Povos de matriz africana trazem a cura por meio de seus saberes

GRITO DOS EXCLUÍDOS – VI

Povos de matriz africana trazem a cura por meio de seus saberes

por Iya Adriana t’Omolu e Egbomy Roseli de Oliveira d’Yansan
30 de setembro de 2021
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Veja a seguir o sexto artigo da série do Le Monde Diplomatique Brasil com análises de militantes de movimentos sociais inspiradas nas manifestações pela democracia e contra Bolsonaro realizadas no dia 7 de setembro

O presente artigo pretende ser uma reflexão inicial sobre o panorama atual da tradição de matriz africana, em relação ao seu Sagrado, e o avanço do fascismo no Brasil no governo Bolsonaro. É importante reforçar a cultura no que tange à espiritualidade na tradição de Matriz Africana e Afro-Brasileira em contraposição aos mecanismos para a garantia de uma cultura do genocídio institucional do povo preto, para que se compreenda o que foi acentuou na atualidade, em relação à perseguição vivida pelas Casas Tradicionais – Ile, Kwe, Nzo, Templos, Centros, Terreiros – com fim no cerceamento violento ao culto.

Invadir, macular, depredar os espaços sagrados, violentar de todas as formas seus adeptos e adeptas, sua comunidade – mulheres e homens, idosas e idosos, crianças, adolescente e jovens – não se trata de ação isolada, mas de uma estratégia de extermínio sistêmica, planejada de genocídio. Porém o foco está no anúncio, na tradição como anúncio de um outro mundo possível. E é a partir dessa afirmação que discorremos o presente documento.

Lavagem do Cais do Valongo, por religiosos de matriz africana (Foto: Foto Tomaz Silva/Agência Brasil)

Somos ancestralidade, circularidade, hierarquia. Estamos umbilicalmente vinculados à natureza, acolhemos e trocamos bençãos com todas as singularidades humanas e seres viventes. Compreendemos e dialogamos com as divindades e respeitamos todas as formas de crença e de não crença. Temos como recurso essencial para o equilíbrio biomítico as folhas, as águas, a palavra, os cânticos e o exercício da cidadania, mesmo que de forma fragmentada.

Educamos por meio do exemplo e respeitamos todas as verdades que gerem paz. Então, por que a perseguição, a intolerância e os ataques?

Porque somos aqueles e aquelas que contribuíram para a formação do povo brasileiro. As humanidades, que ainda por aí correm, passaram e passam pelas mãos de mulheres que alimentaram, com seus corpos negros, essa terra. Portanto, somos essência nutricional desta nação e sabemos todos os seus males, dores e meios de curá-la.

Como filhos e filhas da resistência, cultuamos a resiliência e desenvolvemos estratégias de sobrevida e, nessa direção, somos chamadas a sair de nossos espaços sagrados, em que zelamos pelos nossos e nossas, cuidando dos e das que nos procuram, devido o momento crítico que estamos vivendo, que nos impele a nos engajarmos na luta. Nesse sentido, temos que, a partir de nossos instrumentos, nos colocarmos em movimento externo e apresentarmos uma solução.

Para quem ainda não compreende os territórios afros-sagrados, esses são lócus de acúmulos históricos com presunção de ancestralidade africana. São lugares de forças por um mundo sem opressão, onde se adquire o saber e o sentido de continuidade, são expressões da cultura e de resistência do povo negro. São espaços que buscam afirmar sua coletividade, interferindo diretamente na construção e reconstrução identitária de seu grupo social.

Esses espaços míticos são ambientes de convivência equânime, constituídos de dinâmicas próprias, que se alimentam da terra sem usurpá-la e dignificam a existência na adversidade, abrigando seus filhos e filhas das brutalidades, angústias, arbitrariedades do mundo, para além de seus muros protetivos.

O sagrado é referência, perpassa pela humanidade de cada pessoa e as qualifica para uma longa e honrosa caminhada, estabelecendo sempre uma conexão com a vida externa, com os propósitos da cidadania, na luta pela consolidação de direitos e, na medida que, em conjunto com a sociedade, avançávamos, marcávamos os nossos princípios, valores, concepções, desejos e expectativas.

Faz sentido apesar, e além do sagrado, elementar em nossas vidas, mais uma vez estarmos sendo chamados para o combate político, pois é urgente sairmos à tomada de poder. Os tempos estão acelerados, as lutas por dignidade têm nos intimado a tomar posição e a exigir unidade na diversidade.

