Índia e China, conflitos e convergências - Le Monde Diplomatique

CONFLITO REGIONAL

Índia e China, conflitos e convergências

por Christophe Jaffrelot
2 de maio de 2011
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Em abril, pela 1° vez, o grupo que reúne Brasil, Rússia, Índia, China e, cada vez mais, a África do Sul, formou uma frente única, sobretudo com relação à intervenção na Líbia e ao dólar. Entretanto, apesar de parecerem unidas nos encontros internacionais, Índia e China, quando frente a frente, se tornam guerreirasChristophe Jaffrelot

India e China têm tido uma relação de amor e ódio. Em dezembro de 2010, a visita do presidente chinês, Wen Jiabao, a Nova Déli foi marcada por certa frieza: o comunicado final não incluiu a menção de «uma China única» («One China»), a fórmula habitualmente usada para marcar o reconhecimento da soberania chinesa sobre o Tibete e Taiwan. Essa omissão era em represália à recusa chinesa de reconhecer os estados de Arunachal Pradesh e de Jammu e Caxemira como parte integrante da Índia.1 Em contrapartida, em abril de 2011, na terceira cúpula dos Brics2 em Sanya (China), Pequim e Nova Déli se uniram na defesa dos interesses dos paísesemergentes e na reprovação da intervenção – qualificada de “ocidental” – na Líbia. Nesse meio tempo, a imprensa indiana difundiu o apoio da China, sobretudo em matéria de armamentos, aos insurgentes do Nordeste, tribos envolvidas numa luta separatista há décadas.3

Em meados dos anos 2000, Jairam Ramesh, membro eminente do governo indiano responsável pelas questões ambientais, havia criado o conceito de “Chindia”,4 confirmando assim certo aquecimento das relações entre os dois países. Desde a visita histórica do primeiro-ministro a Pequim em 1988, a lembrança da guerra de 1962 que opôs os dois países esvaeceu-se, e o ritmo dos encontros oficiais não diminuiu. Foram assinados importantes acordos, como o India-China Strategic and Cooperative Partnership for Peace and Prosperity (2005). No plano diplomático, a Índia reafirmou que o Tibete pertencia à China – como o considerava desde 1954 –, e Pequim reconheceu que o Sikkim, anexado pela Índia em 1972, fazia realmente parte do território indiano. Em matéria de economia, as trocas comerciais explodiram, para chegar a US$ 61,7 bilhões em 2010, contra US$ 3 bilhões em 2000; a China se tornou a primeira parceira da Índia.

Entretanto, os litígios fronteiriços, objeto de negociações muitas vezes penosas desde 1988, recomeçaram de maneira inesperada nestes últimos anos. Em 2009, Pequim tentou bloquear um empréstimo de US$ 2,9 bilhões do Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD) porque parte dessa soma (60 milhões) era destinada a um projeto baseado em Arunachal Pradesh, território sobre o qual Pequim não reconhece a soberania indiana. A China, que, diferentemente da Índia, nunca aceitou a linha Mac Mahon – negociada em 1913 pelos britânicos e o governo da época em Lhasa –, chama essa região de “Tibete do Sul” e a considera sua. No mesmo ano, Pequim tentou dissuadir o primeiro-ministro indiano, Manmohan Singh, de viajar para Arunachal Pradesh. Essa apreensão repentina está aparentemente ligada à presença de um monastério budista tibetano, o de Tawang, onde nasceu o sexto Dalai Lama e de onde os chineses parecem temer a vinda do sucessor do atual titular do cargo.

Além disso, em 2009-2010, as autoridades chinesas decidiram conceder os vistos para os habitantes de Jammu e Caxemira sobre folhas soltas, em vez de carimbar os passaportes indianos – maneira de contestar a soberania de Nova Déli sobre essa província.5 Quando agiram dessa forma, em julho de 2010, com um tenente-general que comandava a região militar do Norte, Nova Déli anulou a visita oficial à China, da qual o oficial participaria.

 Aliança China e Paquistão

Esses atritos se inscrevem no contexto de retomada das tensões indo-
-paquistanesasapós os ataques jihadistas a Bombaim, em novembro de 2008. O apoio incondicional da China a Islamabad não para de inquietar a Índia, preocupada especialmente com a construção do porto de Gwadar no Baloutchistan6 ou com as colaborações militares, como a produção conjunta dos primeiros caças JF-17, em novembro de 2009. Fragatas Sword(F-22P) e um tanque deveriam vir em seguida, assim como centrais nucleares que a Índia teme terem uso militar. Poderia somar-se a isso um conflito sobre a água do Rio Bramaputra. De fato, os chineses estão construindo uma central hidrelétrica acima da entrada do rio na Índia, o que pode modificar sua vazão.

Rivais em terra, Índia e China se opõem ainda mais no Oceano Índico. Nova Déli sofre de um complexo de estrangulamento ligado à expansão do “colar de pérolas” chinês (a construção de portos até o estreito de Ormuz) e à proliferação de mísseis no planalto tibetano. Do seu lado, Pequim está convencido de que a Índia é capaz de bloquear o acesso ao seu mare nostrum(o Mar da China), especialmente graças à muralha que constitui o arquipélago de Andaman.7 As tensões são ainda mais vivas de ambos os lados, na medida que grande parte do abastecimento em derivados de petróleo é proveniente no Oriente Médio e passa pelo Oceano Índico. Não é de surpreender, portanto, que os dois paísesfortaleçam prioritariamente suas marinhas – sem, contudo, deixar de lado as outras armas, como o comprovam os orçamentos militares em pleno crescimento.8

Essa rivalidade dá origem à formação de coalizões regionais. Próxima do Paquistão, da Birmânia (Mianmar) e do Sri Lanka, a China também está cortejando parceiros com os quais a Índia desejaria manter ou desenvolver boas relações, como o Irã, o Nepal e Bangladesh.

