“Rejeito”, um filme sobre o que não é noticiado
Diretor do filme Rejeito escreve sobre a obra que retrata as consequências da mineração e analisa as contradições da transição energética: “o mesmo setor que, em apenas dez anos, empilhou alguns dos piores desastres socioambientais da história mundial, como Mariana e Brumadinho, tenta se reposicionar como aquele que vai salvar o planeta”
Em poucos dias, a COP30, a maior conferência sobre mudança climática acontecerá na maior floresta do planeta. Quando contei para minha filha de 5 anos que ia viajar em breve, expliquei que “pessoas vão se reunir na floresta para falar sobre os problemas da floresta”. Ela perguntou “Qual é o problema da floresta?”.
O motivo de minha ida é a exibição de Rejeito, filme que dirigi e que aborda os maiores desastres socioambientais da história do Brasil envolvendo rompimentos de barragens de mineração das empresas Vale, BHP Billiton e Samarco nas cidades de Mariana e Brumadinho, no estado de Minas Gerais. Embora sejam desastres de dimensões gigantescas, ocupam uma pequena parte do filme. A fatia maior se ocupa do que não é noticiado, do rejeito.
re.jei.to
1ª pessoa do singular do presente do indicativo do verbo rejeitar. Ação ou efeito de rejeitar, de não aceitar, de recusar.
ou
Substantivo: Resto.
Aquilo que sobra de qualquer substância submetida a um procedimento e não pode ser utilizado novamente. Rejeito de mineração.

A primeira cena do filme mostra o limite do impacto do rejeito, isolado por fitas amarelas da Defesa Civil. Além daquela fita, seguindo as pegadas dos cinegrafistas, estavam as imagens que circulavam na mídia, todos os corpos, lama e destroços.
Daqui o filme não passa
é o que a cena inaugural alerta
foi o que escrevi no roteiro
o que senti

Nasci em Minas Gerais, um estado proveniente da atividade minerária no século XVIII com a chegada dos bandeirantes durante o ciclo do ouro, um estado abandonado. A etimologia da palavra “abandono” remete à abdicação de qualquer poder ou jurisdição. A ocupação do homem branco em Minas Gerais se deu em função do extrativismo e assim continua. Historicamente, o mineiro foi impelido a abdicar de qualquer forma de empoderamento. A mineração fundou o estado e nomeou o seu povo mineiro, para que nunca esquecessem o seu propósito neste território e nunca ousarem outra forma de ocupá-lo. Sem utopias ou novos horizontes, o mineiro se tornou o rejeito do próprio ofício.
A grande mídia tratou os rompimentos como desastres isolados, independentes da política pós-colonial. A incerteza da estabilidade das outras 354 barragens de rejeito no estado fez muitas comunidades quebrarem o silêncio impingido pelo discurso da resiliência e questionarem o status quo. Pela primeira vez vi o mineiro questionar a mineração e se questionar. O filme responde a esse questionamento pesquisando os bastidores dos rompimentos e além, em busca do que está sendo rejeitado, das complexidades sociopolíticas que culminam em um estado abandonado.
Quando falo em abandono, me refiro a um lugar onde falta cuidado, concebido para ser abandonado. O princípio básico do extrativismo é retirar algo, seu resultado é o esvaziamento. “Vazio” é uma descrição comum encontrada nos primeiros registros de bandeirantes ao se depararem com a floresta amazônica que, recorrentemente, a descreviam como um nada caótico, desordenado. Afinal, qual é o problema da floresta? João Moreira Salles defende que esse simbolismo hereditário – ou a falta de um – culminou em um Brasil que dá as costas aos seus biomas, permitindo que sejam destruídos e substituídos por monoculturas e minas.
A COP 30 tem a sua sede financiada e gerida pela mineradora Vale, que também bancou um show local de Mariah Carey como parte dos preparativos. O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa a força maciça e o lobby das grandes multinacionais do setor, se reposiciona sob o viés da “mineração sustentável”, oferecendo cursos preparatórios para jornalistas que pretendem cobrir a conferência. O mesmo setor que, em apenas dez anos, empilhou alguns dos piores desastres socioambientais da história mundial, como Mariana e Brumadinho, tenta se reposicionar como aquele que vai salvar o planeta.

O discurso focado na descarbonização simplifica e mascara os reais desafios da transição, especialmente ao ignorar os direitos das comunidades afetadas pela expansão da fronteira mineral. A indústria alega que os minerais críticos são essenciais para um futuro de zero emissões. Contudo, como nos alertam organizações globais, o modelo atual de extração, processamento e comércio ameaça minar os próprios objetivos do Acordo de Paris, repetindo padrões exploratórios do passado e aprisionando países em desenvolvimento em modelos que impedem sua prosperidade.
O filme Rejeito estará na COP do Povo, que acontecerá paralelamente ao evento sediado pela Vale. Ali espero despertar para os bastidores além fitas de isolamento, para a mecânica desta máquina pós-colonial. Se a COP 30 é o momento em que o lobby da mineração tenta se lavar com a tinta verde dos minerais de transição e do financiamento climático, Rejeito serve como um espelho. A transição energética não pode ser construída cavando buracos mais profundos de desigualdade. A transição, afinal, virá – para o quê?

Pedro de Filippis é cineasta de Belo Horizonte, Minas Gerais. O seu longa de estreia, Rejeito, dá continuidade à sua pesquisa sobre pós-colonialismo e foi exibido em festivais como IDFA, HotDocs, Cinema du Reel e Festival do Rio. Em 2016, Filippis foi selecionado para o mestrado Doc Nomads, pelo qual dirigiu filmes em Portugal, Hungria e Bélgica. Pedro é alumni dos programas Logan NonFiction e Points North Fellowship. Em 2021 foi nomeado ao prêmio Global Emerging Filmmaker da Netflix e IDA.