Os dados estatísticos apontam mortalidade do nosso futuro: nossa juventude sangra e morre; morbidade de nossas matriarcas – doenças crônicas não transmissíveis, sofrimentos psíquicos; violências e violações de direitos – crianças sendo rejeitadas por trazerem as marcas de sua cultura; os homens, as mulheres, todes, carregando fomes, dores, desempregos, medos, perseguições. Literalmente, estamos sendo estreitados e estreitadas em nossas humanidades, portanto os tempos não são mais de resistência, mas de posicionamento crítico, consciente e lúcido.

É tempo de alertarmos os nossos e dizer a que viemos.

Não estamos nas inquisições, no período colonial, o Estado brasileiro está amparado em uma Constituição que a conhecemos como cidadã, mas o Estado de bem-estar social está por se realizar, se apresentando como um grande desafio urgente. Vivemos um retrocesso humano sem precedentes, já que o quadro que se configura é da falta de políticas públicas e de uma condição social em curso de profundo esgarçamento e acirramento social.

Diante desse panorama cruel, queremos, precisamos (e podemos!) transpor o fosso, criar pontes para um novo tempo. Nada de folclorização de nossa existência, sem perfumaria, a fórceps tiraremos das entranhas esses direitos e os traduziremos em solução às nossas expectativas, interesses e necessidades.

Não estaremos nos salões para adornar o rei, para com ele se saciar dos alimentos sobrantes sobre a mesa, mas sim, a partir de nossa singularidade – de povo tradicional – de religiões de matriz africana e afro brasileira, orientar a cidadania brasileira.

Os objetivos do desenvolvimento sustentável estão em nossas entranhas, em nossas práticas cotidianas, portanto a agenda 2030, o planeta 50/50, os pactos de vida, de trabalho, as legislações de uma educação decolonial, antirracista fazem parte de nossa pauta.

Somos povos que não colocam fogo nas matas, que não poluem rios e mares, portanto, que não agridem a natureza; somos povos que não se alimentam com transgênicos. No mercado de ações, sabemos o que, de fato, nos alimenta, que são as essências humanas, e, assim, estamos prontos para a ocupação legítima dos espaços de poder.

Representações nos faltam, mas estamos em vigília e temos um projeto político de Nação. Temos legislações, mas essas exigem, do conjunto, orientação, formação e competência para efetivá-la.

Apresentamos teses, aprendemos e trocamos para semear novas dinâmicas, não somos moldura, nem fósseis, desenvolvemos métodos de apreensão da realidade e mecanismos de superação a todas as formas de preconceito, discriminação, racismo, machismo, homofobia e intolerância, bases fundantes dos sugadores, dos matadores de vida.

Não abdicamos do pensamento crítico, do processo histórico, dos condicionantes que dividiram pessoas, que impediram grupos humanos de acessarem os bens sociais e as oportunidades. E, dominamos os nexos explicativos que alicerçam os nossos saberes e fazeres.

Partimos da desnaturalização do racismo, pois tudo que se trata de modos operantes de nascer, viver e morrer de negros – pretos e pardos, e pobres objetivamente, estão intrinsecamente ligados – a coisas de preto.

O culto ao nosso sagrado tem sofrido perseguições em suas formas mais explícitas, portanto, estamos sendo revitimizados pelo racismo em todas as suas faces, interseccionalidades, que impactam no exercício pleno de nossa cidadania, por conseguinte, no exercício de nosso sagrado.

É preciso descolonizar as mentes, acordar para o coitadismo de quem ainda assim nos veem; não somos as desgraças de sua humanidade, somos, assim como os povos indígenas, a salvação de sua existência, não como coisas, objetos de sua ignorância e falência humanitária, mas sim, na condição da sanidade, que ainda, de alguma forma, percorre a sua essência.

É preciso desmistificar o conjunto de mitos que oprimem os grupos humanos – de raça superior, que construiu a miséria que assola o país. O mito da democracia racial que só você acredita para seu bem-estar, para o seu conforto e interesse, prisioneiro de sua bestialidade, de uma falsa abolição e harmonia social.

De que o problema é única e exclusivamente de natureza social, portanto embasados por uma falsa ciência e modernidade, que não quer ver as distâncias permanecerem. Que somos mestiços, assim sendo, não temos como nos definir. Quando as ações afirmativas foram referendadas no Supremo foram descobertas milhões de pessoas que sabiam de sua essência, origem e lugar.

Que há racismo reverso (!?!?)… meu caro/minha cara, abre a tua cabeça e entenda, definitivamente, que não há racismo de baixo para cima em relações duais opressoras.

Ah! Em tempo, não quero mais seu choro de perdão, quero REPARAÇÃO E IGUALDADE!

