No futebol brasileiro, o riso é um esquema ofensivo

COPA: FUTEBOL E POLÍTICA

No futebol brasileiro, o riso é um esquema ofensivo

por Helcio Herbert Neto
18 de novembro de 2022
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Humor é ferramenta política, com tradição popular, que se manifesta até nos gramados. Confira no novo artigo do especial Copa: futebol e política

A sinfonia do futebol é composta por gritos de gol e uivos em jogadas perigosas. Para quem vai aos estádios, as versões de músicas populares das torcidas organizadas também fazem parte dessa massa sonora. Existe um ruído menos perceptível que até aparece durante os jogos, mas surge com mais força após o placar final. No dia seguinte, principalmente: o riso. A crônica registra que, historicamente, o humor foi reação comum a vitórias e derrotas nas campanhas brasileiras em Copa do Mundo.

O humor integra a rotina do futebol brasileiro. Gargalhadas são a trilha sonora das brincadeiras entre adversários – e tem uma vasta tradição política. Depois de vitória, é comum que os torcedores ironizem quem ainda lamenta o desempenho do time derrotado. O lado lúdico desse hábito é evidente, a ponto de ter ajudado a estabelecer grandes rivalidades regionais. Em outras palavras, as provocações formaram o clubismo e os clássicos brasileiros. Além disso, rir desarma, o que o torna recurso para resistência.

A contestação por meio do sarcasmo foi retomada ao longo das décadas na cobertura esportiva. O caso do comunista João Saldanha é o mais notável. Muito popular até o fim dos anos 1980, Saldanha tinha como diferencial a coloquialidade e o sarcasmo. Há décadas na TV o tom cáustico de José Trajano reitera essa tendência. Antigo assessor de Darcy Ribeiro, o comentarista se equilibrou entre o humor e a crítica para, entre outras pautas, defender a memória do remador e militante político Stuart Angel – morto pela ditadura.

São apenas exemplos de comentaristas esportivos que se utilizaram de traços cômicos para colocar em evidência o que há de mais autoritário no Brasil. Casimiro Miguel anda por outro país, em um contexto muito diferente. No entanto, representa de certa forma essa herança que funde comédia e esporte. Iniciou sua carreira na TV por assinatura e em suas plataformas digitais. Sua atividade não se limita ao comentário: é streamer e conquistou sua audiência durante o período mais cerrado da pandemia.

Em horas de transmissão ao vivo, foi companhia na beira do abismo. Conseguiu se diferenciar de muitos dos principais atores relevantes das redes sociais ao ironizar quem resistia à vacinação. No instante mais intenso de campanha contra a imunização, executada pelo governo Bolsonaro e por seu séquito, Casimiro se atreveu a ridicularizar o medo repentino de agulhas que rondou setores significativos da população. Inclusive entre os jovens. Até por isso foi colocado no centro da corrida presidencial em 2022.

Um dia, quando acordou, suas caixas de mensagens estavam lotadas. Todas denunciavam a campanha de desinformação, rapidamente desbaratada pelos seus perfis oficiais. Na semana da eleição, uma montagem divulgada pelo filho do presidente da República transmitia a ideia de que Casimiro votaria em Bolsonaro. Anteriormente, o streamer já havia declarado voto para a campanha de oposição, que terminou vencedora. Essa experiência apenas relembra que a tendência, presente na cultura popular, é um foco de disputas.

Neymar prometeu dedicar primeiro gol na Copa a Bolsonaro. (Foto: Lucas Figueiredo/CBF)

A arte conseguiu perceber com nitidez essa forma muito particular de transgressão: “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade, simboliza isso no cinema. Os propósitos políticos se misturam ao gozo, ao prazer com o futebol. O esporte se torna brincadeira, reporta os torcedores aos jogos da infância e à mobilidade do corpo. É necessário, contudo, não recair em idealizações – erro constante nos livros de memórias sobre os nomes da imprensa, escritos por admiradores ou pelos próprios jornalistas.

