Os Estados Unidos tomados pela loucura - Le Monde Diplomatique BR

A LUTA DO MEDO CONTRA O ÓDIO

Os Estados Unidos tomados pela loucura

por Thomas Frank
1 de outubro de 2020
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A nomeação pelo presidente Donald Trump de uma nova juíza para a Suprema Corte dividiu os Estados Unidos, especialmente porque ela pode desempenhar um papel decisivo em caso de contestação dos resultados das eleições de 3 de novembro. E, por enquanto, nenhum dos dois campos parece disposto a aceitar uma derrota

Durante este ano terrível, foi possível curtir um maravilhoso verão. Voltar, por exemplo, para casa na pacata Kansas City, em um bairro onde proliferam os gramados verdes bem aparados e os casarões que se poderia jurar terem sido construídos por barões. Passar tranquilamente o mês de agosto lendo romances, fazendo bricolagem, assistindo a filmes antigos, bebendo vinho do Missouri. Assim era possível esquecer que uma epidemia mortal continuava se espalhando e que um colapso econômico rondava esse pequeno mundo próspero e pacífico, pois de manhã o céu continuava a brilhar e as flores, a exalar seu perfume; o trânsito permanecia fluido. Tudo convidava a montar na bicicleta, percorrer as ciclovias silenciosas em uma das mais belas cidades dos Estados Unidos. Porém, após o término desse exercício, bastava se conectar ao Twitter e ir buscar o jornal que o entregador tinha acabado de arremessar na porta e então…

Bum! Tudo estava lá, como no dia anterior: pânico, confusão, acusações, denúncias. Vídeos de indivíduos se insultando em público, pessoas loiras em trajes militares brandindo armas de guerra, carros se lançando sobre grupos de manifestantes, personagens histéricos recitando os textos fundadores da nação tentando se agarrar à sua saúde mental. A cada dia, novos sintomas de degeneração e, além disso, a impressão crescente de que ninguém mais entendia de verdade o que estava se passando.

Duas informações retiradas ao acaso do jornal Kansas City Star de 13 de julho de 2020:

– Em um restaurante de grelhados próximo ao meu domicílio entrou um cliente com um grande chapéu vermelho no qual estava escrito “Make America Great Again” [Torne a América Grande de Novo]. Ele não usava máscara de proteção. Quando o garçom (que ganha US$ 8,50 por hora, como detalhou o jornal) pediu ao cliente que cobrisse a boca e o nariz, tal como estipulava o regulamento, este levantou a camiseta para mostrar ao garçom que estava armado.

– A manchete de capa dedicada à “propagação descontrolada do coronavírus” no estado do Kansas, uma notícia que o jornal se abstinha de corroborar por meio de suas próprias fontes de informação locais, contentando-se com um mapa epidemiológico encontrado na internet. Aparentemente, a longínqua autoridade que controlava esse mapa tinha feito o Kansas mudar de vermelho-sangue (ruim) para vermelho-escuro (muito, muito ruim). E era isso. Os 2 milhões de habitantes da cidade de Kansas City que se virassem com essa informação chocante: alguém em algum lugar tinha atualizado um site de aparência oficial.

Alimentar a atualidade com tuítes ou mapas da internet evidencia com certeza um jornalismo preguiçoso, mas que ilustra bem os Estados Unidos de hoje. Os jornais regionais não conseguem mais reunir informações coletadas nos quatro cantos do estado onde estão situados pela simples razão de que não dispõem mais de um número suficiente de jornalistas para efetuar tal trabalho. Como a maior parte de seus confrades, o Kansas City Star foi vendido e revendido diversas vezes ao longo dos últimos anos, acelerando a hemorragia de sua redação. O jornal se desfez de seus imóveis históricos em 2017, e seu proprietário abriu falência em fevereiro daquele ano. Em julho, foi recomprado por um hedge fund baseado em Nova Jersey. 

