ENCRUZILHADA DO GOVERNO LULA 3

Neoliberalismo progressista ou populismo de esquerda

O Banco Central independente tem servido para promover a desregulamentação bancária e manter uma taxa de juros alta (a mais alta do mundo), impedindo qualquer sonho de desenvolvimento ou reindustrialização

A votação do IOF parece ter confirmado o argumento de que as próximas eleições não serão sobre democracia ou autoritarismo, como acreditam atores políticos ligados ao governo, mas sim sobre o conflito distributivo tradicional entre classes sociais – ainda que o povo não o perceba com essas palavras.

A vitória de figuras como Bolsonaro, Trump e Milei não pode ser reduzida a um simples avanço do autoritarismo. Elas expressam, acima de tudo, uma revolta contra a sociedade produzida pela hegemonia neoliberal — ainda que, paradoxalmente, esses líderes provoquem o aprofundamento dessa mesma lógica, apesar dos temperos antiglobalistas de Trump.

O voto que os elegeu não é, em sua essência, um voto por um programa econômico coerente, mas um voto de repulsa a algo profundamente excludente e injusto. Nancy Fraser oferece uma chave analítica potente para compreender esse fenômeno:

“O que seus eleitores rejeitaram não foi o neoliberalismo em si, mas o neoliberalismo progressista. Isso pode soar, para alguns, como um oxímoro, mas é um alinhamento político real, embora perverso, que é a chave para entender os resultados da eleição nos EUA — e talvez alguns desenvolvimentos em outros lugares também” – como o Brasil.

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A história se resume mais ou menos assim: durante o século XX, o pós-crise de 1929, os pós-guerras e a “ameaça soviética” fizeram com que vários países do mundo capitalista implementassem políticas de bem-estar; mas, cansadas de verem a desigualdade diminuir, elites promoveram o que veio depois a ser chamado de neoliberalismo, um programa para reconcentração de renda, agudizado nos anos 1990 (não é coincidência isso ocorrer justamente após a queda do Muro de Berlim). Desde então, os países capitalistas veem as taxas de desigualdade aumentarem – com exceções em que essa tendência foi amenizada (mas não revertida), como durante o Lula II e o Dilma I no Brasil.

Muito bem. Para piorar as coisas, em 2008 houve uma crise particularmente grave do capitalismo. Essa crise levou ao surgimento de movimentos de esquerda mais radicalmente redistributiva, com apoio popular expressivo (lembremos do Syriza, na Grécia). Essa esquerda, porém, foi engolida, capitulou ou se cindiu. E abriu-se uma avenida larga para a extrema-direita. É bem didático para ilustrar isso o Brexit: saída da UE neoliberal, por razões baseadas em nacionalismo conservador.

No Brasil, em 2008, Lula adotou políticas anticíclicas, de modo que os efeitos da crise foram percebidos tardiamente, lá por 2013, quando a direita começa a se expressar como força política mais ostensiva do que era antes. Em 2014, começa a Lava Jato, em 2015 é eleito o Congresso mais conservador desde a redemocratização (até então), em 2016 ocorre a queda de Dilma.

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A retirada do PT permitiu um neoliberalismo mais límpido, sem as contraposições que o governo de centro-esquerda fazia. O processo começou no governo Temer e, embora um pouco contido no início da gestão de Lula, segue até hoje: o Banco Central independente tem servido para promover a desregulamentação bancária e manter uma taxa de juros alta (a mais alta do mundo), impedindo qualquer sonho de desenvolvimento ou reindustrialização. A austeridade é envernizada pela mídia corporativa como “responsabilidade fiscal” (exceção feita durante a Covid-19, no Brasil e no mundo), enquanto a desigualdade é mantida intocada. Desde 2016 há ainda a brutal fragilização dos sindicatos, aumento da informalidade e precarização.

Marcha das Margaridas em Brasília
Crédito: Maria Fernanda Ribeiro/Amazônia Real

O que o governo Lula tem conseguido fazer, dentro dos marcos do neoliberalismo ainda vigentes, não recompõe o status pré-pandemia, pré-Temer, pré-2015.

E a extrema-direita, que endossa políticas concentradoras, paradoxalmente vem crescendo, porque oferece narrativas anti-privilégio, como o empreendedorismo e a ideia de ruptura que convencem os cidadãos. No Brasil e no mundo, a esquerda, aos olhos da maioria das pessoas, é vista como mantenedora do status quo e detentora de privilégios: acesso a concursos públicos, universidades, políticas focalizadas e ao mundo da cultura.

