Reeducação capitalista na Coreia do Sul - Le Monde Diplomatique

CURSO PARA REFUGIADOS

Reeducação capitalista na Coreia do Sul

por Martine Bulard
1 de agosto de 2013
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Trata-se de uma passagem obrigatória para os norte-coreanos que, com a vida em perigo, conseguem chegar ao Sul: uma estadia de três meses no centro de recepção de Hanawon, concebido para lhes ensinar as regras que regem seu novo universo. Isso antes que eles deem seu grande salto para o mundo real…Martine Bulard

“Não podemos dar-lhes o endereço; é secreto. Mas, no terminal de ônibus em Anseong, o táxi vai levá-los. Se vierem de carro, o que é melhor, vamos orientá-los.” No total, vai levar um pouco mais de uma hora a partir do centro de Seul, diz nosso interlocutor.

Então, vamos de carro para Hanawon, o centro de acolhida dos refugiados norte-coreanos. Mas a estrada acabou por vencer nosso calhambeque. De repente, ele parou, soltando um cheiro de borracha queimada. Depois de várias tentativas infrutíferas de encontrar um táxi, a administração do centro se ofereceu para ir nos pegar. Finalmente, deixamos o local aquecido por um sol escaldante para nos instalar em um 4×4 com ar condicionado. Com certa compaixão, Shin Sun-hee, uma jovem muito elegante, trouxe-nos uma garrafa de água.

Ela aproveita a oportunidade para nos lembrar algumas orientações: sim, podemos fazer perguntas após a apresentação geral em inglês. Não, não poderemos falar com os refugiados… “De qualquer forma, você foi avisada!” Uma vertente agressiva: jornalistas, ela conhece! Finalmente, e o mais importante, sem imagens, nem de pessoas nem de lugares. “Vocês poderão ver as crianças, mas sem falar com elas.”

O tempo de formular essas recomendações, e eis que chegamos após ter atravessado aldeias, florestas e campos de arroz. Barreira dupla, passaportes deixados na entrada, penetramos nessa estranha escola onde os migrantes norte-coreanos vão descobrir o mercado livre e a concorrência à moda sul-coreana. Construções de tijolo abrigam uma escola para adultos e outra para crianças, bem como os dormitórios.

Apesar do entorno bucólico, com gramados e florzinhas, tem-se a impressão de estar em um grande internato, com certeza arrumado e limpo, mas completamente fechado. Um sentimento reforçado pelo agasalho azul-marinho com marcas de amarelo fluorescente usado por homens e mulheres – só as crianças escapam ao uniforme – e pela cerca de arame farpado. “É para se proteger dos ‘coiotes’”, comenta Sun-hee vendo nossos olhos se deterem sobre ela. Aqueles que ajudaram a atravessar a fronteira clandestinamente de fato exigem o que lhes é devido, por vezes de forma violenta.

O diretor do centro, Seung Hun-jung, nos recebe muito gentilmente, tendo a seu lado Sun-hee, cujos saltos fazem barulho sobre o piso. E daí se vai para a apresentação em PowerPoint. Nenhum documento nos será enviado, e tanto o programa como o lugar são top secret. Podemos tomar notas, e nada mais.

Aqui, os imigrantes vindos do Norte são chamados “desertores” – um nome que lembra a Guerra Fria. Antes de se tornarem cidadãos do Sul, eles devem permanecer nesse lugar por três meses sem receber visitas, mesmo que já tenham família no país. Além disso, não têm o direito de sair, exceto em grupo (vigiados). Só são permitidos os telefonemas feitos de cabines. Obviamente, não há celulares.

Entre 2 mil e 3 mil pessoas passam todos os anos por essa etapa obrigatória. Em 2012, havia oficialmente cerca de 25 mil ex-norte-coreanos no país. Antes de sentarem-se nos bancos dessa escola muito especial, eles enfrentam um interrogatório de três semanas conduzido pelos agentes do Serviço de Inteligência Nacional (SIN), apenas para garantir que não há nenhum espião entre eles e que são todos originários da República Popular Democrática da Coreia (RPDC). De fato, alguns sino-coreanos tentam aproveitar a oportunidade para deixar o território chinês, diz Seung. São imediatamente deportados.

Uma vez reconhecidos como verdadeiros “desertores”, os refugiados podem ser acolhidos em Hanawon. Sete em cada dez são mulheres, às vezes acompanhadas de crianças, porque é provavelmente “mais fácil para elas enganar a vigilância. Os homens são frequentemente presos ao escritório ou à fábrica, e seus deslocamentos são mais monitorados”, diz o diretor. Em qualquer caso, as mulheres fazem a travessia auxiliadas por estruturas religiosas clandestinas, ONGs ou “coiotes” devidamente recompensados. Não há maneira de cruzar sozinho a fronteira entre os dois países: a faixa de terra de 4 quilômetros de largura que corta a península em dois, tão erradamente chamada zona desmilitarizada (DMZ), conta com um número exagerado de soldados das Coreias do Norte e do Sul, bem como de militares norte-americanos. A maneira mais fácil é atravessar o Rio Tumen, a fronteira natural entre a Coreia do Norte e a China. Alguns permanecem nas aldeias fronteiriças;1 outros atravessam o país para atingir o Laos ou a Tailândia, antes de conseguirem chegar à Coreia do Sul. Em todos os casos, a viagem se mostra incerta e perigosa.

