O centro político ainda importa?
A ideia de que o Brasil vive uma polarização crescente tornou-se quase um lugar-comum no debate público
“O país está mais polarizado”. Há mais de uma década, essa frase tem se tornado recorrente no debate público, circulando com frequência na imprensa tradicional, nas redes sociais e nas análises produzidas por especialistas. De fato, o Brasil atravessa um processo cada vez mais evidente de divisão política e social. Convém notar, contudo, que tal tendência não se limita à realidade brasileira. Em diferentes países, observa-se um ambiente marcado pela crescente polarização, no qual posições ideológicas se tornam mais rígidas, a disposição para o diálogo diminui e os grupos passam a se fechar em seus próprios círculos de afinidade. Nesse contexto, a arena eleitoral tende a assumir contornos mais conflituosos, frequentemente reduzidos à lógica da oposição irreconciliável entre campos adversários.
Diversos fatores têm contribuído para esse cenário. Entre eles, destaca-se o papel desempenhado pelas transformações no ecossistema informacional dos últimos anos. Segundo o politólogo Yascha Mounk[1], a expansão da internet e, sobretudo, o funcionamento dos algoritmos que estruturam as redes sociais favoreceram a formação de ambientes comunicacionais segmentados. Nessas plataformas, os usuários tendem a ser expostos predominantemente a conteúdos que confirmam suas próprias crenças, reforçando percepções prévias e limitando o contato com perspectivas divergentes. O resultado é a consolidação de bolhas que, ao mesmo tempo em que intensificam identidades coletivas, passam igualmente a interpretar a realidade a partir de referenciais cada vez mais limitados.
O papel do centro
Isto posto, impõe-se uma pergunta: o centro político ainda importa? Antes de responder, convém fazer uma distinção conceitual importante. O termo “centro” não deve aqui ser confundido com o chamado “Centrão”, expressão que designa um conjunto de forças parlamentares caracterizadas sobretudo pelo pragmatismo eleitoral e pela negociação fisiológica de apoio em troca de posições e recursos no interior do aparato estatal. Em seu sentido original, o centro costuma ser entendido menos como uma posição doutrinária rígida e mais como um espaço de mediação. O filósofo italiano Norberto Bobbio[2], um dos mais influentes teóricos da democracia no século XX, observou que, em regimes pluralistas, o centro tende a funcionar como uma espécie de fiel da balança do sistema político. Em vez de representar uma postura neutra ou desprovida de convicções, ele desempenha o papel de ponto de contato entre forças que se percebem como antagônicas.
Essa função de mediação possui uma relevância particular em sociedades marcadas por fortes clivagens ideológicas. O centro atua como uma zona de interseção na qual posições distintas podem dialogar, negociar e buscar soluções comuns para problemas coletivos. Ao favorecer o compromisso comum, ele introduz um elemento de racionalidade no debate público, evitando que a disputa entre adversários se converta em uma cruzada baseada na lógica de exclusão absoluta do outro.
Enquanto as categorias de esquerda e direita costumam apresentar contornos relativamente nítidos no imaginário coletivo, o mesmo não se pode dizer do centro. Ao longo da história, aquelas duas tradições consolidaram identidades mais facilmente reconhecíveis. Conforme argumenta o economista Thomas Piketty[3], podemos dizer que a esquerda se associa a projetos que enfatizam igualdade social, ampliação de direitos e intervenção do Estado na correção de desigualdades estruturais. A direita, por sua vez, tende a valorizar ordem, tradição e maior autonomia das forças de mercado na geração de riqueza. Ainda que tais definições comportem inúmeras variações e matizes, elas nos ajudam a obter referências relativamente claras para a identificação dessas correntes.