Cá estamos na América de 2020: ninguém mais pode ter certeza de nada, e a agonia da imprensa é só o menor aspecto do problema. Graças ao confinamento sem precedentes vivido no país, as interações pessoais com outros humanos se tornaram problemáticas; os prédios públicos fecharam suas portas ou limitaram o acesso de visitantes; o número de homicídios disparou; as pessoas têm medo de andar de avião; muitas escolas só estão funcionando por ensino remoto; a Fox News despeja nos telespectadores mais velhos imagens de violência e caos; e a única pessoa que ainda liga para o celular velho deles é uma voz pré-gravada que os ameaça de prisão se não depositarem alguns milhares de dólares na conta de algum estabelecimento de crédito.

Ilustração: Daniel Kondo

 

Um furacão de terror

Enquanto isso, furacões parecem fazer fila para devastar a Louisiana um após o outro, e a Califórnia tem tantos incêndios que o céu se tornou cor de laranja. O mundo está desmoronando e não há ninguém capaz de consertá-lo. Há não muito tempo, durante períodos complicados, os dirigentes deste país empregavam suas competências em tentar tranquilizar a opinião pública, mas o atual ocupante da Casa Branca não se preocupa nem com isso – tudo o que lhe interessa é livrar-se de suas responsabilidades. Egomaníaco incapaz de proferir qualquer palavra sincera, Donald Trump reage ao sofrimento de seu povo como um fraco de espírito que divaga ao redor de uma vítima de acidente de carro que testemunhou. Um dos melhores resumos desse colapso epistemológico nos foi entregue pelo prefeito de Kansas City, quando o Star lhe pediu que comentasse o rumor segundo o qual uma comissão de agentes federais teria sido enviada à sua cidade: “É impossível verificar se isso é verdade, pois nada mais pode ser verificado”.

Quando nada mais é verificável, a imaginação entra em cena. E não é preciso muito, em tempos de Covid, para exacerbar nossos medos e fazê-los atingir níveis inéditos. Os norte-americanos enfrentam o fim do mundo, acreditamos nós, ou o fim de nosso modo de vida, ou o fim de qualquer coisa grande e importante que não conseguimos definir, mas que nos preocupa no mais alto grau.

Cá estamos, presas de uma dúzia de medos crescentes. Medo de que a Suprema Corte se torne conservadora por muito tempo. Medo de policiais racistas que agridem e matam com impunidade. Medo dos tumultos que inflamam as ruas. Medo de que as pessoas percam o emprego. Medo de vizinhos que se recusam a usar máscara. Medo da máscara em si, vista como uma focinheira que tenta lhe impor algum poder misterioso do qual você jamais havia ouvido falar.

Mas, neste ano eleitoral, o principal medo que nos submerge é de natureza política: que a democracia se torne moribunda ou esteja a ponto de ser derrubada por uma ditadura. Esse receio com certeza não é novo: o assunto exalta os ânimos entre amigos de esquerda de forma episódica há muitos anos.1 A era Trump fez soar esse alarme desde seu início.2 Há muito tempo é um ato de fé democrata considerar Trump como nada além de um agente russo; os democratas até tentaram destituí-lo em janeiro por ter conduzido uma política externa concebida na verdade com o único objetivo de prejudicar seu adversário político, Joe Biden. Esse presidente, como ressalta a aterrorizante história que contam, não respeita nem as normas nem as tradições, e menos ainda a mídia; também não respeita em especial a elite da diplomacia norte-americana; quanto às eleições, ele não está nem aí.

Os democratas quase não evocam mais o Russiagate,3 mas na verdade nem precisam dele. O reino cultural da Covid-19 – impondo que tudo esteja sob o sinal de pânico e de urgência – cristalizou esses medos ambientes em um artigo que foi compartilhado por todos os meus amigos de esquerda, intitulado “Não sabemos como alertá-lo mais, a América está morrendo”.4 Seu autor, Umhair Haque, que reivindica um conhecimento aprofundado do assunto na qualidade de refugiado que escapou do regime ditatorial paquistanês, afirma que nossa sociedade “está apenas a um pequeno passo do desmoronamento da democracia, nas mãos de um verdadeiro déspota e de seus fanáticos”. Alertas semelhantes anunciando amanhãs políticos crepusculares inundam as redes sociais em um ritmo quase diário.

