“Eu era manipulado a achar que palestinos eram terroristas”, diz Joe Sacco - Le Monde Diplomatique

ENTREVISTA

“Eu era manipulado a achar que palestinos eram terroristas”, diz Joe Sacco

Acervo Online | Palestina
por Letícia Sé
6 de agosto de 2021
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Cartunista norte-americano, que está relançando no Brasil o livro Palestina, fala em entrevista sobre o jornalismo internacional, a causa palestina e injustiças transnacionais

Era começo de tarde em São Paulo e manhã em Portland, cidade no estado norte-americano do Oregon, quando Joe Sacco atendeu à chamada de vídeo. Conhecido como um dos grandes nomes do jornalismo em quadrinhos e uma das mais importantes vozes pela causa palestina no Ocidente, Sacco concedeu entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil. Nela, tratou dos erros do jornalismo internacional sobre a questão Israelo-Palestina, o atual relançamento de seu livro Palestina (de 1993) pela Editora Veneta e sobre as injustiças que cruzam as nações, conectando povos oprimidos.

O livro-reportagem em quadrinhos, que mostra a situação palestina no começo dos anos 1990, foi feito após a primeira viagem de Sacco à Palestina. “Eu tinha os mesmos preconceitos que todo mundo tem, achava que palestinos eram terroristas. Tive de viajar para lá porque estudei jornalismo, me achava uma pessoa relativamente inteligente, mas percebi que fui manipulado a acreditar em uma certa coisa”, explica, quase trinta anos após o evento transformador que o levaria a ser mundialmente conhecido como um jornalista especializado na causa palestina.

Joe Sacco
Trecho de uma das reportagens gráficas de Joe Sacco (Imagem: Revista Cult)

Le Monde Diplomatique Brasil – Como você analisa a cobertura jornalística sobre a questão Palestina e, mais especificamente, sobre o último grande caso: o de Sheikh Jarrah em maio de 2021? Quais são os principais erros cometidos pelo jornalismo, na sua opinião?

Joe Sacco – Bem, é difícil dizer e dar uma análise do jornalismo. Posso falar do jornalismo dos Estados Unidos, que pode ser diferente de outras partes do mundo. Se falamos da questão Palestina em geral, eu diria que a grande mídia tem sido menos hostil aos palestinos do que costumava ser. Mas a cobertura é ainda muito a favor de Israel.

E sobre Sheikh Jarrah, nós ouvimos falar, mas muitas vezes achamos as coisas expressas de modo a dar uma ideia às pessoas… Os fatos são reportados, mas a terminologia pode ser questionável. Por exemplo, a terminologia pode ser: as pessoas serão “despejadas”, o que faz parecer que há uma disputa por propriedade – onde há um proprietário e os inquilinos, e que os inquilinos fizeram algo errado –, quando a palavra mais correta seria “expulsas”, não “despejadas”.

Então, os fatos são reportados, mas há nuances na reportagem, em como as frases são construídas, e acho que isso tem impacto. Falando no geral, com o tempo, mais gente passou a entender a situação dos palestinos. Acho que o movimento Black Lives Matter teve um impacto grande em como a situação é vista, porque as pessoas, e especialmente os ativistas negros, começaram a fazer ligações entre sua situação e a palestina, da opressão de americanos negros aqui e de palestinos lá, como as táticas policiais que são usadas. Então eu acho que apesar da mídia tradicional, talvez com as redes sociais, o assunto se abriu para outras análises.

 

Assisti a uma entrevista em que você menciona a diferença na mentalidade de colonizadores ocidentais e povos indígenas sobre a terra. A uns, a terra nos pertence e, para outros, nós pertencemos à terra. Você acredita que essa diferença está presente entre Israel e Palestina? Se sim, como ela é visível?

Eu não quero falar pelos palestinos sobre como é sua relação com a terra. Não quero relacionar essa ideia diretamente entre indígenas nas Américas e palestinos, mas claramente os palestinos estão enraizados. Eles têm gerações lá, são parte da terra organicamente. E os colonos não são: basta olhar para a arquitetura dos assentamentos na Cisjordânia e comparar com a de vilarejos palestinos, que parecem se misturar com o ambiente, enquanto os assentamentos são feitos quase que com propósito defensivo.

