O CONCEITO DE ECONOMIA

Economia da atenção: muito além da preocupação econômica

Este texto tem por finalidade contribuir com as discussões a respeito da economia da atenção, refletir sobre seus efeitos e sobre seu potencial de prejuízo e de utilidade social por meio de algumas considerações sobre um documento da Rede de Economistas da ONU, a UNEN

O conceito de economia da atenção, visto com cada vez mais frequência na mídia e em estudos acadêmicos, se refere ao fato de que a atenção indica o fator de limite de atuação e de consumo dos indivíduos. Nestes tempos de sobrecarga de informação, apresenta-se como um objeto de investigação central e fundamental importância. Cada vez mais, a atenção se torna escassa por causa da necessidade de se lidar tanto com o volume massivo e que tende ao infinito de informações quanto com os danos causados à própria atenção em consequência desses excessos. Isso vem causando preocupação por toda parte, pelas consequências danosas que tem se mostrado capaz de causar.

A UNEN, United Nations Economist Network (Rede de economistas das Nações Unidas)[1], é composta por um grupo de economistas que discute questões de interesse e relevância partilhados entre os membros da ONU com a finalidade de cumprir a agenda de desenvolvimento sustentável.  Sua contribuição recente mais importante se assenta sobre questões relacionadas às chamadas Novas Economias para o Desenvolvimento Sustentável, dentre as quais aparece a Economia da Atenção.

A respeito dela, disponibiliza-se um documento chamado New Economics for Sustainable Development, Attention Economy, elaborado por Chantal Line Carpentier e colaboradores[2]. A partir dele, define-se economia da atenção como um conceito que toma o excesso de informação como um problema econômico, segundo o qual a atenção se coloca como o fator limitante no consumo de informação. A economia da informação é definida, segundo Davenport e Beck (2001[3], citado no documento) como a gestão da informação que trata a atenção humana como um bem escasso e cuja gestão pode e deve ser feita a partir de teorias econômicas.

Por causa do volume incalculável de informações sendo geradas diariamente e da impossibilidade de fazer a análise delas e das interações que elas geravam, a partir dos anos 2010 a indústria passou a empregar novas tecnologias para automatizar a coleta de dados online, o que gerou os chamados big data, ou grandes bancos de dados. O processamento dessa informação foi automatizado com o emprego de robôs online conhecidos como Inteligências Artificiais, que conseguiram superar as limitações que o volume trazia para esse tipo de tarefa. Essas tecnologias de gestão de conteúdo agregaram muito valor aos dados, o que permitiu novos modelos de negócios, mas, por outro lado, levou a uma sobrecarga de informações nos sistemas e nos indivíduos.

No modelo de negócios criado a partir desse cenário, essas tecnologias têm sido direcionadas para a crescente captura da atenção dos indivíduos, pois é a partir dela que se geram mais dados, em um modelo muito rentável de negócios. As plataformas coletam e processam os dados de seus usuários, e os vendem para usuários externos, como anunciantes ou governos, produzindo assim seu lucro. O modelo de negócios captura e monetiza a atenção das pessoas, no denominado Capitalismo de Vigilância, em processos opacos, não regulamentados, que não revelam sua natureza aos indivíduos e sobre os quais tampouco se sabe o quanto de dinheiro movimentam. Estima-se que o tamanho global da economia da atenção se situe na ordem de trilhões de dólares norte-americanos – só para os Estados Unidos, a estimativa é de 1,4 trilhão.

O documento da UNEN, depois dessas informações iniciais, se propõe a olhar para os riscos colocados pela extração e monetização da atenção. Para ele, uma economia da atenção mais consciente e intencional levaria a: (i) um modelo econômico regenerativo no qual todos os envolvidos se beneficiam e as desigualdades seriam minimizadas para o benefício da sociedade e da natureza; (ii) um modelo de negócios baseado nas pessoas e na intenção em vez de na atenção; (iii) um reconhecimento da natureza humana, do engajamento social e da troca baseados na integridade em vez de na fragmentação; e (iv) uma minimização da natureza viciante do modelo extrativo atual e uma maximização da transparência e percepção da melhor maneira de se relacionar com os ecossistemas digitais.