Não é heroísmo. Nem Casimiro nem seus antecessores devem ser vistos envoltos por um halo. Essa constante na maneira de se comunicar sobre futebol no Brasil demonstra que recorrer ao humor é, ao mesmo tempo, popular e desafiador. Com isso, as inclinações políticas se tornam mais sutis. O posicionamento nem sempre é militante ou abertamente vinculado a bandeiras e partidos. Para complicar, não são raros os casos de comentaristas esportivos conservadores que também se amparam na comédia.

Contemporânea, a atuação de Milton Neves é bem ilustrativa. O comentarista se demonstrou um aliado de Bolsonaro ao longo de seu mandato, a despeito das reiteradas manifestações contra o regime democrático do presidente e de seus apoiadores. Entre defesas do governo e comentários sobre o desempenho de equipes e atletas, Neves ironiza personalidades do futebol, de maneira lúdica. Isso retoma uma tradição da direita brasileira, que teve nos udenistas do esporte seus exemplares mais significativos.

Os desdobramentos do riso são extensos. Não é possível enfrentar a política bolsonarista sem reconhecer que o humor alimentou esse projeto de poder. Menos pelos seus adeptos – na maioria das vezes sombrios e severos –, do que por causa do comportamento do próprio líder. Memes impulsionaram a popularidade do candidato, ainda em campanha, antes da eleição de 2018. O sarcasmo à sombra do Palácio do Planalto ou em transmissões ao vivo pela internet, com ofensas e xingamentos, foram uma tônica do seu desempenho na presidência.

O escárnio de Bolsonaro escapa do noticiário da Copa do Mundo, a despeito de seus apoiadores vestirem camisas da seleção brasileira durante atos antidemocráticos que persistem em frente a quartéis. A ridicularização do governo diante de mortes na pandemia ou da realidade dos famélicos do país fortalece a relevância – dramática – do riso. A relação disso com o futebol e as expressões políticas distintas que recorrem à comédia na cobertura esportiva chamam atenção para o choque de setores antagônicos.

O riso não é um domínio das esquerdas. Esses exemplos recentes e trajetórias anteriores, ainda no século XX na radiodifusão brasileira, reafirmam que os debates políticos que atravessam o futebol se conectam com o humor. A tecnologia mudou e hoje esses choques se espalham pela internet. Casimiro exibe partidas inteiras, em tempo real na Twitch, e brinca com assuntos variados, durante horas a fio, mas sua conexão com o histórico do comentário esportivo é evidente.

Neymar, que costuma dançar e brincar nas suas comemorações, prometeu homenagear o candidato derrotado nas urnas em seu primeiro gol no Mundial do Catar: uma reverência indireta ao apoio a torturadores, a regimes autoritários e ao arrepio da lei. O caráter político do riso faz com que essa atitude, premeditada, não seja recebida com ingenuidade. Exige ainda que as divertidas reações de Richarlison – jogador da seleção brasileira atento a pautas sociais –, em contrapartida, sejam enxergadas com atenção.

 

Helcio Herbert Neto, jornalista e filósofo, é doutor pelo Programa de Pós-Graduação em História Comparada da UFRJ e mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFF. Pesquisador do campo da cultura popular, é autor do livro Conte comigo: Flamengo e democracia, lançado em 2022.

 

Paixão das multidões, negócio bilionário, fator de mobilização social: o futebol é arrebatador. E, a cada quatro anos, as melhores seleções nacionais se reúnem e deixam ainda mais em evidência todas essas disputas políticas. Em 2022, a Copa do Mundo do Catar traz à tona um planeta cindido, após o período mais severo da pandemia, e tensionado pela emergência da extrema direita. Até o final do torneio, Le Monde Diplomatique Brasil publica semanalmente os artigos do especial Copa: futebol e política – perante o assombro que, em um momento tão crucial, o mais catártico dos esportes provoca.


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