O centro, em contraste, historicamente sofre com a ausência de uma identidade bem delimitada. Não raro, essa posição é alvo de um certo preconceito, sendo associada à ideia de indecisão ou de postura “em cima do muro”. Tal percepção leva a interpretá-la como mera recusa em escolher entre alternativas antagônicas, quando, na realidade, representa uma tentativa deliberada de moderação e de busca por soluções conciliatórias na esfera pública. Dada sua própria natureza, ele costuma operar como elo de negociação e compromisso entre orientações opostas.
Em contextos marcados por forte polarização, a flexibilidade característica do centro tende a funcionar como um recurso político relevante. Ao não se prender rigidamente a um único campo, ele preserva a capacidade de dialogar com diferentes alinhamentos e de construir pontes entre polos que, à primeira vista, parecem inconciliáveis. É justamente nessa função de mediação que reside uma de suas principais contribuições para a estabilidade e o funcionamento das democracias.

Eleições em um país dividido
Em 2022, na eleição presidencial mais acirrada da história recente do Brasil, definida por uma diferença inferior a 1% dos votos válidos, Lula da Silva somente conseguiu garantir a vitória ao dirigir um aceno explícito ao centro. Tal movimento materializou-se na formação de uma “Frente Ampla”, que reuniu os mais diferentes segmentos sociais em torno da “defesa das instituições democráticas”. A escolha de Geraldo Alckmin como candidato a vice-presidente – figura historicamente associada à centro-direita – simbolizou de maneira clara essa estratégia de ampliação de alianças.
Entretanto, uma vez no poder, a relação do governo com os centristas mostrou-se ambígua, para dizer o mínimo. Analistas sustentam que o discurso conciliador que marcou a campanha não se traduziu plenamente na prática subsequente. O aumento excessivo de impostos e a tentativa de ampliar o papel do Estado em empresas estatais foram apontadas por alguns observadores como exemplos de iniciativas que tensionaram a relação com os setores moderados do espectro político. Na avaliação desses críticos, o centro teria sido mobilizado sobretudo como instrumento de viabilização eleitoral e, uma vez cumprida essa função, acabou gradualmente deslocado para uma posição periférica. Falando sem rodeios: foi usado e depois jogado fora.
À medida que um novo pleito se aproxima, observa-se novamente um movimento de reaproximação com essa vertente do eleitorado. Esse gesto, contudo, não se restringe à ala governista. A oposição de direita, representada por Flávio Bolsonaro, tem igualmente procurado emitir sinais de diálogo com setores moderados, numa tentativa de aumentar sua base de apoio.
Mais grave ainda: o país permanece em polarização. Segundo a última pesquisa Quaest[4], 46% dos entrevistados dizem que Lula é radical, enquanto 43% afirmam exatamente o mesmo de Flávio Bolsonaro. Ambos os candidatos também aparecem empatados com exatamente 41% das intenções de voto. Tudo indica, portanto, que a próxima disputa voltará a passar pelo terreno do centro. Esse fenômeno revela um padrão recorrente da crise das democracias contemporâneas: embora o centro apareça como a posição mais enfraquecida e criticada – acusado ora de falta de identidade, ora de excessivo pragmatismo – ele continua a desempenhar um papel decisivo no funcionamento do sistema político, seja ao influenciar os desfechos eleitorais, seja ao preservar o equilíbrio democrático por meio da mediação entre esquerda e direita.
Embora criticado, desprestigiado e em clara tendência de enfraquecimento, a resposta à pergunta que intitula este artigo permanece afirmativa: sim, o centro ainda importa.
Leandro Gavião é pós-doutorado em História (UFRJ), professor na Universidade Católica de Petrópolis (UCP) e coordenador do Núcleo de Estudos Internacionais Brasil-Argentina (UERJ).
[1] MOUNK, Y. O povo contra a democracia: por que nossa liberdade corre perigo e como salvá-la. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
[2] BOBBIO, N. Qual democracia? São Paulo: Edições Loyola, 2010.
[3] PIKETTY, T. Economia da desigualdade. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2015.
[4] Divulgada em 11 de março de 2026.

