Finalmente haverá chegado o tempo das mulheres?

América Latina

Finalmente haverá chegado o tempo das mulheres?

Acervo Online | América Latina
por Viviane Botton
11 de novembro de 2020
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Ao olharmos para o nosso machismo com lupa, vemos como ele segue bem instalado em todas as suas formas, apesar de todas as nossas investidas. Mas também é inegável que o boom do MeeToo fez nele alguns estragos e ameaçou os nossos assediadores. Se a cultura dos EUA chega rápido às periferias do mundo pela via do capitalismo e seus produtos, também traz seus feminismos com a mesma velocidade, ainda que também capitalizados

As duas primeiras décadas do século XXI certamente ficarão marcadas na história mundial pela pandemia da Covid-19 e suas consequências ecoarão ainda por muitos anos. Seja nas nossas vidas pessoais com nossas perdas, seja na história da humanidade e nas consequências econômicas e políticas do período. O acontecimento falará também do acirramento das desigualdades sociais, das polarizações ideológicas na maioria dos territórios do mundo, do manejo melhor ou pior das medidas sanitárias relativas à infecção viral sobre as populações do globo e das lutas contra as desigualdades, especialmente as raciais e as de gênero.

Sobre este lado do mundo, nas Américas, também será lembrada uma série de acontecimentos marcados predominantemente pela cor lilás, dos feminismos e das mulheres, que vão ficar para a história oficial do século. Haverá finalmente chegado a este continente o tempo em que as mulheres poderão deixar seus lugares secundários, menos valorizados, de silêncio e apagamento, de vítimas, para assumir o protagonismo sócio-histórico e político?

A pergunta será respondida nas décadas futuras e nossa esperança é que seja positiva. Porém, talvez seja prudente não sermos tão esperançosas e isso não deve implicar, contudo, que os movimentos dessa última volta da roda do tempo não devam ser visto pelo que são: um novo fôlego dos feminismos do nosso território e a possível alavancada de um novo rumo à efetiva equidade de gênero no território. Os ventos vêm do Chile, com uma nova constituição sendo escrita por 50% de mulheres; da Bolívia, com uma nova bancada no Senado com maioria de mulheres e até mesmo dos Estados Unidos, que elege sua primeira vice-presidenta mulher, negra e filha de imigrantes. A chegada de Kamala Harris à vice-presidência dos Estados Unidos, assim, como ela mesma disse em seu discurso de posse, é uma mensagem às mulheres das novas gerações: ela é a primeira de muitas. E isso ecoa até aqui do Sul da América.

O Titanic do machismo parece ter tocado no iceberg lilás em meados de 2015 e a notícia do naufrágio nos chegou em formato de hashtag, a nova linguagem do século XXI. Trovejava a palavra #MeeToo nos céus dos EUA e em meio às nuvens da rede. A expressão inglesa precedida do signo # viralizava denúncias de mulheres famosas de Hollywood contra seus assediadores e abusadores, seus chefes igualmente famosos.

A palavra foi traduzida e adaptadas a vários idiomas pelo mundo: #yotambién #balancetoncochon e #eutambém. Juntou-se a outras que já representavam lutas de mulheres mundo afora e que agora também ganhavam o prefixo do símbolo quadriculado das hashtags: #ningunamenos, #todasporuna, #meucorpominhasregras, #mulheresempoderadas, #respeitasmina e tantas outras.

Marcha Ni Una Menos em Buenos Aires, 2017 (Crédito: TitiNicola/Wikimedia)

O movimento tomou força e dimensão global e se enraizou no imaginário das garotas (e dos garotos) deste século a ponto de já não ser possível o uso explícito do poder de macho e da violência explícita para a subordinação sexual da mulher. Não sem ser minimamente questionado e sem que o agressor corra o risco de parar no tribunal, ainda que seja o das redes com haterismos e linchamentos.

A leitora atenta irá contra-argumentar que o #meetoo não fez muito pelas mulheres pobres dos países periféricos onde o patriarcado e o machismo são mais violentos e os números de feminicídios ainda são enormes e passam impunes. Em países periféricos, além das democracias não serem de fato democráticas, elas tampouco preveem a equidade sexual e de gênero. Há lugares na nossa América onde as mulheres seguem sofrendo diariamente com a naturalização das violências de gênero, da heteronorma, da homofobia baseada na biologia fundadora e na subordinação justificada pela interpretação que suas religiões dão à bíblia.

É verdade que ao olharmos para o nosso machismo com lupa, vemos como ele segue bem instalado em todas as suas formas, quase como um vírus que não dá indícios de sumir tão cedo, apesar de todas as nossas investidas. Mas também é inegável que o boom do MeeToo fez nele alguns estragos, e ameaçou aqui, no sul do continente, os nossos assediadores. Se a cultura dos EUA chega rápido às periferias do mundo pela via do capitalismo e seus produtos, também traz seus feminismos com a mesma velocidade, ainda que também capitalizados.