 

A apuração para seu livro Palestina, que está sendo relançado agora no Brasil, foi feita trinta anos atrás. O que você acha que mudou na questão palestina de lá para cá e o que permanece igual ao longo dessas décadas?

Eu diria que está quase igual, porém pior. As coisas fundamentais não mudaram: ainda há colonos, mas eles aumentaram em número. Casas são demolidas, mas agora, em maior quantidade. Há violência, porém agora a violência é mais cruel. Então, se pegarmos qualquer aspecto que reportei três décadas atrás, podemos dizer que ainda existe, mas de modo mais forte. Então, a ocupação continua. E em muitos aspectos, se intensificou.

 

A questão palestina é vista como um assunto distante para os brasileiros em geral. Que mensagem de incentivo você deixaria para que as pessoas se interessem pela questão palestina?

O Brasil está enfrentando muita coisa agora. Há violência policial nas favelas e outros problemas de opressão na sociedade brasileira. E acho que pessoas que são oprimidas, além de olhar para seu problema particular, têm de olhar o mundo e ver quais ligações podem ser feitas com outros povos que são oprimidos. Temos de perceber que frequentemente há ligações entre os governos opressores: entre o Brasil e os Estados Unidos de Trump, entre os Estados Unidos de Trump e Israel, Israel e Brasil, Índia e Israel… Temos que ver a totalidade da questão. Vale a pena fazer isso e não focar apenas em seu problema particular.

Sobre seu livro Palestina: qual foi a coisa mais difícil do processo de produção? O livro foi produzido na sua primeira viagem à Palestina ou você já tinha estado lá antes?

Não, o livro foi baseado na minha primeira viagem. Eu fiz viagens desde então, mais umas três ou quatro. E fiz outro livro sobre Gaza, especificamente. A coisa mais difícil é fazer os quadrinhos, porque toma muito tempo. Desenhar toma anos e as situações podem mudar. Eu lembro que quando comecei o livro a ocupação estava continuando mas, enquanto eu trabalhava no livro, os Acordos de Oslo aconteceram. Eu pensei “OK, talvez este livro seja menos relevante agora e seja considerado mais histórico”, mas na verdade a ocupação não parou por causa de Oslo. Ela continuou e, como eu mencionei, ela se intensificou. Esses livros tomam muito tempo para serem feitos e como jornalista você quer fazer muitas reportagens, mas como cartunista você fica sentado trabalhando por anos, desenhando.

 

Há uma entrevista em que você menciona que sua língua materna é maltês, certo? E há uma similaridade com o árabe por ele ser uma das origens do idioma. Você disse que às vezes consegue entender o que os seus entrevistados estão dizendo quando os entrevista, mesmo antes do tradutor passar para você. Gostaria de saber se a sua conexão com a causa palestina tem a ver com sua própria origem ou se você acha que há alguma conexão entre você e a Palestina por um lado mais pessoal.

Na verdade, inglês é minha primeira língua e maltês é a língua dos meus pais, que eu ouvia, porque migramos para a Austrália quando eu era pequeno. Mas eu entendo bastante maltês. Eu não diria isso, mas a familiaridade que eu tenho é que os malteses são bem hospitaleiros. E quando eu estava na Palestina, com os palestinos, havia uma familiaridade em como as pessoas te convidam para entrar nas casas delas, te oferecem o que têm, esse tipo de coisa muito amigável.

Mas me aproximei da Palestina, além da situação política, por conta de ter estudado jornalismo na universidade. E o que eu finalmente consegui entender sobre o que acontecia no Oriente Médio não foi graças à grande mídia. Eu não aprendi quase nada com a grande mídia. Eu achava que palestinos eram terroristas. Então, uma das razões que tive para viajar foi que, tendo estudado jornalismo, eu me achava uma pessoa relativamente inteligente, mas percebi que fui manipulado a acreditar em uma certa coisa e eu passei a descobrir o que realmente acontecia. Eu tive de me educar. E quando você está lá, existe essa familiaridade de estar em uma cultura mediterrânea, como Malta, um ambiente mediterrâneo. E senti uma afinidade com isso, uma proximidade calorosa.