Por dois anos, o número de refugiados diminuiu quase pela metade, resultado de um maior controle das fronteiras por parte das autoridades chinesas e, em menor grau, de certa melhoria das condições de vida dos habitantes de Pyongyang.

Para os recém-chegados, a primeira etapa é consagrada aos testes psicológicos e a uma “recolocação em forma tanto do ponto de vista físico como psicológico”. Os refugiados muitas vezes passaram pela China, onde “viveram em condições terríveis”, sinaliza Seung. Algumas mulheres foram estupradas, embora poucas falem disso. Quanto aos interrogatórios dos serviços secretos antes da admissão, eles visivelmente não têm nada de prazeroso. Até mesmo o diretor da escola para as crianças, firme em suas opiniões e princípios, os acrescenta à sua lista de traumatismos sofridos por seus jovens alunos. Dentistas, médicos, psiquiatras são mobilizados em modernas instalações. A miséria do exílio é reparada aqui… pelo menos em parte.

Em seguida, passamos para coisas sérias: o aprendizado dos valores da República da Coreia, por 120 horas. É preciso “desformatar” as mentes. No programa: capitalismo, negócios, cidadania…

Tudo começa pelas virtudes da economia de mercado, em cerca de dez horas. “Abordamos ao mesmo tempo as questões de fundo e os aspectos práticos”, sinaliza o diretor. Quando insistimos em conhecer os pontos realmente ensinados, ele resume, um tanto irritado: “Precisamos transmitir a cultura da empresa, fazer perceber o papel da empresa privada, a importância das questões financeiras. Tópicos como esses, entre os quais…”. O investimento, o lucro, os investimentos financeiros, o desemprego, o papel dos chaebols?2 O diretor foge dos nossos pedidos de esclarecimento, assegurando que, de qualquer maneira, “não temos certeza se [os alunos] realmente entendem os cursos teóricos que ministramos a eles”. Quanto ao aprendizado prático, “para aqueles que vêm da China e permaneceram lá por vários meses ou mesmo por anos, a economia privada e a concorrência não são uma descoberta”. E muitos dos que vêm diretamente do outro lado da fronteira viram florescer, em casa, a economia subterrânea: “Eles já sabem que o Estado não fornece tudo e que precisam tomar iniciativas”. Em suma, não são analfabetos da roça. No entanto, as informações parecem não ter mudado desde 1999, quando a primeira escola foi aberta. Os professores levam os residentes ao mercado para que aprendam a fazer compras, a usar um cartão de crédito, a administrar seu orçamento.

É preciso também, insiste o diretor, incutir neles a “maneira de se comportar na empresa”, fornecer-lhes ideias sobre a organização do trabalho e a forma de vender: “Eles não sabem procurar o trabalho que vai ser mais bem remunerado”. Alguns norte-coreanos que passam por ali afirmam que são aconselhados a evitar a participação em manifestações. Mas Seung assegura que “o direito do trabalho é ensinado, assim como o papel dos sindicatos”. Em suma, afirma ele ao final da nossa conversa, “nós lhes ensinamos o capitalismo”. Já tínhamos entendido.

O ensino também aborda a “verdadeira história da Península Coreana”, a qual não tem muito a invejar da “verdadeira história da Península Coreana” vista pelo falecido Kim Il-sung. Os malvados de um lado, os bons do outro. “Mostramos a eles o que é a democracia. Nós lhes dizemos: ‘Agora, vocês estão na Coreia do Sul, devem reconhecer a legitimidade da nação sul-coreana’. Porque eles viveram até hoje com a ideia de que não éramos a verdadeira nação coreana.”

Uma vez assegurada a formatação das mentes, é hora de passar para questões práticas e para a preparação para o emprego: treinamento intensivo no uso de máquinas elétricas e técnicas de soldagem para os homens. Já as mulheres aprendem o trabalho de escritório, costura, culinária… Essa distribuição é colocada como uma evidência. De qualquer forma, como explica Mikyong, faxineira encontrada em um grande hotel em Seul, “nós, os norte-coreanos, só temos os trabalhos que os sul-coreanos recusam”. Os empregos “3 D”, como são chamados aqui: dirty, difficult, dangerous (sujos, difíceis, perigosos).

