Função política da imaginação - Le Monde Diplomatique Brasil

Função política da imaginação e a universidade pública

por Daniel Tourinho Peres
19 de setembro de 2019
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A imaginação tem uma função política porque ela nos permite a orientação entre passado e futuro, entre o próximo e o distante. A imaginação tem isto de especial, ela é livre, e portanto não está sujeita, de modo impositivo, às regras do bom senso, e nem mesmo, talvez, às regras da lógica.

 

Estamos sob um governo que infunde terror contra a ciência e as universidades públicas, mas quero lembrar neste artigo que, por isso mesmo, não podemos renunciar a pensar. Muito pelo contrário. Nos últimos anos, quem trabalha com filosofia política tem observado o interesse crescente no papel da imaginação, naquilo que seria uma imaginação política ou um imaginário político.

Esse interesse denuncia uma aposta, intuitiva ou consciente, em uma forma de racionalidade política que seja maleável às circunstâncias, sem, contudo, cair em subjetivismo. Este artigo propõe pensar, ainda que de modo breve e algo impreciso, a imaginação como a via real, como o modo de realizar a passagem, em uma via de mão dupla, entre o objetivo e o subjetivo, entre o universal e o particular.

Minha intenção não é resolver, aqui, essas grandes questões metafísicas, mas pensar um pouco o que seria essa imaginação ou imaginário políticos, de forma a nos orientarmos para a disputa política que temos diante de nós.

Aqui e agora

Quando pensamos algo, mesmo em uma conversa de bar, não nos damos conta da complexidade de um ato aparentemente tão simples. Quando conversamos sobre um evento passado, tornamos este evento de certa forma presente: nós o representamos, o tornamos presente em pensamento. E o mesmo se dá quando antecipamos o futuro.

Afinal, é sobre isto que conversamos aqui e agora, presentemente. Mas, em ambos os casos, nós tornamos passado e futuro presentes na imaginação. Mais ainda, podemos acessar até mesmo um passado que não vivemos nós mesmos, mas que faz parte da memória social, de uma memória, por assim dizer, alargada, quando incorporamos à nossa visão do passado, a memória e a experiência do outro.

Essas fronteiras entre memória individual e memória coletiva são menos claras do que acreditamos ser[1]. O fato de eu não ter a lembrança do dia em que um amigo de meus pais, fugindo das forças da repressão da ditadura, bateu em nossa casa tarde da noite e levou consigo tudo o que meus pais puderam dar para nunca mais aparecer, porque assassinado, é irrelevante diante da memória que é construída coletiva e discursivamente.

Este fato, que me foi contado, soma-se a outros fatos vividos por mim, a outras narrativas e a outros fatos, e a documentos e fontes, compondo a nossa história, da qual minha estória é parte. Este fato é constitutivo de minha vida, mesmo que eu não o tenha vivido diretamente.

É constitutivo da minha vida, quer dizer, faz parte do modo como me oriento no presente com relação ao passado e, também, ao futuro. Era isso o que talvez Hannah Arendt chamasse de vida do espírito, cuja faculdade principal, para ela, estaria no juízo.

Função política da imaginação

Ora, se a imaginação tem uma função política, é porque ela nos permite essa orientação entre passado e futuro, entre o próximo e o distante, para além de nossas idiossincrasias. A imaginação tem isto de especial, ela é livre, e portanto não está sujeita, de modo impositivo, às regras do bom senso, e nem mesmo, talvez, às regras da lógica.

Descartes já dizia que eu posso imaginar uma montanha sem vale, ainda que eu saiba que, se há montanha, é porque há vale. Ora, se ela é livre, isso não significa que ela não possa ser, que talvez deva ser, como cobrava Kant a Herder, orientada por regras, ou seja, imaginação e juízo devem trabalhar em conjunto, como que se regulando mutuamente: a primeira ampliando o universo do possível, o segundo garantido que a ampliação se dê segundo regras, regras lógicas, mas também regras socialmente pactuadas.

