois somos primeiro vitalidade, depois consciência e maturidade. Adultos que se apresentam como difíceis são, na realidade, crianças feridas, danificadas e desamparadas que ainda não se reconhecem como tal e perpetuam o dano no coletivo.

A neurociência confirma: vínculos seguros e ambientes compassivos modulam o sistema nervoso, reduzem inflamações e favorecem plasticidade cerebral, a reserva cognitiva. O cuidado, portanto, é também uma forma de regulação neurobiológica.

A Curadoria Biográfica®, que desenvolvi ao longo de décadas de pesquisa e prática médica, parte dessa premissa: a dor precisa de tradução, não de negação, com ritmo sobre o propósito e o futuro. Ao integrar autoconhecimento, mediação e corporeidade, o processo de reparação torna-se também um caminho de saúde, uma reconciliação entre biografia e biologia, entre a história que vivemos e o corpo que a carrega. E assim conseguimos planejar o futuro.

E como atuar? A primeira dimensão é a da consciência. Reconhecer, portanto, o sofrimento, é o passo inicial para a reparar o dano que o outro nos causou antes de pedir reparação e desejo de justiça. Antes de solicitar algo ao outro, é essencial nomear o dano e perguntar-se: “Qual parte de mim foi atingida? O que ficou sem nome ou sem amparo naquele tempo?” Esse reconhecimento interno já inicia o processo de cura, mesmo que o outro jamais o repare.

Saúde mental: imagem de duas pessoas dando as mãos. O fundo está desfocado.
Crédito: Caroline Ferraz/Sul21

A segunda dimensão é a da comunicação e o convite é formular um pedido claro, não uma exigência. “Preciso que você me ouça sem justificar-se.” “Gostaria que você reconhecesse que aquilo me causou dor.” Ou “Quando pedi e não me ajudou e tinha condições, me feriu”. O pedido é uma ponte: não busca o passado perfeito, mas o presente possível para ambos os lados. É a transformação do conflito, não a resolução, mas o movimento que oxigena, relaxa e nos faz inspirar e aliviar a falta de ar contínua.

E, por fim, a dimensão da reparação. Reparar não é apagar o que aconteceu, mas transformar o vínculo. A pessoa pode expressar-se por um gesto, uma escuta, uma carta, ou simplesmente por um comentário como “agora eu entendo”. Ou apresentar o valor material que simboliza, ressignifica o dano em reparo e cura. Diamond nesta obra, narra o atropelamento e morte de uma pessoa de uma tribo vizinha. Quem conduzia a discussão era o coletivo, o conselho, o mais velho de cada parte e o reparo era algo que pudesse manter a presença da lembrança daquele que partiu, ainda trazendo curas e memórias transformadoras para quem deixou. Naquele caso, o carro que atropelou foi o reparo para que a outra comunidade pudesse dar o sustento para aquela família que ficou sem o ente. O importante é que o pedido ajude ambos a saírem da repetição e entrarem na presença.

A civilização saudável será aquela que aprender a reparar, em vez de punir, excluir ou silenciar. Cuidar é o verbo mais revolucionário. E educar para o futuro que dá esperanças, ou podemos dizer que este é o futuro da empatia, ou ainda da eutimia aristotélica. Reparar laços, reparar palavras, reparar gestos e também reparar sistemas que adoecem e excluem.

Cada escuta é uma forma de cura. Cada reconhecimento é uma restituição simbólica que devolve dignidade ao humano. O trauma, o dano, não é destino, é um convite à consciência, a convivermos com sequelas e nos adaptarmos. É evolução, é buscar o apoio e a tecnologia social de amparo para seguirmos “ao futuro e além.” E a reparação, quando nasce do desejo de compreender e não de vingar, é o primeiro passo para a paz, dentro e fora de nós. Nada modifica o passado e o que nos danificou, mas o presente pode ser curativo quando conseguimos adquirir a empatia e autoconsciência de revisar, ressignificando e reeditando nossas biografias, e é esta intencionalidade que nos faz nos redimirmos e amarmos. É a epigenética da empatia. Refletir assim não é reabrir a ferida, é reescrever o vínculo, não para cobrar, mas para libertar. Porque é nele que a humanidade decide, todos os dias, se quer repetir ou transformar.

Dedico este artigo a todos meus pacientes que conseguiram superar e também aqueles que ainda estão tentando, como todos nós, seres humanos.

Rubens Harb Bollos é médico, pesquisador e divulgador de ciência, mentor e palestrante. Mestre e Doutor (Ph.D) em Ciências da Saúde pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e Pós-Doutorado em Biologia do Desenvolvimento (USP/ICB). Pesquisador nas áreas de imunologia, epigenética, salutogênese e cultura de paz com foco no estudo de indicadores de êxito em saúde. É presidente-fundador da ABMPP.org (Associação Brasileira de Medicina Personalizada e de Precisão).

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