Palavra engajada
Confira resenha do livro do professor Reginaldo Moraes, Palavra engajada, publicado pela Editora Unesp e pela Fundação Perseu Abramo. Obra está disponível para download gratuito
Reginaldo Moraes foi meu amigo e um exemplo de generosidade intelectual com seus colegas e estudantes. Nunca deixou de me socorrer em minhas dúvidas e compartilhar conhecimentos. Tanto quando era professor na Faculdade de Educação da Unicamp, como depois, no IFCH, ambos campos sempre presentes na sua produção.

De certa forma continua compartilhando conhecimento quatro anos após sua morte, com a reunião em livro destes seus 61 textos publicados em diferentes meios, como o Jornal da Unicamp, o site Carta Maior ou o portal da Fundação Perseu Abramo. A seleção, feita pelos professores Sebastião Velasco Cruz e Luís Fernando Vitagliano, é uma pequena amostra da sua grande capacidade em investigar diferentes temas e expô-los com clareza e verve.
Palavra engajada traz textos curtos, nos quais não faltam um toque de humor, como nesse trecho em que comenta os desmandos da Lava Jato: “em 2013, o assim chamado juiz Moro julgou um processo, na verdade outro evento político, a Operação Agro Fantasma, na qual vários agricultores familiares foram presos, sendo inocentados e libertados só agora, em 2017, martírio que serviu para sabotar o Programa de Aquisição Alimentar. As ações de Moro são como o amor de Vinícius, infinitas enquanto durem.”
Redigidos entre 2014 e 2019, esses textos nos ajudam a compreender um período crucial da História recente do Brasil, com incursões a vários outros países, com destaque para os Estados Unidos. Por exemplo, ao comentar artigo do homem de finanças Peter Orszag, a ele se refere dizendo: “Enfim, mais um dos tantos sábios de Wall Street com os quais Obama povoava a Casa Branca, talvez substituindo as estagiárias de Clinton”, referência não tão sutil às estripulias sexuais do ex-presidente democrata. Analisa ainda a educação estadunidense, traçando um paralelo entre as high schools e o ensino médio alemão. Discorre sobre as grandes e famosas universidades norte-americanas (todas privadas) e como recursos públicos foram decisivos para o crescimento delas. Sem esquecer os recursos voltados para as guerras (tanto a guerra fria como as “quentes”), que financiaram a maior parte das pesquisas relevantes nessas instituições.
Sobre a Espanha, descreve a transição capenga do franquismo à democracia e como moedas daquele país mantiveram duas caras até o século XXI: de um lado a efígie do ditador, do outro a de sua cria, o rei Juan Carlos. Sobre o Chile, relembra o golpe de 1973 e como este levou às reformas dirigidas pelos chamados Chicago boys, ensaio do neoliberalismo, que se espalharia pelo mundo. Fala sobre a vitória eleitoral em 2010 do herdeiro político de Pinochet, Sebastián Piñera, que seria eleito novamente em 2018, mesmo ano da eleição de Bolsonaro, consolidando a virada conservadora na América do Sul.
O título “Palavra engajada” é perfeito para definir o que foi Reginaldo Moraes. Um intelectual e militante, capaz de unir a elaboração teórica ao embate político, sem nunca renunciar a qualquer dos dois.
O livro impresso está à venda nas livrarias e a edição digital pode ser baixada gratuitamente no site da Editora Perseu Abramo.
Nora Krawczyk é professora, livre docente na Faculdade de Educação da Unicamp.