São essas regras, sobretudo aquelas socialmente pactuadas, que fazem com que a imaginação se torne imaginário, isto é, um conjunto de valores, símbolos e instituições compartilhadas. Em uma palavra, que se torne cultura.

A imaginação unifica, em um imaginário social, passado, presente e futuro. Mas ela faz muito mais do que isso. O vínculo que ela apresenta é tanto um vínculo entre gerações distintas quanto um elo entre indivíduos distintos de uma mesma geração, pessoas que vivem em espaços distintos, com suas especificidades regionais, mas também em espaços que representam horizontes de vida distintos, como centro e periferia, favela e condomínio de luxo.

Do ponto de vista da imaginação política, este segundo é o vínculo crucial. Pois mesmo que nossas decisões tenham impacto sobre o futuro, mesmo que tenhamos, portanto, de antecipar possíveis consequências de nossas decisões, deliberamos e decidimos aqui e agora, em conjunto com nossos concidadãos.

No caso do Brasil, creio que algo que não vimos, ou cuja profundidade não julgamos bem, foi a fratura em nossa “comunidade imaginada”, para usar a o conceito de Benedict Anderson[2]. Reconhecer essa fratura, reconhecer que no Brasil a desigualdade é tamanha, não implica reconhecer o cinismo que ancora a ideia do que é ser brasileiro? Não implica reconhecer que, antes de termos uma crise no sistema representativo, temos antes uma crise de representação, aí incluída uma “crise do representado”, uma incapacidade crônica de tornar presente ou mesmo de perceber que aquele “ninguém” é alguém?

O presente, tal como ele se apresenta ao espírito, está deteriorado, mas não estamos condenados.

Juízo

O juízo histórico orienta o juízo político, mas não o substitui, de modo que política se dá entre o otimismo de Pangloss e o fatalismo de Jacques, não estando nós condenados nem a uma nem a outro. Emplastro é sempre emplastro, seja de direita ou esquerda – uma maior sofisticação do último não é garantia de maior eficácia ou objetividade.

A primeira tarefa, então, é reconstituir, mesmo em condições adversas, um espaço para a política. É preciso, se quiserem, refundarmos nosso imaginário político, revermos nossas expectativas, reavaliarmos nossas estratégias.

Mas também precisamos de juízo. Diferentemente da imaginação, o juízo veicula uma pretensão de validade. Como diz Hannah Arendt comentando Kant, aquele que julga deve se libertar das “condições subjetivas pessoais”, deve transcender sua própria limitação individual. Porém, escreve Arendt, “suas pretensões à validade nunca se podem estender além dos outros em cujo lugar a pessoa que julga colocou-se em suas considerações”[3].

Comum

O movimento de colocar-se no lugar do outro, de trazer a perspectiva do outro, são atos da imaginação. O juízo se realiza, porém, no encontro e no ato mesmo de comparar as perspectivas com vistas a formar um juízo comum, mesmo que parcialmente comum.

Este é um primeiro ponto que devemos rever de nossas expectativas: acordos, ainda que por definição parciais, são melhores do que acordo nenhum.

O conflito não é eliminado, mas se consegue avançar algumas questões, consegue-se avançar desde que se pense a política como compromisso: ainda que não movidas pelo mesmo interesse, as partes podem agir no interesse comum, assumindo, como disse Arendt, alguma responsabilidade pelo mundo.

Não se trata de afirmar uma única vontade, soberana, que subsume as vontade particulares e lhes apaga as diferenças. A vontade política – e política também é vontade, isto é, decisão – não se coloca acima das diferenças, mas, pelo contrário, resulta da diferença.

A recusa de reduzir a política tão-somente à afirmação de uma vontade soberana deve se fazer acompanhar da recusa daquela outra visão, que faz da política ilusão, isto é, que a política seria a ilusão de imaginar que nos cabe, ainda, qualquer decisão acerca do que a história material já decidiu de antemão.