A respeito das preocupações com a economia da atenção, coloca-se, primeiramente, o poder sem precedentes das empresas big tech que têm o domínio sobre os enormes bancos de dados sobre os consumidores. A partir das informações que monopolizam hoje, elas são capazes de detectar e eliminar ameaças a sua hegemonia que estejam em estado ainda embrionário, consolidando seu poder e atrasando inovação e bem estar individuais. Elas também têm o poder de intermediar o engajamento cívico e influenciar o debate político. Em nível geral, a monetização da atenção se apoia sobre técnicas de maximização do engajamento de modo a fazer o indivíduo permanecer online e, assim, gerar cada vez mais dados para compor esses bancos de dados, responsáveis pelo lucro estratosférico que essas empresas obtêm. Essa maximização do engajamento gera efeitos colaterais bastante graves, que são examinados, no documento, em três frentes: social, ética e política.

Em nível social, a erosão do controle do indivíduo sobre seus dados pessoais tem efeitos profundos sobre a psique, influenciando suas crenças, sua relação com o mundo físico e criando uma sensação de sobrecarga de informação. O modo como os dados são valorizados nesse mercado cria uma corrida para apreender a atenção do indivíduo ao menor custo possível, o que leva a uma degradação de sua experiência online, afeta suas intenções ao maximizar o conteúdo viral, que promove conteúdos altamente incendiários, controversos ou polarizantes a fim de aumentar as interações.

Crédito: rawpixel

No lado ético, essa enxurrada de dados de cada indivíduo faz com que seja criado um “gêmeo digital humano” (human digital twin), que permite transformar o comportamento em produto e, então, vendê-lo como um contrato futuro. A falta de consentimento a respeito desse comércio combinada ao entendimento de que dados são parte da integridade humana cria um problema ético identificado na Assembléia Geral da ONU em 2021 como um dos grandes perigos enfrentados hoje pela humanidade[4]. A intencionalidade do indivíduo tem sido, também, prejudicada e corroída, pois a maior parte dos usuários das plataformas não está ciente de que os algoritmos estão trabalhando para tirá-los do controle da situação e para impedi-los de agir em benefício próprio.

Do lado político, o acesso a essas enormes bases de dados por parte de governos e de grupos maliciosos permite a manipulação do comportamento das pessoas, o que viola os direitos humanos.  Além disso, a normalização do discurso de ódio e a radicalização dos indivíduos ao longo do tempo leva à polarização, à instabilidade social e à erosão democrática. Mais além, as plataformas de mídia social, com seus lucros exorbitantes, drenaram o dinheiro que ia para o jornalismo de qualidade e para as empresas de mídia, o que deixa a população com cada vez menos fontes confiáveis de informação.

Como medidas de contenção e de mudança de rumos para o que vem acontecendo sob o nome de economia da atenção, concebida como um desdobramento, um braço da economia digital, o documento da UNEN coloca, primeiramente, que é necessário atuar sobre a natureza monopolística das plataformas e sobre a falta de consentimento dos usuários sobre seus dados, para que a economia da atenção possa ser vista como um sistema democrático que possa ser acessado de modo igual por indivíduos, pequenas e médias empresas, além das grandes corporações. O modelo atual, extrativista e manipulativo, poderia ser redesenhado para ser regenerativo e levar a um caminho sustentável, e então possibilitar que outros setores da economia sustentável relacionem-se entre si. A economia da atenção poderia ser útil para as economias circulares produzirem redes de relacionamento entre seus diferentes setores e entre si e seus consumidores. Os indivíduos poderiam obter de volta o controle sobre seus dados e utilizar sua atenção, seu tempo e seu dinheiro para ajudar as causas sociais que desejassem. A atenção monetizada poderia ser moeda de troca na economia solidária, e também seria possível apoiar essas economias por meio do incentivo (nudge) dos indivíduos a terem comportamentos social e ambientalmente responsáveis. Os usuários poderiam “doar” sua atenção, dados e propriedade intelectual para auxiliar a resolver problemas ou criar soluções online. O documento aponta, ainda, que essas possibilidades só existem na medida em que sejam fruto de uma combinação de tecnologias, instituições, incentivos econômicos e mudança de comportamento. E alerta que, no momento, o rumo está errado porque a atenção está sendo extraída de pessoas que não têm preocupação suficiente com o impacto que isso causa em seu bem estar e na coesão social, citando os impactos da desinformação, na radicalização, na polarização e na instabilidade social causados na democracia, a exemplo do que aconteceu na invasão do Capitólio norte-americano em 06 de janeiro de 2020 e a invasão do Congresso nacional brasileiro em 08 de janeiro de 2023, citados pela UNEN.