O mais fascinante é que os apoiadores trumpistas alegam sentir o mesmo. De fato, a versão conservadora desse pesadelo de massa se revela ainda mais interessante que a de seu lado progressista, pois ela interpreta o temor dos democratas quanto a um ataque trumpista contra a democracia como uma prova de sua própria intenção de abater a mesma democracia, e o único meio de fazer esse plano falhar seria levar Trump ao poder. Nessa visão particular de mundo, os democratas semeariam de modo deliberado traços de sua conspiração, “a fim de que, quando o dia chegar, ninguém pense que se trata de uma conspiração”,5 um engenhoso exercício de acrobacia intelectual realizado sem rede de proteção por Michael Anton, um antigo alto membro da administração Trump, conhecido em especial por ter, em 2016, comparado a eleição de seu amigo bilionário a uma rebelião de passageiros em um avião desviado por terroristas.

A história do “conluio” com Vladimir Putin seguiu uma trajetória análoga. De 2017 a 2019, a hipótese de uma lealdade de Trump ao regime russo era tão aceita que não deixava, por assim dizer, nenhum espaço para qualquer outro pensamento político. Infelizmente, as provas finalmente entregues para embasar essa teoria não se revelaram tão substanciais quanto o esperado, o que permitiu à base eleitoral do presidente norte-americano construir sua própria realidade, na qual o inquérito do procurador Robert Muller a propósito das ligações entre Trump e a Rússia se transformou em tentativa de golpe de Estado, perpetrado, é claro, pela mídia e pelo “Estado profundo”. 

 

“Covarde-chefe”

A epidemia forçou democratas e republicanos a suprimir o caráter público de suas respectivas convenções, que constituiriam, como regra, o apogeu desse ano de campanha eleitoral, substituindo-o por um show televisivo difícil de aguentar – quatro noites de monólogos produzidos de forma medíocre, executados por celebridades de cada partido. Tudo parecia opor dois espetáculos: os republicanos vociferando e rugindo, ao passo que os democratas se concentravam na diversidade étnica e nas supostas virtudes morais de seus líderes. De maneira mais geral, no entanto, essas duas demonstrações de força verbal em tempos de Covid apresentaram muitas semelhanças. Nos dois casos, tratou-se de suscitar um reflexo de pânico, incentivando o espectador a pensar o pior do campo adversário e a esperar que um semblante de normalidade só poderia voltar se seu próprio candidato vencesse em novembro.

Para os democratas, o componente “pânico” do programa jorrava que nem água. Bastou-lhes repetir o que as mídias dominantes – fora a Fox News – vêm ecoando há quatro anos: que Trump é uma ameaça para nossas instituições; que ele aviva o fanatismo de sua base; que falhou de modo lamentável em sua resposta à epidemia; que é de uma incompetência flagrante; que usa de diferentes meios para desacreditar todo o processo eleitoral etc. Esses atos de acusação ocorrem com cada vez mais facilidade, visto que estão, em sua maioria, em conformidade com a realidade.

Tammy Duckworth, senadora de Illinois, qualificou Trump como um “covarde-chefe” por ter traído os soldados norte-americanos por meio de seus acordos com o Kremlin. A cantora pop Billie Eilish anunciou que o presidente estava “destruindo nosso país e tudo o que amamos”. O governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, vestindo seu habitual terno de competência administrativa,6 sugeriu que o próprio trumpismo era uma espécie de vírus. Porém, o mais eficaz nesse exercício, e de longe, foi, sem dúvida, o ex-presidente Barack Obama, que sintetizou os perigos do trumpismo de maneira ao mesmo tempo sóbria e professoral. Afirmando ter esperado que o magnata do setor imobiliário se elevaria à altura de sua função uma vez no posto, precisou: “Mas ele nunca fez nada disso. […] Ele não mostrou nenhum interesse por seu trabalho, nenhum interesse em encontrar um terreno de entendimento, nenhum interesse em utilizar o imenso poder de seu gabinete para ajudar a quem quer que seja além de si próprio e de seus amigos, nenhum interesse em tratar a presidência como algo diferente de um reality show entre outros, que ele explora para atrair a atenção de que precisa”. Imputou em seguida a seu sucessor a responsabilidade completa pelas mortes por Covid, bem como pela destruição de “nossa orgulhosa reputação ao redor do mundo”, seja lá qual esta possa ser. Reagindo aos receios de fraude eleitoral expressos pelos republicanos, o ex-presidente se arriscou em um duplo salto de costas ao declarar: “É assim que periclita a democracia. Até não ser mais democracia nenhuma”.