Nova Déli, por sua vez, tenta explorar a inquietação diante da potência chinesa de países bem diferentes,, como Vietnam, Singapura e Japão – com o qual assinou em 2006 um importante acordo de parceria estratégica. Por outro lado, ela se aproxima dos Estados Unidos, e Pequim só pode se irritar com uma parceria que, somando-se ao eixo nipo-americano, fortalece ainda mais o papel de potência asiática dos Estados Unidos.

Parceria emergente

Essas relações bilaterais complicadas não impedem os dois países de se encontrarem – e convergirem – cada vez mais frequentemente nas instâncias multilaterais. A diversidade das instituições que reúnem países asiáticos, ou mais amplamente, países emergentes, aumenta a frequência e a intensidade das participações: Índia e China são atualmente membros de cerca de meia dúzia de organizações desse gênero em escala regional (ver box) ou intercontinental.

Além do Triângulo Estratégico, que agrupa Rússia, China e Índia, a mais emblemática, certamente, é o grupo chamado Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). A resolução final da primeira cúpula, em junho de 2009 em Ekaterinburg (Rússia), fazia votos para a emergência de um mundo multipolar. A segunda, em abril de 2010 em Brasília, evocava de maneira mais precisa as questões geoestratégicas, como a do Irã: os Bric – naquela época a África do Sul não pertencia a esse “clube” – entenderam-se para considerar que as sanções propostas pelos ocidentais não eram uma solução. Finalmente, na ocasião de sua terceira cúpula, em Sanya (China), em abril, esse clube de novas potências transformou-se em uma verdadeira instância política, com a cooptação da África do Sul, que não era qualificada para fazer parte desse círculo em razão de seu desempenho econômico, com China e Índia unidas em defesa dos interesses dos países emergentes, como já haviam feito na Organização Mundial do Comércio (OMC) ao longo do ciclo de Doha e em Copenhagen. Além de criticar a intervenção na Líbia, os Brics reivindicaram mais espaço no sistema da ONU, inclusive um assento de membro permanente para o Brasil e para a Índia no Conselho de Segurança e, praticamente sem meias palavras, os cargos de responsáveis do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, pertencentes, tradicionalmente, a norte–americanos e europeus.

A acidez relativa das relações entre a China e a Índia no plano bilateral é então compensada pela intensidade de suas trocas em campos multilaterais, onde os dois gigantes asiáticos se comprazem em contrariar o Ocidente. Se essa hostilidade não surpreende muito do lado chinês, a ambiguidade de certas posições indianas suscita perplexidade.

O país parece atormentado por uma grande tensão entre, de um lado, os “ocidentalistas”, que veem a Índia como um país passarela (bridge power), capaz de estabelecer uma ligação entre o Norte e o Sul; e os “orientalistas”, que trocariam de bom grado o Consenso de Washington9 por um “Consenso Asiático” – e até pelo famoso Consenso de Pequim, que combina liberalismo econômico e autoritarismo político.

O fascínio que o crescimento chinês exerce sobre as elites indianas leva-as nessa direção. Rajiv Kumar, diretor da Federação das Câmaras Indianas de Comércio e Indústria, voltou maravilhado da reunião de Sanya: “O que há de mais notável no capitalismo chinês é a eliminação completa da distinção entre o setor público e o privado. Ambos trabalham de maneira transparente, sob a batuta do Partido Comunista”.10

 Esquizofrenia indiana

Para alguns responsáveis indianos por política externa, a democracia não é mais um ideal, mas um instrumento político: dessa forma, intervir em seu nome no Afeganistão – o que permite enfraquecer o Paquistão – parece legítimo; porém, associar-se aos protestos ocidentais contra a invasão da Geórgia pela Rússia ou a Resolução 1973 – autorizando a intervenção na Líbia – não parece necessário.

 A Índia parece condenada a uma forma de esquizofrenia. Os responsáveis pelas questões de segurança estão preocupados com crescimento de seu grande vizinho, mas as elites ficam ao seu lado diante do Ocidente; e seu meio empresarial está próximo de sucumbir ao fascínio do “Consenso de Pequim”.

Além da cúpula de Sanya, Nova Déli e Pequim decidiram retomar sua cooperação no campo da Defesa, congelada após os incidentes de julho de 2010, reduzir os desequilíbrios comerciais (a Índia registra um déficit de US$ 25 bilhões) e elaborar um novo mecanismo de conciliação de litígios fronteiriços. Quanto tempo durará esse aquecimento, que reflete o desejo conjuntural dos indianos de pressionar os Estados Unidos, ainda muito próximos, aos seus olhos, dos paquistaneses? Ninguém sabe. O que é estrutural é a capacidade dos indianos e dos chineses de multiplicar relações bilaterais de altos e baixos, e sua associação contra o Ocidente nas instâncias multilaterais.



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