Estamos de mãos estendidas para que não se confundam e se percam mais, pois o projeto político e a tomada de poder perpassam pelos cultos afros, pela educação aqui vivenciada, pelo nosso posicionamento contra as matas que vivem a queimar, pelas águas que insistem em poluir, pelo território cidadão que queremos consolidar.

Estamos doando, à esquerda brasileira, a possibilidade de seu resgate e nossa irmandade, para fazer, dessa terra, um campo de existências infinitas. Não nos diga o que precisamos fazer, agora é a hora de nos ouvir e realizar uma leitura crítica acerca das relações sociais e institucionais da nossa realidade.

As perspectivas aqui postas é que não estamos para refletir sobre ritos de religiosidade, mas sim, para dizer que, por meio da garantia da Tradição, temos plenas condições de apontar direitos e formas de solução que perpassam por nossa forma de ser e estar no mundo.

Reafirmamos o nosso compromisso em promover a harmonia social e fortalecer a reconciliação histórica, da qual o nosso Brasil tanto PRECISA!

O tempo exige pressa e aprofundamento, portanto temos conquistas e muito para dividir e, juntos, investir, efetivamente, na construção de pontes infindáveis de humanidade.

Os tempos do mundo são essencialmente de conflitos de natureza religiosa, de lutas por territórios, mais mercados, mais armas e drogas. Temos governantes xenófobos que tentam homogeneizar crenças para expandir seus impérios de terror e medos.

São fundamentalistas da burrice que querem impor seus traumas, ignorâncias, interesses, negociatas, desumanidades. Que acreditam que nada acima deles se opera e que tudo que está abaixo deles é nada. Esquecem dos furacões, dos tsunamis, da consciência rebelada que se transforma.

A queimada que tu provocas será a causa de seu sufocamento, Iku passa, leva os meus, mas, também, leva os teus.

Se estatísticas conscientizassem pessoas, não estaríamos no caos social, a vergonha individual e coletiva teria feito a transformação, pois não faltam informações, dados, tabulações, o que é preciso é lê-los, se instruir, agir, pois não estamos confusos, o problema não está em nós, não nos dê lição, ouça, essa é a palavra de ordem! Aprenda!

Os números das perseguições, agressões, mortes já dizimaram gerações e agora querem assolar o nosso sagrado; o projeto de poder em curso é da barbárie, da negação, da truculência, da insanidade e insensatez.

Os dados da intolerância estão expressos inclusive pelos órgãos oficiais, não há lugar geográfico onde não estejam acontecendo atos de violência; há um gado solto que não tem, em sua essência, elementos para se alimentar e invadem territórios; operam para desonrar, humilhar, para, por onde passam, como boiada desenfreada, devastar todos os campos – de arroz, de milho, inclusive o de soja tão cultuado pelas bolsas.

O resultado é o limite da cidadania para todos, todas, todes; o cerceamento, as clausuras, tensões, contradições, desigualdades, muros, blindagens, barreiras sociais e geográficas, heterogeneidades, fronteiras, distâncias, incompreensões, dicotomias, a banalização do outro, portanto, o horror que demarca o lugar e o não lugar.

Quando alguns perdem, todos perdem, e perdemos não são só talentos, competências, perspectivas, mas possibilidades de agregação, de convívio, de (re)conciliação do passado com o presente; o exercício de uma tal solidariedade, que aproxime humanidades, que construa pontes infindáveis de respeito, de dignidade e materialize direitos e oportunidades.

Sem genocidas, sem intolerantes, por uma sociedade livre, autônoma, inclusiva e humanizadora e humanizada. Essa é a essência de nossas práticas e o nosso projeto político, em curso.

Ìyá Adriana t’Omolu (Adriana Silva), 50 anos, autoridade tradicional do Ilé Asé Omolu ati Osun, na cidade de São Bernardo do Campo. É pedagoga, especialista em Educação para as Relações Étnico Raciais

Egbomy Roseli de Oliveira d’Yansan, 66 anos, do Ilé Iyá Omi Asé Adelode, cidade de Ribeirão Pires. É socióloga, mestre em Ciências Sociais, especialista em Saúde Pública para o SUS.

Confira os demais artigos da série inspirada no Grito dos Excluídos 2021

– Mais 590 mil mortes, consciência ética e lutas contra o bolsonarismo em São Paulo, por Samantha Freitas

– Bolsonaro e o golpe, por Frei Betto

– A moradia é a porta de entrada para todos os outros direitos, por Graça Xavier

A centralidade da luta pela saúde pública, por Marcela Pontes

A culpa não é dos crentes, por Nilza Valeria Zacarias

 



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