Os descontentes rejeitaram: não apenas o empobrecimento econômico, mas a humilhação simbólica de serem chamados de “atrasados” por universitários; rejeitaram a globalização, não como conceito teórico, mas como experiência concreta de ruína: cidades caóticas, violência, empregos perdidos, comida cara, saúde e educação privatizadas, e promessas não cumpridas para as massas.

O desafio da esquerda, no Brasil e no mundo, é reconstruir um “nós” coletivo que una a juventude urbana, a classe trabalhadora, tanto a precarizada quanto a celetista, os movimentos de base e os desiludidos da política institucional em torno de uma mensagem simples e radical: “Somos a maioria contra a minoria absoluta dos super-ricos.” Essa é a polarização que pode dar nova vida à esquerda.

Lula, pelo menos desde 2024, e Haddad, nos últimos dias, demostram saber que essa é a polarização real e que deve ser demonstrada: “não tenho que prestar contas a ricaço, mas aos pobres”, disse o Presidente; “Quando você fala: ‘nós vamos chamar a turma da cobertura para pagar condomínio’. Aí é um espanto”, disse o Ministro da Fazenda. A campanha de taxação de Banco, Bets e Bilionários, para a defesa da isenção do Imposto de Renda para os que ganham até 5 mil, também vai nesse sentido.

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O Brasil vive uma verdadeira sincronicidade com os Estados Unidos. Como argumentam André Singer, Cicero Araujo e Leonardo Belinelli, em ambos os países a queda da participação da indústria no PIB e no emprego, iniciada nos anos 1980, gerou insatisfação em setores da classe trabalhadora, que passaram a apoiar líderes antidemocráticos e antiestablishment. Além disso, o crescimento da influência evangélica conservadora e as divisões geográficas — como o apoio do “interior profundo” nos EUA e das regiões do agronegócio no Brasil —, fortaleceram essas lideranças. Talvez esses fatores ajudem a entender o paralelo entre Trump e Bolsonaro; e o 6 de janeiro e o 8 de janeiro.

Se esses paralelos são válidos, talvez o conselho de analistas que observam os Estados Unidos seja útil para nós. Naomi Klein recentemente defendeu o que chama de “populismo de esquerda”, representado por Bernie Sanders, como a única força que pode enfrentar o fascismo, criando formas de organização e solidariedade em contraposição à extrema direita.

Resgatemos novamente Nancy Fraser. Em entrevista recente à Folha, ela também defendeu que precisamos de um populismo de esquerda para enfrentar o populismo da extrema direita.

Precisamos de populismo que faça jus à literalidade do termo: políticas em prol das grandes massas da população.

O governo Lula poderia — além da isenção dos 5 mil, e da isenção de tarifa de energia para o CadÚnico (já foi editada a MP 1300/25) — avaliar propostas como combate à jornada 6×1, fomento para tarifa zero em todas as grandes cidades, postos de parada e consórcio garantido para motoristas de aplicativo e taxistas, ações repressivas e de inteligência para retomada de territórios dominados pelo crime organizado, reassentamento massivo de comunidades em áreas de risco, energia mais barata para a classe média…

Claro que é fácil escrever; difícil é fazer. E fazer, de fato, é difícil — por diversos motivos. Há as dificuldades orçamentárias: cada ponto percentual na Selic custa cerca de R$ 40 bilhões (!), e o governo segue encurralado pela lógica da austeridade, que visa não apenas preservar recursos para o pagamento de juros, mas também estrangular a gestão Lula. Soma-se a isso a falta de recursos humanos: o governo atual herdou um Estado desmontado, e os concursados ainda não assumiram seus cargos devido às demoras inerentes ao processo e aos inexplicáveis três longos meses de formação, como se a gestão não tivesse urgência. E, por fim, há as dificuldades políticas de toda ordem.

Mas a ausência de lógica imaginativa e ousada por parte da esquerda é, novamente, a avenida aberta para a extrema direita. Enquanto a esquerda hesita em abraçar um projeto audacioso e efetivamente popular, a extrema-direita avança; o momento exige coragem para construir uma alternativa que una, em vez de dividir, e que coloque as necessidades da maioria acima dos privilégios de poucos.

Marina Basso Lacerda é pós-doutora e doutora em ciência política; autora do livro O novo conservadorismo brasileiro: de Reagan a Bolsonaro (Zouk), finalista do prêmio Jabuti de Ciências Sociais. Pesquisadora do Cenedic/FFLCH/USP.

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