Por que uma pessoa abriria mão da liberdade e dos direitos para votar em Bolsonaro? - Le Monde Diplomatique

ELEIÇÕES

Por que uma pessoa abriria mão da liberdade e dos direitos para votar em Bolsonaro?

por Raphael Silva Fagundes
outubro 11, 2018
Imagem por Fabio Rodrigues Pozzebom/ Agencia Brasil
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É possível ser cristão e odiar o próximo, ter ojeriza à caridade, e rejeitar por completo o Sermão da Montanha, no qual Cristo falava em nome de uma religião que incluía e que jamais excluiria alguém

Quem assistiu ao filme Esquadrão Suicida pôde observar uma questão curiosa. A agente, interpretada pela vencedora do Oscar, Viola Davis, intitula-se “o olho” e liberta os vilões para combater o que chama de “terrorismo”. “As pessoas deixam a sua liberdade para defender este país”, diz a agente. É renunciando à liberdade que a liberdade pode ser garantida.

Algo parecido acontece por aqui. Até alguns vilões foram mantidos soltos (Aécio Neves, Richa e companhia) para ajudar no processo. Porém, além de abrir mão da liberdade as pessoas estão pondo em risco os seus direitos trabalhistas em nome da “liberdade”. Uma liberdade que merece muitas aspas – tal qual a do filme – pois está muito mais relacionada à manutenção de valores morais conservadores que à liberdade de expressão ou religiosa.

Isso nos faz lembrar o conceito de “economia moral” explorado pelo historiador Edward Thompson, que nos ajuda a refletir sobre a onda conservadora atual. Ao longo dos séculos XVII e XVIII, o historiador inglês observou que os trabalhadores que se revoltavam “estavam acostumados a uma economia com mercados, mas mercados organizados segundo normas ditadas pelo costume”. “Essas normas”, continua, “existem como um tecido de costumes e usos, até serem ameaçadas pelas racionalizações monetárias e adquirirem a autoconsciência de ser uma ‘economia moral’. Nesse sentido, a economia moral é invocada como resistência à economia do ‘livre mercado’”.[1]

Nessa época, os trabalhadores não separavam economia de moral, por isso o termo foi muito bem cunhado. Contudo, nos dias de hoje, a imprensa e as corporações ligadas ao mercado moveram mundos para poder separar essas duas grandezas. Em seguida, uma moralidade tradicional, defensora dos bons costumes, é usada para promover a forma mais cruel de economia de livre mercado.

Ao vilipendiar a economia, vem à tona o fim de uma solidariedade horizontal para o fortalecimento de uma solidariedade vertical, de baixo para cima, nunca de cima para baixo. Porque se esquece de quem está ao seu lado, ombro a ombro nas lutas cotidianas e no labor. No século XVIII, os trabalhadores sabiam que o livre mercado era incapaz de promover essa solidariedade vertical, mas muitos de nós, em pleno século XXI, emburrecemo-nos perante esse fato.

Essa separação entre moral e economia se fortaleceu com a classe média que nasceu nos governos petistas. Não tendo mais a necessidade de pensar nos meios pelos quais colocaria fim à sua pobreza, passou a pensar na moral, naquela moral familiar, de sua infância. Com uma educação utilitarista, não adquiriu instrumentos intelectuais necessários para interpretar a realidade, portanto, recorreu aos recursos herdados, isto é, à moral tradicional.

Entretanto, como dizia Castoriadis, as pessoas buscam explicações a partir do imaginário. Por mais utilitaristas que sejamos, sempre existe o fato de que não é possível existir uma sociedade onde “a alimentação, o vestuário, o habitat, obedeçam considerações puramente ‘utilitaristas’ ou ‘racionais’”.[2] Por isso precisamos do abstrato, ou seja, da moral. Mas quando a separamos da economia, dos meios pelos quais garantimos a nossa existência física, uma série de contradições surge. É possível ser cristão e odiar o próximo, ter ojeriza à caridade, e rejeitar por completo o Sermão da Montanha, no qual Cristo falava em nome de uma religião que incluía e que jamais excluiria alguém.

Esse procedimento também desenvolveu uma esquerda que, da mesma maneira, separou economia da moralidade, passando a refletir sobre as causas da mulher, do negro, do homossexual e do meio ambiente (lembram da moda do termo “sustentabilidade”?) sem relacionar todos esses temas à questão econômica. É preciso, portanto, resgatar o bom e velho Noam Chomsky: “Há muitas divisões na sociedade atual – religiosa, de todo tipo. Mas a divisão fundamental é a divisão de classes, e uma das razões para a raiva que vemos hoje no mundo se dá porque nenhuma instituição e nenhum partido político está realmente representando os interesses da classe que representa grande parte da força de trabalho”.

Adam Smith era “um dos defensores mais extremados” em deixar a liberdade de mercado “sem controle mesmo em tempos de grande escassez”. Não importa se as pessoas estiverem morrendo de fome, a lei é do mercado. Aumenta-se os preços na crise para, assim, atrair vendedores, e matar de fome os desempregados. Tudo em nome da propriedade privada e da mercadoria. Eu prefiro Diderot (sei que alguns pensariam em Marx), quando asseverava “que privilegiar a propriedade privada acima das privações em tempos de fome era um ‘princípio canibal’”.[3]

Contudo, as elites conseguiram disseminar na cabeça de grande parte da população a ideia de atrair o mercado para solucionar a crise. Por isso, a Bolsa respira aliviada com a quantidade de votos que o PSL recebeu! Por isso, que os corruptos como Aécio Neves, Richa e Roberto Jeferson estão ao lado de Bolsonaro no pleito presidencial! Todos tornam-se moralistas, ex-atores pornôs, linchadores, estupradores, viciados, aderindo-se a uma moral que permite ao mercado sair ileso de todo o processo.

O mercado se excita com a chegada de Bolsonaro ao poder porque ele liberará o mercado e reprimirá política e culturalmente a população, a mesma estratégia adotada pela China que se transformou no país mais poluente do mundo e em um lugar onde reina uma imensa desigualdade social após abdicarem o comunismo econômico. Nesse país asiático, o “marxismo é mobilizado, não em razão de sua verdade universal inerente, mas para legitimar o interesse do Estado chinês atual em manter o poder do Partido Comunista”. Lá se proíbe a “premissa básica do marxismo, o da auto-organização operária como força revolucionária para derrubar o capitalismo”.[4] E aqui acontece o mesmo, quando o político conservador pretende acabar com toda espécie de ativismo. Lá, usa-se a ideologia marxista (aqui tenho que concordar com Castoriadis quando afirma que o “marxismo tornou-se uma ideologia no próprio sentido que Marx dava a este termo: um conjunto de ideias que se refere a uma realidade, não para esclarecê-la e transformá-la, mas para encobri-la e justificá-la”),[5] aqui, com a perda de credibilidade na democracia, usa-se a moral e os bons costumes.

Depois de tocados emocionalmente, pois a moral se encontra no coração, como lembra Voltaire, e convencidos de que ela está acima de tudo, é só aproximá-la do modelo econômico que se quer defender. A moral conservadora, isto é, a mais popular, jamais pertenceria à esquerda já que esta adotou o pensamento progressista de parte da direita. Assim, a classe média, guardiã da moral e dos bons costumes, se revolta contra a moral progressista, e contra tudo que está atrelada a ela, inclusive o modelo econômico. Logo, o livre mercado, mesmo sem saber exatamente o que realmente é, torna-se atrativo a ela.

 

*Raphael Silva Fagundes é doutor em História Política pela Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.



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