A ARQUITETURA DA IMPUREZA

O regime do isolamento menstrual no oeste do Nepal

Como uma sociedade que assume compromissos formais com a igualdade mantém, no interior de suas casas, um regime de segregação baseado na biologia feminina?

No extremo oeste do Nepal, ao lado de muitas casas, ergue-se uma construção menor. Não é depósito, nem estábulo, nem abrigo eventual. É parte do desenho doméstico. Sua função não é guardar objetos, é institucionalizar o afastamento feminino sempre que o corpo começa a sangrar.

Ali se cumpre o Chaupadi.

Criminalizada pelo Estado nepalês em 2017, a prática que impõe isolamento menstrual permanece ativa em regiões como Doti e Achham. A lei prevê punições. A legislação existe. A estrutura também.

Estávamos no Nepal para uma ação humanitária com crianças acolhidas em um monastério budista. O foco era outro; saúde, organização, acompanhamento. Ainda assim, impunha-se uma pergunta incontornável: como uma sociedade que assume compromissos formais com igualdade mantém, no interior de suas casas, um regime de segregação baseado na biologia feminina?

Por meio da ActionAid e do fotógrafo que nos acompanhava, foi possível acessar comunidades onde o ritual persiste. O que se revelou não foi um resquício folclórico, mas uma engrenagem social coerente, sustentada por crença, hábito e medo.

Pesquisa conduzida em Achham com 107 adolescentes entre 13 e 19 anos indicou que 72% ainda eram submetidas ao isolamento menstrual. Entre elas, 82% dormiam em abrigos de animais; 70% não tinham acesso a banheiro; 38% passavam a noite sem colchão ou cobertor; 97% eram proibidas de consumir leite ou derivados. Quase 90% utilizavam panos velhos como absorvente. A maioria conseguia se banhar apenas uma vez durante todo o período.

Esses números não descrevem precariedade eventual. Descrevem método.

Nepal
Crédito: Lindseymaya/Wikimedia Commons

Segundo informações colhidas durante a produção desta reportagem, em 2016, duas adolescentes morreram asfixiadas após acenderem fogo em cabanas sem ventilação adequada para enfrentar o frio. Em 2017, uma jovem de 14 anos morreu depois de cumprir o isolamento menstrual em temperaturas extremas, sem proteção contra o frio noturno das montanhas. No mesmo ano, outra adolescente foi mortalmente picada por uma cobra enquanto dormia em um abrigo improvisado. Em 2019, ao menos dezesseis mortes relacionadas ao Chaupadi foram registradas na província de Sudurpashchim. Em 2023, uma jovem morreu novamente sob as mesmas circunstâncias, picada por uma serpente enquanto cumpria a reclusão.

Não se trata de desvios trágicos de uma tradição. São consequências previsíveis de uma norma social.

No oeste do Nepal, concepções de pureza ritual convertem o sangue feminino em marcador moral. A mulher menstruada é temporariamente classificada como impura. Essa classificação não permanece no plano simbólico: altera sua circulação, redefine sua posição no interior da casa e suspende sua participação plena na vida cotidiana.

O sangue deixa de ser biologia e passa a operar como critério de hierarquia.

A prática não funciona como escolha individual. Funciona como regra coletiva. E a regra é reiterada não apenas por homens, mas também por mulheres mais velhas, responsáveis por transmiti-la. O que circula entre gerações não é somente crença religiosa, mas um código disciplinar sobre o corpo.

O Chaupadi não apenas isola. Ele forma.

Forma a ideia de que o corpo feminino exige contenção.

Que sua presença pode desorganizar a ordem ritual.

Que sua biologia precisa ser administrada.

O impacto ultrapassa o risco imediato. Meninas deixam de frequentar a escola. Mulheres enfrentam restrições alimentares e sanitárias. A autonomia corporal é negociada mês após mês. Do primeiro ciclo à menopausa.

Em Melkhola, 33 mulheres lideradas por Magala decidiram confrontar essa arquitetura. Em 2024, destruíram 63 cabanas. Uma por casa. Algumas foram reconstruídas. Outras não. O gesto não eliminou a tradição, mas revelou que sua permanência depende menos da madeira e mais da crença que a legitima.

O Nepal contemporâneo convive com essa fratura. De um lado, compromissos públicos com igualdade e direitos. De outro, uma organização doméstica que reposiciona mulheres sempre que sangram.

A cabana pode estar a poucos passos da residência principal. Mas a reorganização simbólica que ela representa é profunda. A mulher permanece próxima o suficiente para continuar pertencendo, mas distante o bastante para ser lembrada de que seu corpo é tratado como risco.

Quando um processo biológico natural passa a justificar reconfigurações espaciais e restrições sociais, ele deixa de ser fisiologia e se transforma em instrumento de ordenação do poder.

A cabana pode ser derrubada.

Mas, enquanto a norma que a sustenta permanecer intacta, ela continuará a se reconstruir, na madeira, na memória ou no consentimento forçado.

Enquanto sangrar for motivo de afastamento, igualdade será apenas retórica.

 

Daniela Kallas é advogada humanitária e empreendedora social, com mais de 20 anos de experiência em missões humanitárias e projetos de impacto social na Ásia, Oriente Médio, Europa, África e América Latina. É sócia da Avencis Capital e investidora em negócios de impacto como a Nexiqon (ambiental) e a VV Inteligência Humanitária, onde impulsiona soluções inovadoras para a transformação ambiental e social.

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