Um dos melhores exemplos disso foi o #meetoo mexicano, que em março de 2019 culminou na chamada Revolución de la Brillantina. O movimento espontâneo tomou as ruas da capital daquele país depois do estupro de uma garota, abertamente negligenciado pelo Estado. O chamado às ruas partiu das redes sociais e deu início à revolução. As feministas do movimento foram acusadas de vandalismo num primeiro momento. Mas não demorou para terem um pedido de desculpas e a assinatura de compromissos políticos de não-discriminação e violência por parte do governo e do senado no país. Além disso, conseguiram fazer com que a sociedade refletisse sobre aquele momento. Essa sociedade que, primeiro as julgou e as acusou, entendeu, posteriormente, que pichar monumentos históricos e quebrar alguns vidros de estações de ônibus não são nada perto das centenas de feminicídios recorrentes naquele país e que permanecem sem solução.

A polêmica daria muitas páginas, mas o ponto preponderante é como isso se enraíza nas nossas novas formas de ser e de viver no mundo. A filósofa e psicanalista brasileira Suely Rolnik defende que certas esferas da insurreição, título de seu livro, estão sendo rearticuladas de modo irreversível. Diante disso, ainda que os nossos clássicos dirigentes misóginos e homofóbicos sigam presentes, já não será possível que exerçam o poder da mesma forma que exerciam, pois as estruturas já estão modificadas. Mesmo que um líder ou movimento trate de operar uma regressão em relação à nossa equidade de gênero, a nossa percepção de nossos direitos já está modificada a tal ponto de não aceitarmos sequer internamente a submissão e o silenciamento. Suely ainda salienta que junto às tantas crises de nossos sistemas estabelecidos, também estamos todos grávidos com embriões de novos mundos, que deverão nascer e que irão formar o futuro de outros modos.

A premiada jornalista Eliane Brum parece compartilhar da tese da psicanalista, quando escreveu em 2017 um artigo defendendo que o ano não teria ficado marcado só pelo retrocesso que culminou com a posse do grupo que assumia o planalto. O ano de 2017 teria sido também um ano de mudanças estruturais irreversíveis em termos de direitos para as mulheres. O exemplo disso, segundo a jornalista, era a nova geração de garotas que dizem “não” e exigem ser ouvidas e respeitadas. Efetivamente, o slogan “não é não” explodiu no carnaval de 2018, ganhando as ruas em meio à festa, viralizando nas redes. Outra hashtag que normatizou socialmente a proibição da violação dos corpos das mulheres e que na prática as uniu em defesa umas das outras e de seus direitos como grupo. Desde então, já não foi possível que assediadores passassem despercebidos e sem julgamento.

A força do movimento teve sua temporalidade e certamente tem seus limites teóricos, assim como seus limites práticos. Dois anos depois, um grupo de cidadãos composto por homens e mulheres e respaldados pela ministra da Mulher, da família e dos direitos humanos, expuseram e humilharam publicamente uma criança de 10 anos que havia sido estuprada e realizava um aborto judicialmente aprovado. O fato choca para além da questão da permissão e legalidade do aborto, mas pela inversão dos papéis que o grupo forjou: aquela criança, vítima, foi deslocada para o lugar de assassina. O fato não passou em branco e, apesar de ter somado fagulhas aos tantos estopins que retroalimentam constantemente a polarização no país, gerou manifestações e indignação das mulheres pelo Brasil e pelo mundo.

 

Chile

A vez do Chile veio em 2019. Inicialmente houve uma onda de protestos contra os aumentos dos preços, das passagens de ônibus e metrô, dos alimentos, da gasolina, que se transformou em uma revolta popular contra todo sistema político-social e culminou na derrubada de monumentos representativos da colonização e da ditadura. As feministas protagonizaram fundamentalmente a luta. A vitória dos chilenos se consolidou no plebiscito de 2020, quando o povo aprovou os próximos passos para a elaboração de uma nova constituição. O ineditismo desse fato foi, claramente, que o novo documento será escrito por parlamentares eleitos sob normas de paridade de gênero, 50% deles será composto por mulheres.

Também foi no Chile que a performance das feministas La tesis viralizou pelo globo tomando as ruas de todos os países de língua hispânica e sendo traduzido em muitos idiomas. A frase “o estuprador és tu” não foi só um vídeo dos novos tempos de hashtags que caem na obsolescência programada das novidade das redes. Ela transgrediu o meio virtual e as ruas e chegou a intimidar nossos violadores, até então acomodados. As teses fixadas ali fomentaram a imprescindibilidade da equidade de gênero dos que irão redigir a nova Constituição no Chile e incentivaram o movimento do calzón rojo no Peru. Também deu novo fôlego às integrantes do ninguma menos da Argentina e Uruguai e continua enraizando nossas lutas cotidianas contra a violência de sexo e gênero.

