“Severino, me ajuda aqui!” - Le Monde Diplomatique

CASA-GRANDE & SENZALA

“Severino, me ajuda aqui!”

por Pollyanna Brêtas
3 de maio de 2015
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A imagem retoma Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala. À sombra de flamboyants, os meninos, todos negros ou mulatos, puxam cavalos para deleite do “senhozinho”. A sociedade patriarcal brasileira está ali sintetizada sem que ninguém se dê conta. As crianças dos dois lados são exploradas.Pollyanna Brêtas


Os pés estão descalços, amarelados do chão de terra. A poeira guarda as fissuras, fendas que se abrem na pele desidratada de tanto caminhar sem proteção. O menino franzino, que já havia dado quatro voltas ao redor da Praça Xavier de Brito, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, puxando cavalos, se apressou em se apresentar quando ouviu a exclamação: “Severino, me ajuda aqui!”.

Pouco depois das 9h da manhã de mais um domingo de calor intenso, o rossio bucólico no meio da metrópole está cheio de crianças correndo, muitas querendo passear de corcel. Severino, 15 anos, começou cedo o dia de trabalho. Seu serviço é guiar os animais em voltas pela praça, garantindo a segurança das crianças cujos pais pagam R$ 5 pelo passeio. Severino é um dos poucos fixos entre os meninos que se dispõem a trabalhar: a maioria vem e vai sem muitas explicações. Estão em busca de uns mil-réis que aplaquem um pouco a falta de dignidade e miséria a que são submetidos.

A imagem retoma Gilberto Freyre em Casa-Grande & Senzala. À sombra de flamboyants, os meninos, todos negros ou mulatos, puxam cavalos para deleite do “senhozinho”. A sociedade patriarcal brasileira está ali sintetizada sem que ninguém se dê conta. As crianças dos dois lados são exploradas. As do chão doam seu trabalho braçal. As da montaria estão ali para reproduzir a marca registrada da pobreza, caso ainda persista alguma dúvida quanto ao lugar na pirâmide ocupada por cada um.

Severino se aproxima do dono dos animais. Hoje são seis cavalos. Está sem camisa e com uma bermuda verde-clara. Posiciona-se ao lado do patrão, com quem trabalha desde os 11 anos. Não diz nada. É de poucas palavras. “Ajuda aqui, Severino. Pega desse lado.” Ele segura uma lona azul desbotada e uma manta vermelha. Elas são colocadas no tronco de uma amendoeira. Não há estrebaria nem estábulo. O corcel fica amarrado a uma árvore, mas é preciso proteger o caule das mordidas vorazes dos animais famintos. A jornada de nove horas de trabalho ininterrupto não contempla hora de almoço, se bem que quando o sol está a pino poucos pais zelosos incorrem no risco de submeter seus pequenos ao passeio. Há uma pausa, um pequeno descanso, mas falta comida.

“Segura firme aí a corda.” A amarração acaba. E o patrão grita: “Cadê a água, Severino?”. O menino novamente não responde. Desaparece por poucos minutos. Intervalo suficiente para aparecerem duas crianças querendo montaria. “Cavalinho, baguncinha? Quer dar uma voltinha?” A menina hesita, mas o pai incentiva. “No grande ou no pequeno, bagunça?” Ela aponta para o grande. “Esse é o Patatá” – referência ao integrante de uma dupla de palhaços famosa nos programas infantis nacionais. Antes que ela desista ou volte atrás, duas mãos a envolvem pela cintura e “Opa! Segura!”. “Ai, mas eu tenho medo.” “Não, filha. Pode ficar. Não vai cair.” Severino reaparece carregando um balde em cada mão. O corcel bebe um gole de água antes de ganhar um puxão no arreio.

Nas mãos, uma corda. Na ponta do laço puxam o cavalo. Os animais são em geral maiores que eles, explorados como os companheiros que caminham ao seu lado. Carregam o peso da distância que separa ricos e pobres em poucos centímetros – sentada e personificada nas selas sobre seu corpo. O trote é vagaroso, mas dão pinote quando brancos mais agressivos pressionam o arreio com os pés.

Não se sabe exatamente como essa prática começou na Praça Xavier de Brito, a Pracinha dos Cavalinhos, como é popularmente conhecida. Há setenta anos recebe gerações e gerações de crianças de vários bairros da cidade. O dono da voz que grita “Severino”, Sandro, 35 anos, reivindica para o avô o início das atividades. No começo, não havia passeio. Os animais posavam para o lambe-lambe eternizar tardes amenas e familiares naquele cantinho cujo refino paisagístico convida ao registro. “Com o sucesso das fotografias e atendendo a pedidos para que as crianças subissem e andassem um pouco a cavalo, as voltas começaram”, diz Sandro. O pai dele, ainda criança, ajudava nas voltinhas, e a prática se perpetua. É a terceira geração da família com cavalos, mas pretende que seja a última. “Seus filhos também trabalham com você, Sandro?”, pergunto. Ele levanta rápido a cabeça e dispara com firmeza: “Não, meu filho não”.

“Severino, me ajuda aqui.” O menino apresentou sua figura miúda mais uma vez e quantas mais fossem necessárias. Enquanto ele se alista, outra criança se prepara para uma volta. Uma menina de pouco mais 3 anos está em cima do cavalo. O corcel não é dos grandes, quase um pônei. Ela está com blusa rosa de alcinha, short colorido, alça do chinelo e presilha de cabelo da cor da blusa. O pai carrega uma bicicleta de rodinha completamente rosa. Ajeita a alça da camisa da menina, põe a mão nas costas da pequena. No guidom, a mochila das princesas compõe o cenário de conto de fadas. Ela sorri.

Na frente, Severino puxa o corcel. A corda está enrolada nas mãos. O suor escorre na lateral do rosto. Ele olha para trás, vê a máquina fotográfica e esboça um sopro de gracejo. Não está ressentido, mas a rotina é dura e o dia é longo. Se parar, não tem volta nem trocados. Deve ser simpático. Assim, quem sabe, uma mão generosa lhe dá uma gorjeta. Um ou 2 reais sempre ajudam.

Severino estuda no sétimo ano de uma escola estadual na frente da praça onde trabalha há quatro anos. Mora no Morro do Encontro, que integra a colcha de retalhos de vielas, barracos e esgoto a céu aberto do Complexo do Lins. Severino percorre a pé os 8 quilômetros de distância até a praça, puxando os cavalos em uma hora e meia de caminhada. Ele anda curvado e olha para baixo. A sobrancelha só se levanta quando uma bola passa no seu caminho. Seu ímpeto é chutá-la ao dono, mas ele se contém, contrai os músculos e desiste. Não tem direito à infância.

O sol está forte, e, quando a sombra das árvores cessa, os olhos ficam miúdos com a claridade. Pergunto a Severino se posso acompanhá-lo. “Não me chamo Severino”, diz enfadado. “Mas eu ouvi quando te chamaram de Severino”, respondo. “Ele [o patrão] chama todos de Severino.” “Então, qual é o seu nome?”, pergunto surpresa. Em voz baixa, diz: “Marcelo. Meu nome é Marcelo”.

 

Pollyanna Brêtas é jornalista e mestrando do curso de Mídias e Mediações, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.



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