Outro tema importante da convenção democrata: por que Biden é nosso melhor amigo. É “um irmão”, assegurou Obama, um ser “dotado de empatia”, “honesto” e “decente”, certificou Bernie Sanders. Não percamos tempo debatendo a interminável carreira política de Biden, em parte porque seu histórico em matéria de comércio e de polícia chocaria seus eleitores, em parte porque, em tempos de Covid, todo conflito deve se resumir a um confronto entre o bem e o mal – ou, parafraseando Biden, a uma busca de luz para “encerrar a temporada de obscuridade nos Estados Unidos”.

“Todas as eleições são importantes”, lembrou-nos Biden, nesse tom desajeitado que, conforme alguns dizem, tem seu charme. “Mas sabemos em nosso coração que esta é ainda mais carregada de consequências.” Ela “determinará com o que a América se parecerá por muito tempo. Nossa identidade está em jogo, a compaixão está em jogo, a decência, a ciência, a democracia, tudo isso está em jogo”. Em seguida, o ex-vice-presidente consentiu brevemente em trabalhar com fatos – diante da epidemia, os Estados Unidos registraram os “piores resultados de todas as nações neste planeta” – antes de voltar ao mundo espiritual, onde os inimigos abstratos se enfrentam em batalhas memoráveis: “Que a história possa decidir que o fim do capítulo da obscuridade norte-americana tenha começado esta noite, com o amor, a esperança e a luz se aliando na batalha pela alma da nação”.

Há décadas, as convenções democratas tinham o costume de se reunir em torno de um grande tema que contribuía para a federação: o partido da classe popular, aquele que zelava por seus interesses e garantia que as regras impostas aos reles mortais também valessem para os poderosos. Embora essa mensagem tenha correspondido cada vez menos à realidade ao longo do tempo, a imagem histórica do partido impunha utilizá-la de novo e de novo. 

Mas não desta vez. Evocaram alguns sofrimentos infligidos ao povo pela crise econômica, decorrente da “pandemia de Trump”, mas sem insistir muito nisso. Para onde tinham ido os democratas que outrora denunciavam com fervor as desigualdades? Onde a ideia de justiça social fora se esconder nos tempos de Covid? Bem, em parte, na Convenção Republicana, que ocorreu uma semana depois. O tema predileto dos democratas fez uma surpreendente aparição ali desde a primeira noite. Dando seguimento à profissão de fé dos conservadores, chamaram ao palco o jovem Robert Kirk, fundador de um grupo de estudantes em guerra contra os ensinamentos “esquerdistas”, que convocou o público a nada menos que a luta de classes. “Durante décadas”, exclamou ele, “as classes dirigentes dos dois partidos venderam nosso futuro. À China. A multinacionais sem rosto. A lobistas ávidos. Fizeram-no com a intenção de preservar seu próprio poder. E para enriquecer. Manipulando o sistema de modo a destruir os bravos patriotas da classe popular que se esforçam para construir uma família e levar uma vida decente.” O orador seguinte tomou por alvo os sindicatos dos professores.

