Dinâmicas de escalada no Leste Europeu contemporâneo
Entre contenção e confronto: os limites da estabilidade internacional
O conflito entre Rússia e Ucrânia consolidou-se como um dos principais pontos de instabilidade do sistema internacional contemporâneo, refletindo a sobreposição de diferentes percepções de segurança e projetos de poder. Mais do que uma disputa regional, trata-se da expressão do entrelaçamento entre rivalidades históricas, tensões militares e interesses estratégicos em um sistema internacional em transição. Nesse ambiente, a possibilidade de escalada não deriva apenas das intenções declaradas dos atores, mas emerge da própria lógica estrutural que perpetua a insegurança, gerando um cenário intrinsecamente volátil.
Nesse contexto, duas variáveis estratégicas ilustram e intensificam a lógica de ação e reação própria de ambientes de alta rivalidade. De um lado, a recém-lançada Operação Sentinela Oriental (Eastern Sentry) da OTAN, criada para reforçar a defesa de seu flanco leste. De outro, os exercícios militares russos de larga escala, em especial o Zapad, que mobilizam centenas de milhares de soldados e sinalizam disposição ofensiva.
A literatura em Relações Internacionais enfatiza que a disputa entre Rússia e Ucrânia não pode ser compreendida apenas em termos bilaterais, mas deve ser situada em um contexto geopolítico mais amplo1 2. A Rússia busca reafirmar sua esfera de influência sobre territórios historicamente vinculados à sua projeção estratégica, ao passo que a Ucrânia tem se aproximado de instituições ocidentais, como a União Europeia e a OTAN.
A Operação Sentinela Oriental, lançada em setembro de 2025, após a suposta violação do espaço aéreo da Polônia por drones russos, representa uma manifestação prática do dilema de segurança descrito por Jervis (1978)3. Embora declaradamente defensiva e voltada ao reforço de vigilância, defesa aérea e presença avançada no flanco leste, a operação é passível de ser interpretada por Moscou como um movimento ofensivo, estimulando novos ciclos de militarização. A assimetria de percepções revela como medidas de autoproteção podem, paradoxalmente, aumentar a insegurança do sistema.
O exercício militar Zapad (Oeste), conduzido ciclicamente pela Rússia em cooperação com Belarus, materializa a lógica da dissuasão pela demonstração de força. Ao mobilizar forças em grande escala e simular cenários ofensivos, o Zapad opera como mecanismo simbólico e estratégico: reforça a prontidão das tropas e sinaliza capacidade de projeção de poder contra rivais. A natureza ambígua desses exercícios, simultaneamente treinamento militar e comunicação estratégica, dissolve a fronteira entre preparação defensiva e ofensiva, intensificando a incerteza que permeia as relações de segurança.

A interação entre a Operação Sentinela Oriental e o Zapad ilustra a dinâmica da espiral de segurança em contextos de rivalidade intensa. Medidas de dissuasão e demonstrações de força tendem a se retroalimentar, reduzindo margens de confiança e aumentando o risco de erro de cálculo estratégico4. Assim, mais do que escolhas individuais de atores, a instabilidade decorre de uma lógica estrutural: cada tentativa de aumentar a segurança própria é percebida pelo outro como ameaça, gerando um ambiente de permanente instabilidade e risco de escalada.
A dimensão nuclear acrescenta uma camada crítica ao dilema de segurança. A Doutrina Militar da Federação Russa5 prevê o uso tático de armas nucleares em situações de ameaça existencial, o que, ainda que improvável no curto prazo, mantém aberta a possibilidade de uma escalada de consequências potencialmente catastróficas. Essa perspectiva reforça que a guerra transcende a dimensão regional, ao comprometer a segurança energética europeia e a coesão política da OTAN, ao mesmo tempo em que abre espaço para a projeção estratégica da China em uma ordem multipolar em formação. Assim, o enfrentamento entre Rússia e Ucrânia deve ser compreendido não apenas como disputa territorial, mas como um ponto de inflexão no equilíbrio global de poder, em que dinâmicas locais interagem com tendências sistêmicas de segurança internacional.
Mesmo com o avanço das tropas russas, o conflito permanece em aberto e sujeito a múltiplas variáveis. A Operação Sentinela Oriental e o exercício Zapad demonstram como a interação entre medidas defensivas e demonstrações ofensivas pode aumentar a instabilidade regional. O risco de escalada não reside apenas em intenções declaradas, mas sobretudo na estrutura do dilema de segurança que domina as relações entre Moscou, Kiev e o Ocidente.
Evitar a deterioração irreversível do conflito exige não apenas o restabelecimento de canais diplomáticos de comunicação, mas também a construção de mecanismos robustos de gestão de crises. Tais iniciativas visam reduzir substancialmente as chances de erro de cálculo estratégico, que poderiam precipitar uma escalada descontrolada do conflito, com consequências potencialmente catastróficas não apenas para a região, mas para a estabilidade global.
Juan Magalhães é doutor em História.
Cássia Muniz é analista de política internacional.
Referências
GILES, Keir. Moscow Rules: What Drives Russia to Confront the West. London: Chatham House, 2021.

