O silencioso exílio dos iraquianos na Síria

Vendedores de chá pelas ruas, padarias fabricando samoun,1 placas de restaurantes oferecendo especialidades regionais iraquianas, tudo isso agora faz parte da paisagem de Jaramana ou Saida Zainab, nos arredores de Damasco, onde o sotaque iraquiano domina em alguns cafés. Os táxis estacionados nas estações de ônibus de Bagdá, Mosul e Basra lembram que o êxodo …

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Em 1991, por trás do slogan “morte zero”, a hecatombe

Em 1991, o tratamento dado pela mídia ocidental à Guerra do Golfo transmitiu a impressão de uma guerra limpa. Na época, o Ministério da Defesa norte-americano oferecia aos jornalistas boletins que pareciam shows. Para quem não conheceu a Guerra do Vietnã, as demonstrações de Colin Powell, então chefe de Estado-maior das Forças Armadas norte-americanas, e …

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Santa propaganda

"E  todo aquele que discutir a falsidade ou a verdade dos fatos perderá seu tempo; pois a atenção deve voltar-se somente à importância desse mestre, que foi a inspiração para tantos crimes tão tristemente famosos. Não corremos qualquer risco de falar mal de um homem cuja malignidade ultrapassa de longe tudo o que se poderia …

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Antropologia, arma militar

Em operação há vários anos, o programa Sistemas de Terreno Humano (Human Terrain Systems – HTS) foi consideravelmente reforçado pelo Exército norte-americano em setembro de 2007.1 Antropólogos foram recrutados e diretamente integrados (embedded) em unidades de combate nas brigadas e divisões no Iraque e Afeganistão. Eles foram encarregados de aconselhar os comandantes sobre as ações …

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As vicissitudes do “direito de ingerência”

Dei as ordens necessárias para impedir o uso de armas pesadas contra a população civil”, declarou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, no dia 4 de abril de 2011. Algumas horas depois, em Abidjan (capital da Costa do Marfim), os helicópteros de combate da ONU e a força francesa Licorne se juntaram à ofensiva das …

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Guerra preventiva, um conceito perigoso

Em junho de 2002, em frente à Academia Militar de West Point, o presidente norte-americano George W. Bush apresentava a doutrina estratégica que inspiraria sua administração. Mais que um novo conceito de defesa, tratava-se da reformulação dos princípios até então admitidos pelos Estados Unidos, com amplas consequências para a conduta de sua política estrangeira e …

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Malabarismo semântico

"O direito de intervenção e o emprego da força se tornaram a regra, em oposição ao angelismo [desejo de pureza absoluta] que vivi na Bósnia”, alegra-se Phillipe Morillon.1 Esse general francês viveu os massacres de Srebrenica em julho de 1995 enquanto participava, na Bósnia-Herzegovina, de uma força das Nações Unidas impotente. Sua função resumia-se a …

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Havia outra solução para Kosovo

No ano anterior aos bombardeios, em 1998, o Kosovo era um lugar totalmente sinistro. De acordo com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), cerca de 2 mil pessoas tinham sido assassinadas, a maioria albaneses, durante a violenta luta que havia começado em fevereiro de 1997 com as ações do Exército de Libertação do …

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As revoltas árabes e o caos líbio

Até um relógio quebrado marca a hora certa duas vezes por dia. O fato de os Estados Unidos, a França e o Reino Unido terem tomado a iniciativa de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU autorizando o recurso à força contra o regime líbio não deveria ser suficiente para recusá-lo de cara. Um …

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Unilateralismo das grandes potências

A qual “comunidade” se referiam os dirigentes políticos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) quando obrigaram Belgrado a aceitar todas as condições exigidas pela “comunidade internacional”? À comunidade encarnada pela ONU ou apenas àquela formada pela Aliança Atlântica? Por sucessivos deslizes, os discursos oficiais ocidentais relacionam a Otan a instituições multilaterais e confundem …

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“Por que ocupamos o Iraque?”