O relatório coloca a necessidade de se reformar esse modelo de economia que extrai a atenção a fim de ajudar a atingir os objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) propostos pela ONU para 2030. Cita, especificamente, o objetivo 3, sobre saúde mental e bem estar, e o 8, sobre crescimento econômico, endereçando o aumento da produtividade de trabalhadores que ocorrerá como consequência da diminuição de tempo gasto em plataformas. É colocada também a necessidade de se taxar a economia digital para criar fundos para desenvolvimento sustentável, especialmente em países em desenvolvimento e a possibilidade de se utilizar as plataformas digitais para encorajarem normas sociais e comportamentos que sejam consistentes com igualdade de gênero, consumo sustentável, ações climáticas e conservação do meio ambiente.

Colocada de maneira simples, a própria dispersão da atenção, em si, já é muito prejudicial. Os lapsos de memória, os acidentes causados por distração, as decisões tomadas de forma irrefletida são algumas das consequências que se pode citar em um primeiro momento. Em decorrência delas, perdas de cognitivas e de concentração que, no limite, têm criado uma sociedade com menor capacidade de crítica, de aprendizagem, mais dificuldade com raciocínio complexo e menos empática. De acordo com neurocientistas e psicólogos, pensamento profundo e compaixão necessitam de uma mente calma e atenta para acontecerem. Ou seja, a discussão sobre a economia da atenção e suas consequências está muito além de questões que se apresentam em um primeiro momento e que se apresentam apenas embrionariamente no documento da UNEN. As questões éticas e sociais apontadas pelo relatório têm o potencial de causar prejuízos ainda maiores ao aprendizado e à saúde mental dos indivíduos. Se os economistas têm o mérito de apresentar o problema e nomeá-lo economia da atenção, cabe a outras áreas do conhecimento a investigação de outros desdobramentos que possam nos afetar a todos.

O conhecimento das informações contidas no documento da UNEN se coloca como ferramenta auxiliar para as tão necessárias reflexões sobre o cenário que se apresenta. Não se pode esquecer que as tecnologias que hoje se mostram como definitivas, como se não pudessem ser de outra forma, foram desenhadas para ser como são, e esse desenho pode ser remodelado para que elas sirvam melhor aos interesses da coletividade e dos objetivos que se deseja atingir enquanto sociedade mundial.

 

Ana Carolina Cortez Noronha é doutora em linguística e semiótica e tecnóloga em processamento de dados, professora e pesquisadora da Universidade Estadual Paulista, UNESP.

[1]https://www.un.org/en/desa/unen acesso em 10 de abril de 2025.

[2]UNEN, United Nations Economists Network. New Economics for Sustainable Development. Attention Economy. (s/d) Disponível em https://www.un.org/sites/un2.un.org/files/attention_economy_feb.pdf  acesso em 10 de abril de 2025.

[3]DAVENPORT, T. BECK, J. The attention economy. Understanding the new currency of business. Harvard Business School Press. 2001.

[4] SG António Guterres. 21 September 2021. “Secretary- General’s address to the 76th Session of the UN General Assembly”. Disponível em https://www.un.org/sg/en/content/ sg/speeches/2021-09-21/address-the-76th-session- of-general-assembly

 

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