O pânico se tornou a grande questão cultural de 2020, uma moda barulhenta e sexy que cada um reivindicou para seu lado. Mas, enquanto os democratas se colocaram sobriamente em guarda em relação ao racismo sistêmico e aos perigos aos quais Trump expôs as instituições democráticas, eles acabaram sendo superados de longe no que se refere ao terror. Os republicanos são os virtuosos do medo, os grandes mestres do mundo transformado em pesadelo. Recoloquem os democratas no comando, dizem eles, e verão não apenas o fim da democracia, mas a morte da civilização propriamente dita. Tumultos se espalharão por todos os lados, piores do que aqueles aplicados nos protestos contra a violência policial durante o verão. As propriedades privadas serão incendiadas, as estátuas derrubadas, os subúrbios residenciais brancos aniquilados. E a grande mídia não dirá nada, é claro, pois está hipnotizada pelas sereias do esquerdismo e da anarquia… 

Bem como James Jordan, o representante de Ohio no Congresso: “Vejam o que está acontecendo nas cidades norte-americanas: crime, violência, lei da loucura. […] Os democratas não vão deixá-los ir ao trabalho, mas permitirão que vocês façam protestos”.

Bem como Mark e Patricia McCloskey, um casal abastado de St. Louis, no Missouri, que ficou famoso por ter apontado armas de fogo aos manifestantes pacíficos do Black Lives Matter: “Eles querem abolir completamente os subúrbios”; “sua família não estará segura na América dos democratas radicais”; “a loucura, incitada por seus aliados nas mídias, vai tentar destruí-los”.

 

Uma luta de classes singular

Bem como Kimberly Guifoyle, ex-apresentadora da Fox News recrutada pela Trump Organization, que literalmente urrou seu discurso como se estivesse sem microfone para um estádio com 50 mil apoiadores, enquanto falava de um cômodo vazio de um escritório em Washington: “Esta eleição é um combate para a alma da América”; “eles querem destruir este país e tudo aquilo pelo qual lutamos e que apreciamos”; “América! É ela quem está na balança”.

Bem como, por fim, Donald Trump Junior, substituto de seu pai no seio da Trump Organization: “No passado, os dois partidos acreditavam na bondade da América. […] Desta vez, o outro partido ataca até os princípios sobre os quais nossa nação foi fundada. Liberdade de pensamento. Liberdade de expressão. Liberdade religiosa. O estado de direito”.

Lembrando que tudo isso se concentrou apenas no primeiro dia da Convenção Republicana. Os três dias seguintes foram dedicados a construir uma visão alternativa da realidade, na qual Trump era tão inocente quanto um recém-nascido. Ele fez tudo o que pôde contra a epidemia, cuja culpa, aliás, cabe exclusivamente à China, e a retomada econômica está aí, bem diante de nós. A tarefa de explicar que Trump não era racista parecia delicada, tiveram então a ideia de confiá-la a um leque de atletas negros que viriam certificar que o presidente amava os afro-americanos.

Para entender de verdade a eleição crucial que nos aguarda, convém em primeiro lugar levar em consideração a maneira como as grandes mídias de informação deste país se atiraram contra Trump durante quatro anos. O Washington Post, para citar apenas esse, publicou três ou quatro colunas por dia inteiramente dedicadas, ou quase isso, a retratar o presidente sob o aspecto mais aviltante possível. Destinados, com toda evidência, a fazer sua cota de popularidade cair, esses ataques permanentes foram, no entanto, um tanto benéficos a Trump, pois fizeram as expectativas descerem a um nível muito baixo. Eis um homem apresentado dia e noite aos norte-americanos como um monstro repugnante, um homem sem virtudes, uma criatura desprezível no último grau, talvez até um traidor. E se os republicanos conseguissem demonstrar que na verdade é um sujeito corajoso, com um coração e até com um cérebro?

É o que explica esse momento de puro triunfo na convenção republicana: a solenidade de encerramento, quando a ladainha das palavras tediosas pronunciadas pelos oradores sem convicção em uma sala vazia deu lugar a Ivanka Trump, filha do presidente, saindo da Casa Branca entre fileiras de bandeiras americanas e sob a ovação de uma multidão louca e vibrante, em carne e osso e desprovida de máscara – uma atitude de desafio perfeitamente chocante em meio a uma epidemia que havia, até aquela data, eliminado mais de 150 mil pessoas no país.