No entanto, Mikyong se considera privilegiada: “A jornada de trabalho é longa, mas não é perigosa”. Sua prima está empregada em uma fábrica de produtos químicos em condições terríveis, a julgar por sua descrição. Ela não tem uma recordação ruim de Hanawon porque quando chegou, há cinco anos, estava “esgotada, magra e exausta”. Mas, até hoje, “o despertar às 6h30 e a convocação tal como no exército” ainda soam em seus ouvidos. É a primeira lembrança que ela evoca, antes daquela da aprendizagem da língua ou da informática…

Concluída a exposição de seu chefe, Sun-hee faz que visitemos respeitosamente os locais, vazios àquela hora do dia: a sala de informática, as salas de aula e a sala de oração para os protestantes, onde é realizado o culto todos os sábados. Nesse mês de maio, uma árvore de Natal ainda domina, profusamente decorada com recomendações religiosas apenas desenhadas. Metade dos residentes participa do culto, e “muitos descobrem o que é religião”, explica Sun-hee com orgulho. As ONGs cristãs muitas vezes assumem o bastão quando os refugiados deixam Hanawon. As igrejas, poderosas na Coreia do Sul, os acolhem então em seus centros de abrigo, privilegiando a educação religiosa. Do outro lado do corredor, uma sala com um altar budista: “Para que haja igualdade, mas é muito menos frequentada”, comenta nosso guia. No entanto, a escola não serve apenas para purgar os espíritos e preencher as mentes: também fornece uma ajuda concreta. Assim, é possível conseguir ali uma licença para dirigir.

Após três meses desse regime, os refugiados recebem dinheiro para pagar a caução de um apartamento (muito pequeno, levando-se em conta a quantia alocada) e 7 milhões de wons (pouco menos de R$ 15 mil), dos quais 4 são imediatamente pagos e o restante três meses depois. De acordo com Sun-hee, frequentemente acontece de os “coiotes” que os ajudaram a fugir recuperarem o dinheiro quando eles saem. A ajuda não é desprezível.

Lá fora, eles logo vão descobrir o verdadeiro capitalismo – e não o do diretor de Hanawon. Entre os terceirizados dos terceirizados, eles fazem o trabalho sujo. Atuam em canteiros de obras, na indústria química, ou ainda na manutenção na indústria de semicondutores ou automotiva. Como Ang Jong-seung, encontrado na casa de Kim Young-chun. Um trabalha para uma empresa terceirizada contratada pela Kia que fabrica assentos de carro. O outro é funcionário de uma companhia de software cujo nome prefere não revelar. Encontro improvável… se não fosse Hanawon. Nos onze anos em que estão em Seul, eles se veem duas ou três vezes por ano. Ang tem o rosto marcado pelo cansaço, enquanto Kim adotou o uniforme do perfeito funcionário sul-coreano: terno azul-marinho justo, camisa branca, gravata. “Foi Jong-seung que me deu apoio quando chegamos”, conta com um sorriso. “Eu estava decepcionado. A escola nos trata como gente atrasada. O que nos ensinam é a ideologia.” Então, você tem de se virar. “Eles fariam melhor se avaliassem nossas capacidades e nos ajudassem a nos orientar.” Ang não partilha dessa opinião: em Hanawon, ele conseguiu tirar sua carta de motorista. Mesmo não tendo carro (“eu não ganho o suficiente”), ele acha isso bom.

De fato, nenhum deles realmente quer voltar ao passado. Nem para aquele da vida na Coreia do Norte, onde os dois deixaram família. Nem para aquele dos primeiros passos na República da Coreia, que foram dolorosos. Kim, cujo diploma de engenheiro não foi reconhecido, teve de voltar para a escola, trabalhar e trabalhar. Ambos concordam que a vida aqui é muito difícil, mais difícil do que tinham imaginado. A solidariedade que existia acima do paralelo 38 está totalmente ausente. E os “irmãos sul-coreanos” os tratam com desprezo, ou mesmo com desconfiança, especialmente quando ocorrem incidentes com Pyongyang.

Acontece de alguns fazerem o caminho inverso. Como o pescador que foi para o Norte levando o barco de seu patrão e cuja história foi muito comentada. Excepcional, o fenômeno não era menos inimaginável há uma década. A ponto de Seul começar a se preocupar. “A política em relação a desertores deve ficar mais atenta às necessidades dos norte-coreanos”, escreve o Korean Times.3 Essa análise tem o dom de irritar o porta-voz do Ministério da Unificação, Kim Hyung-suk, que nos recebe no próprio dia da publicação do artigo. “Não vão me fazer acreditar que se vive melhor lá!” – “lá” significando em sua mente “o império do Mal”, com o qual sem dúvida é possível dialogar, mas sob certas condições. Se ninguém, é claro, acha que a vida é mais doce no Norte, muitos asseguram que ela é, sem dúvida, extremamente difícil no Sul para os refugiados.

Ang e Kim não lamentam sua partida. Mas ambos dizem que estão desapontados com a sua instalação aqui: “Seremos sempre desertores”.

Martine Bulard é redatora-chefe adjunta de Le Monde Diplomatique (França).



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