 

Bolívia e as eleições

A Bolívia neste ano elegeu 20 mulheres de seus 36 senadores e uma grande parte delas é de ascendência dos povos originários boliviano. O machismo e o patriarcado boliviano, diga-se de passagem, já vêm sendo desarticulados pelas feministas comunitárias há algumas décadas.

A peculiaridade deste movimento é claramente a relação que estabelecem com as tradições dos povos originários e seu caráter coletivo e autônomo. O grupo Mujeres Creando, um dos mais conhecidos e antigos no país – fundado por Maria Galindo e Julieta Paredes, duas salientes ativistas e pensadoras do feminismo na América Latina – vem parindo e criando novos mundos, para seguir a metáfora de Rolnik, há pelo menos três décadas. Nesses novos mundos as mulheres se protegem, se ajudam e se empoderam mutuamente. Elas lutam juntas e fazem acordos e alianças com seus companheiros indígenas, também explorados pela exclusão racial e social do capitalismo mundial, de modo a criar verdadeiras redes de resistência.

É claro que nem tudo são flores nesta primavera feminista que começamos a chamar de quarta onda. Hoje na Polônia, milhares de mulheres (feministas ou não) estão indo às ruas protestar contra o endurecimento das leis de controle estatal sobre seus corpos no tocante à reprodução. No Brasil, presenciamos o aumento significativo da violência doméstica durante a pandemia, sendo ela predominantemente contra mulheres e crianças. Seguimos campeões em números de violência obstétrica, estupros, violação de direitos etc. Mas também temos nossas jovens que aprenderam a exigir ser escutadas e respeitadas. Temos nosso jardim de Marielles nas comunidades das periferias do Rio de Janeiro, onde apesar dos riscos, insistem em não ficarem caladas.

Quase não olhamos para nossas vizinhas latinoamericanas, inclusive em nossas universidades. Quase não se fala de nossos países vizinhos em nossos jornais e muito menos de mulheres. Nos nossos livros de história mundial ainda encontramos predominantemente as histórias da expansão europeia, e quando contam algo da África e da América, ainda falam muito de homens de poder. Talvez justamente a amplitude que toma a comunicação em redes e capacidade de viralização de certas ideias que esse nova plataforma de comunicação nos dá – apesar de toda captura algorítmica que nela vivemos – seja a possibilidade de nos aproximarmos mais de nossas vizinhas.

Na semana passada tive a alegria de assistir a uma conferência ao vivo da pensadora e ativista dominicana Youderkys Espinoza Miñoso, num evento de Filosofia e Gênero chamado A nossa Onda. A atividade foi realizada em homenagem à Maria Lugones, outra expoente filósofa da América Latina, que infelizmente faleceu este ano e é pouco conhecida no Brasil. Na semana anterior eu mesma tinha dado uma aula (online) sobre o pensamento da Maria Lugones, na Escola As Pensadoras. Esta escola surgiu justamente no início desta pandemia, com o intuito de continuar dando formação às estudantes e criar mecanismos de visibilidade às mulheres que pensaram e pensam. O trabalho da escola também é o de preencher algumas das tantas lacunas históricas das narrativas oficiais que excluíram as suas protagonistas, assim apagaram as vozes de nossos povos originários e dos povos aqui escravizados. Nas próximas semanas, a partir do dia 16 de novembro, iniciaremos um curso sobre as Pensadoras Latinoamericanas na mesma escola. A conferência de abertura, que se estende a toda a comunidade, será ministrada por pensadoras indígenas brasileiras: Ana Manoela Karipuna, Edilaise Nita Tuxá e Braulina Aurora Baniwa.

Yuderkys enfatizava em sua fala, fazendo referência à Maria Lugones, a necessidade de uma efetiva descolonização de nossos sistemas políticos e imaginários e ressaltava a importância de desmantelarmos nossas estruturas de dominação masculinas (e racial e de classe) em todas as esferas. É inspirada nessa fala e animada pelos botões de lilás que começo a pensar que o tempo dos feminismos é o tempo do agora.

Viviane Botton é doutora em Filosofia pela Universidade Nacional Autônoma do México; pesquisadora de pós-doutorado na UERJ; pesquisadora associada ao LAFITA/UFRJ. Estuda temas como corpo, feminino, mulher, biopolíticas, subjetividade e sexualidade da perspectiva decolonial e da América Latina.

 



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