Com os cabelos balançando sob o efeito de uma leve brisa, Ivanka avançou em direção ao microfone colocado no Gramado Sul da Casa Branca e nos levou a um país das maravilhas onde Trump – o “presidente do povo”, o “campeão dos trabalhadores norte-americanos”, a “voz dos homens e mulheres esquecidos deste país” – interpreta o papel de gentil e onde são as mídias e os políticos “de esquerda” que assumem os papéis de mentirosos e maldosos. O presidente, nos diz ela, é amado por seus netos. É amado pelos “mecânicos estoicos e pelos trabalhadores do aço” que caem em lágrimas quando o encontram. É movido por uma “profunda compaixão por aqueles que foram tratados com injustiça”, em particular os detentos. Imagine como foi duro para ele sacrificar “a economia mais forte e a mais inclusiva jamais vista na memória do homem” colocando-a “em pausa para salvar vidas norte-americanas”. 

Então foi a vez de Trump em pessoa subir ao pódio. Disse aceitar a nomeação de seu partido, garantiu ao público que é perfeitamente capaz de sentir emoções humanas normais, em seguida aplicou-se em desfazer o imaginário maniqueísta de Biden: “A América não é um país mergulhado na obscuridade; a América é a tocha que ilumina o mundo”. Seu rival democrata possui todos os defeitos dos quais ele próprio é acusado, prosseguiu ele, em especial aquele de ter lesado a classe operária. Ele “embolsou as doações dos trabalhadores, abraçou-os e até os beijou” – uma alusão ao hábito bem conhecido do ex-vice-presidente de infligir a seu público feminino marcas de afeto não desejadas –, “disse-lhes que compartilhava de sua dor, então retornou a Washington para votar a favor do deslocamento de nossos empregos para a China ou para qualquer outro país distante. Tudo o que você acha que sabia é falso”.

Quanto à classe política de seu país, é um bando de criminosos, do primeiro ao último. “Pessoas experientes em Washington me pediram que deixasse a China continuar roubando nossos empregos e saqueando nosso país, mas eu mantive a promessa que fiz ao povo.” São seres demoníacos e insultantes, traidores que só pensam no poder; se você permitir, eles aplicarão um programa demente que consiste em derrubar as fronteiras do país (“em meio a uma pandemia planetária!”), fornecer aos imigrantes ilegais os serviços de advogados pagos pelo contribuinte, suprimir o orçamento da polícia, encorajar as revoltas e soltar “400 mil criminosos nas ruas de seus bairros”. Segundo o presidente, essas pessoas de esquerda “querem proibi-los de escolher a escola de seus filhos, enquanto inscrevem os deles nos melhores estabelecimentos privados do país. Querem abrir as fronteiras, enquanto eles próprios vivem atrás de grades protegidas nos melhores bairros do mundo. Querem anular o financiamento da polícia, enquanto eles próprios se beneficiam de seguranças armados. Em novembro, devemos virar para sempre a página dessa classe política que falhou em todos os sentidos”.

As vociferações de Trump não se resumem apenas a bufadas delirantes que podemos desprezar ou das quais podemos zombar. Por trás de seus devaneios se esconde um fundo de verdade. Ninguém ignora que alguns políticos progressistas são oriundos sobretudo de classes privilegiadas; a radicalização ao longo dos anos das mídias de prestígio, das universidades de primeira linha e das instituições culturais frequentadas pelas elites ilustra esse estado. Um exemplo entre outros: no fim de agosto, a NPR, uma rádio para executivos abastados, recebeu o autor de uma obra chamada Em defesa dos saques. Outro exemplo: a camiseta de preço exorbitante, criada por um estilista da moda, na qual está estampado o slogan “Todos nós deveríamos ser feministas”.

“Eles me atacam porque eu luto por vocês”, disse Trump durante seu discurso. Não, Trump não luta por nós, mas é inegável que eles o atacam. E se “eles” o detestam, para um número de eleitores é uma razão suficiente para apoiá-lo. Ele é o inimigo de seus inimigos.