 

O que você espera do público brasileiro com essa nova edição do seu livro?

Não espero muito, espero que as pessoas o leiam. Daqueles que já conhecem a situação palestina, espero que olhem para o livro e se lembrem o quão pouco ela mudou, o quanto os problemas só se aprofundaram e isso é muito lamentável. E espero que as pessoas que não conhecem muito da situação ganhem uma base para entender o que acontece hoje nessa parte do mundo.

 

Quando te perguntei sobre a cobertura dos fatos na Palestina neste ano, você disse que algumas palavras estão sendo usadas de um jeito impróprio, como “despejo”. Mas é interessante pensar que quando, talvez a mídia não tradicional, tenta usar outras palavras ou propor uma revisão nesse tipo de títulos, eles são vistos como um “jornalismo de esquerda” ou “ativismo”. O que você acha dessa discussão entre a grande mídia e profissionais que tentam mudar essa visão jornalística, mas que são vistos dessa forma, automaticamente?

É uma pergunta interessante. E eu acho que você está certa, eu acho que se você usar a palavra “expulsão”, “pessoas estão sendo expulsas de suas casas”, alguns vão negar e te chamar de esquerdista. Mas eu acho que frequentemente, e principalmente na grande mídia – e eu consigo apenas falar dos Estados Unidos –, as diretrizes do governo são replicadas.

O governo Clinton parou de usar o termo “território ocupado”, e o mudou para “território disputado”. E “disputa” parece que há duas partes e que elas vão eventualmente se resolver ou não. Mas não tem a mesma ressonância que a palavra “ocupação”, que, pela lei, é o que é. Há muitas organizações internacionais, incluindo a ONU, que chamam de “ocupação”. Mas, quando o governo chama de “disputa”, isso forma uma diretriz de qual palavra deve ser usada pelo jornalismo. E começou-se a ver o termo “território disputado” aparecer na grande mídia.

Então, há uma ligação entre quais termos o governo quer propor e o que a grande mídia aceita e diz: “OK, não queremos contrariar o governo” – que eles estejam refletindo sobre isso ou não, é irrelevante. A mídia pensa que esses são os termos atuais a serem usados.

Não sei exatamente como responder sua pergunta, eu acho que como jornalista você tem que ser muito verdadeiro sobre o que você está vendo e usar a terminologia que realmente se aplica a partir do seu próprio entendimento. É nosso papel, enquanto jornalistas, falar a verdade como a conhecemos. Nós estivemos lá, nós vamos lá e vemos o que acontece. E acho que temos mais que o direito de usar as palavras certas. E temos mais probabilidade de usar a terminologia exata e correta porque entendemos mais a questão do que governos que tentam formar o debate com as palavras que usam e a grande mídia, que simplesmente segue isso por ser o caminho mais fácil. Então nós mesmos temos que resistir e insistir nas palavras corretas.

 

Há uma entrevista em que você diz que quando era estudante de jornalismo você não entendia de tudo e você achava que jornalistas internacionais eram deuses que compreendiam o mundo. Acho que eu tinha o mesmo sentimento quando eu estudava jornalismo e achei essa imagem muito precisa.

É muito verdade, não é? Você se pergunta “será que essas pessoas estão tentando entender as coisas, como eu?” Muita gente prefere parecer uma autoridade nos assuntos do que admitir que não entende muita coisa. É verdade. Há um mistério. Jornalismo internacional era um grande mistério para mim. E aí você percebe que essas pessoas estão seguindo o fixer delas e fazendo o que o fixer a diz para fazer e não é bem assim. Acho que para ser um bom jornalista, em primeiro lugar, deve-se admitir o que você não sabe. E se esforçar e estar disposto a permitir uma situação te surpreender e ser muito honesto. Acho que isso é bem mais importante do que ser uma grande autoridade.

 



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