Não se trata, contudo, de negar a lógica perversa do capitalismo, que está na base de tal visão da política. Trata-se apenas de não aceitá-la como um destino, de defender que há um espaço para a política, que não é apenas possível, mas necessário, para o bem do sistema mesmo, o compromisso entre capital e trabalho.

E se este compromisso vem se mostrando mais e mais difícil, não porque o trabalho se encontra cada vez mais explorado, e sim porque está se tornando dispensável, o que implica, portanto, uma outra estratégia: fazer política e não insistir em lutar por revolução que não virá.

Fazer política

Há muito em jogo para insistirmos em um imaginário escatológico, uma crise ou revolução redentoras. Como afirmei um pouco acima, temos de, ainda que sob condições adversas, fazer política.

Digo condições adversas porque o Executivo nega a política. Para ele, o que vale é a lógica da vontade: o presidente quer impor a militarização das escolas, o presidente manda suspender editais ligados à cultura, o presidente quer controlar a prova para o ingresso nas universidades.

Ora, o presidente pode muito, mas não pode tudo. Se há algo de positivo nessa crise é o fato de o parlamento ter se tornado o nosso espaço da política. É aí que temos de atuar, assim como no espaço público, da imprensa às associações de bairro, nas ruas, nas praças.

Vejamos o caso que me motivou escrever este texto: o ataque que o governo Bolsonaro tem dirigido às universidades públicas e à ciência. Precisamos muito mais do que mobilizar as universidades e os cientistas em sua defesa própria; precisamos, como se diz no jargão sindical, ir muito além de nossas bases.

O decisivo, para começar o jogo no parlamento, é que a sociedade se mobilize. Que o jovem que está na universidade se mobilize para defendê-la é algo que se pode julgar como dado. Mas é preciso que o jovem que não está na universidade veja que ela, de algum mundo, também lhe interessa.

Não me refiro apenas àquele jovem que, no futuro, tem a pretensão de nela ingressar, aquele que estuda em uma universidade privada e também àquele que a vê muito distante, mas àquele que não tem nenhum desejo de ingressar em uma universidade, pública ou privada.

A universidade precisa estar lá, no imaginário deste jovem, como um bem. O mesmo vale para nós professores e técnicos. Que nos mobilizaremos dá-se por óbvio.

É preciso que todos os professores, e não aqueles das universidades públicas, que todos os trabalhadores, e não apenas aqueles que nelas trabalham se interessem pelo destino da universidade. Se o meu interesse como professor não dialogar com interesse do outro, dificilmente vou convencê-lo de que minha causa não é corporativa.

Interesse

Kant, na Crítica da Razão Prática[4], propõe uma distinção que, neste ponto, talvez nos ajude a ter uma ideia mais clara de certas práticas, a saber, a distinção entre agir por interesse e tomar interesse por algo.

Da comunidade universitária quando age em defesa da universidade, justo ou não, pode se dizer que ela age por interesse, isto é, por interesse próprio. Da sociedade, não: quando ela age em defesa da universidade, ela age no interesse da universidade, e só então no seu interesse. Mas esse interesse, ele não é próprio no mesmo sentido que o primeiro. Kant diria que este segundo interesse é o interesse da razão.

O que eu quero dizer é: a universidade deve estar no imaginário da sociedade como um bem maior. Quando, em 1988, as Universidades Públicas foram colocadas na Constituição, era este imaginário que estava presente. Precisamos, discursivamente, reconfigurar este imaginário.

Cada sujeito deve sentir que, de algum modo, a universidade pública faz parte, positivamente, de sua condição, está no seu horizonte, vê nela um marco fundamental pelo qual se orienta.

Não como estudante, que está ou pretende estar na universidade, não como profissional, que nela se formou, mas como cidadão, um cidadão que aposta no esclarecimento e na construção de uma cultura democrática, que afirma a importância do conhecimento e da ciência.

A disputa pelo imaginário só terá sentido, porém, se repercutir no sistema político i.e., no parlamento. É nele que se dará, afinal, a batalha decisiva.

Daniel Tourinho Peres é professor do Departamento de Filosofia da UFBA

 



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