Para toda uma parte da América, esse conflito está no centro das preocupações, não o Russiagate. Nem seu desdém pelas normas, nem seu uso abusivo da força militar, nem mesmo sua colossal nulidade diante da epidemia, cujas consequências se medem em dezenas de milhares de mortos, pesam tanto quando essa luta de classes singular: Trump contra as categorias esclarecidas da alta-América. Estas últimas se uniram contra ele em um laço tão estreito que a maior parte de nós jamais havia visto. O ódio que elas lhe dedicam não faz de Trump um bom presidente – ele é objetivamente execrável nesse posto –, mas lhe possibilita alinhar atrás de si milhões de pessoas que, sem isso, manteriam distância de um palhaço dessa espécie.

A animosidade que Trump atrai constitui praticamente o único trunfo que lhe resta. Sua balança econômica estrondosa se tornou apenas destroços soltando fumaça ao redor de uma árvore; os bravos cidadãos empresários que ele amava celebrar agora assistem à televisão em seus porões, esperando que se evapore uma doença mortal que quase todos os outros países do planeta controlaram melhor. A rejeição aos progressistas, cheios de lições de moral, representa sua última chance às vésperas da eleição de 3 de novembro.

Por que os norte-americanos desprezam os progressistas? A resposta está sob nossos olhos. Seus líderes desistiram de falar das classes populares, mas muitos desses se fecham naquilo que podemos chamar de a política da admoestação. Esta última está onipresente em tempos de Covid. Neste momento, circula um vídeo no qual manifestantes do Black Lives Matter cercam uma mulher que estava comendo no terraço de um restaurante; a massa a exorta gritando para que levante o punho em apoio ao movimento.7 Episódios similares, nos quais acusações e denúncias atingem seu paroxismo, surgem a cada dia nas redes sociais.

Esse sentimento de que o progressismo se tornou uma política elitista de assédio e difamação ganha mais espaço a cada dia. Não é exagero dizer que as pessoas veem essa forma de política com uma mistura de medo e ódio. Pânico, confusão, difamação, acusação feroz: é assim que o mundo está se deteriorando, e muitos norte-americanos não culpam Trump por isso. Culpam os ricos, culpam os progressistas.

 

Thomas Frank é jornalista. Autor, recentemente, de The People, No. A Brief History of Anti-Populism [O povo, não. Uma breve história do antipopulismo], Metropolitan Books, 2020.

 

1 Ver, por exemplo, Bob Fitrakis e Harvey Wasserman, “Will Bush cancel the 2008 election?” [Bush cancelará a eleição de 2008?], 31 jul. 2007. Disponível em: www.commondreams.com.

2 Elizabeth Drew, “Is this Watergate?” [Isso é Watergate?], 6 fev. 2017. Disponível em: www.politico.com. 

3 Ler “‘Russiagate’, la débâcle” [“Russiagate”, o colapso], La Valise Diplomatique, 26 mar. 2020. 

4 Umhair Haque, “We don’t know how to warn you any harder. America is dying” [Não sabemos como alertá-lo mais, a América está morrendo], no site Eudaimonia (www.eand.co), 30 ago. 2020.

5 Michael Anton, “The coming coup?” [O golpe futuro?], 9 abr. 2020. Disponível em: www.americanmind.org.

6 Terno tão mal cortado que seu proprietário só fez milagres contra a epidemia. Em março, por exemplo, deu ordens aos asilos do Estado de Nova York para abrigar pacientes de Covid, sem pensar em testá-los antes para verificar se ainda estavam na fase contagiosa…

7 Cf. Lauren Victor, “I was the woman surrounded by BLM protesters at D.C. restaurant. Here’s why I didn’t raise my fist” [Eu era a mulher cercada por manifestantes do BLM no restaurante em Washington. Eis por que não levantei meu punho], 4 set. 2020. Disponível em: www.washingtonpost.com. 



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