O Iraque não foi libertado, foi ocupado. É evidente. A expressão “país ocupado” se tornou familiar durante a Segunda Guerra Mundial. Falávamos na época da “França ocupada pelos alemães”, “Europa sob ocupação alemã”. Depois da guerra, falou-se de Hungria, Tchecoslováquia e Leste Europeu ocupados pelos soviéticos. Os nazistas e os soviéticos ocuparam muitos países. Nós …

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E se tivéssemos acreditado nas Nações Unidas em 1990…

Imaginemos… uma manhã de novembro de 1990, os cinco delegados dos membros permanentes do Conselho de Segurança das Nações Unidas se encontram na residência do representante do Reino Unido para preparar uma reunião à tarde. Eles redigem a Resolução n. 678, “Iraque e Kuwait”, autorizando o uso da força. No texto, eles põem peso nas …

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O desafio da prevenção dos conflitos

  Albanês, europeu culto, este antigo estudante de Medicina na Áustria vive no Kosovo. Tem uma família. Conhece a guerra porque ela aconteceu logo ao lado. Os que fugiram e os que voltaram contaram para ele; ele acompanhou pelos jornais, viu na televisão. E, no entanto, como se não conseguisse estabelecer a relação, ele continua …

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A constelação da manutenção da paz

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A boa consciência faz a esquerda dormir…

A queda do comunismo provocou um grande número de efeitos colaterais, em particular na maneira de pensar da esquerda. Enquanto existia, o comunismo forçava tanto seus partidários quanto seus adversários a refletir politicamente, quer dizer, a propor programas a curto e longo prazo, a fixar prioridades e a avaliar as correlações de força. A filosofia …

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Ao norte os exércitos, ao sul os conflitos

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Em nome do humanitarismo

Nunca antes da intervenção aérea da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) na República Federal da Iugoslávia (RFI) o grau de confusão entre guerra e humanitarismo tinha ficado tão evidente. A afirmação de um homem tão respeitável quanto Václav Havel de que “as incursões e as bombas não são provocadas por um interesse material, …

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Um sonho desfeito

Enquanto a Segunda Guerra Mundial prosseguia na Ásia, a adoção da Carta das Nações Unidas, em junho de 1945, em São Francisco, marcava uma virada radical na história das relações internacionais. Todo recurso à força – a guerra ou qualquer outra forma de intervenção militar – passou a ser, em princípio, proibido. Um órgão centralizado, …

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Uma guerra para as mulheres?

A bandeira norte-americana tremula sobre nossa embaixada em Cabul. […] E hoje as mulheres do Afeganistão estão livres”, martelava George W. Bush durante o discurso sobre o Estado da União [State of the Union address], em 29 de janeiro de 2002. A “coalizão contra o terrorismo” teria então feito a guerra para libertar as afegãs. …

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A geopolítica não considera direitos

O que estamos aprendendo nos dias de hoje é que os Estados não se movem pela defesa dos direitos humanos. Eles obedecem à lógica do acúmulo e manutenção do poder. Aprendemos também que as guerras chamadas humanitárias têm muito pouco de humanitárias. Sempre é possível comparar situações semelhantes em contextos diferentes: no caso da Líbia, …

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Paris confrontada com o genocídio dos Tútsis

Eles a apelidaram de “Turquoise” [Turquesa], mas poderiam ter chamado de operação de “Rachat” [Redenção]. Tardia, ambígua, confusa, arriscada: assim se mostrou a intervenção “humanitária” francesa em Ruanda. A tal ponto que ela só foi validada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, em 22 de junho de 1994, após vários dias de ásperos debates. …

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A prova de fogo da ética no Kosovo

Pouco após a chegada das tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) a Pristina, em junho de 1999, Kathy Sheridan, do Irish Times, foi de carro até Vucitrn, uma sinistra cidadezinha dominada pelas forças de segurança sérvias. Chegando lá, viu um corpo isolado estendido numa rua e muitos oficiais do Ministério do Interior …

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Ataques-relâmpago, paz impossível no Afeganistão e no Iraque

Assentadas numa superioridade tecnológica absoluta, as diferentes escolas de pensamento militar norte-americanas criaram conceitos político-militares extremamente midiatizados, como os de “ataque inteligente” ou “morte zero”. Os próprios meios intelectuais, dilacerados pelo drama iugoslavo, o trauma do 11 de Setembro de 2001 ou pelo propósito de derrubar a ditadura iraquiana, reformularam sua relação com a violência …

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