Sindicalismo VS Socialismo - Le Monde Diplomatique

OS RUMOS DA ESQUERDA

Sindicalismo VS Socialismo

por equipe Le Monde Diplomatique Brasil
1 de novembro de 2011
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Em maio de 1914, uma comissão parlamentar de inquérito realizada no Congresso norte-americano promoveu um debate entre Samuel Gompers, presidente da Federação Americana do Trabalho (AFL), e Morris Hillquit, fundador e pensador do Partido Socialista. O objetivo: esclarecer as divergências entre sindicalismo e socialismoequipe Le Monde Diplomatique Brasil

Em 1912, o presidente republicano William Howard Taft estava preocupado com o número crescente de disputas trabalhistas nos Estados Unidos. Ele pediu então ao Congresso que se debruçasse sobre as relações industriais. O democrata Woodrow Wilson, seu sucessor, iria indicar os nove membros da comissão parlamentar de inquérito prevista para esse fim.

Em maio de 1914, essa comissão convocou Samuel Gompers, presidente da Federação Americana do Trabalho (AFL, na sigla em inglês), e Morris Hillquit, fundador e pensador do Partido Socialista, a fim de esclarecer as divergências entre sindicalismo e socialismo. Essas diferenças se relacionavam com a razão de ser dos embates sociais e do objetivo final da luta sindical: a defesa a cada dia dos interesses imediatos dos trabalhadores ou a preparação destes para a luta política a longo prazo.

 

HILLQUIT – É seu ponto de vista, senhor Gompers, ou o da Federação, de que os trabalhadores norte-americanos recebem hoje todos os frutos de seu trabalho?

GOMPERS – Eu diria que é impossível para qualquer um calcular com precisão a parcela que os trabalhadores recebem de sua produção. Mas é fato que, por meio do movimento sindical, essa parcela é mais importante hoje do que jamais foi em toda a história moderna.

 

HILLQUIT – Portanto, a função de um sindicato consiste em ampliar a parcela da produção que deve ser devolvida aos trabalhadores, certo?

GOMPERS – Sim, senhor. Os sindicatos esperam que a empresa gratifique os trabalhadores pelos serviços que eles prestam, sem os quais não haveria vida civilizada.

 

HILLQUIT – Se, durante o próximo ano, os trabalhadores receberem, digamos, 5% a mais, os sindicatos se sentiriam satisfeitos e poriam fim às suas reivindicações?

GOMPERS – Se eu me refiro ao que conheço da natureza humana, a resposta é não.

 

HILLQUIT – Devemos esperar que o movimento operário ponha fim às suas reivindicações antes de os trabalhadores receberem a parcela integral do que produzem, ou seja, até que, na visão deles, se assegure uma verdadeira justiça social?

GOMPERS – A essa questão na qual o senhor tão educadamente insiste, sobre o compartilhamento dos frutos do trabalho, responderei afirmando que os trabalhadores – prefiro falar de trabalhadores, porque são seres humanos –, bem, os trabalhadores, como todo mundo, são movidos pelos mesmos desejos e pelas mesmas esperanças; eles não querem ficar esperando até que estejam mortos e enterrados para ter uma vida melhor; eles querem aqui e agora, e querem melhores condições para seus filhos, de modo que estes possam um dia cuidar dos próprios problemas.

Os trabalhadores fazem as coisas acontecer, ainda e sempre; eles têm suas reivindicações e as defendem com todo o poder de que dispõem, um poder que exercem de maneira normal e racional para assegurar uma parte mais significativa e sempre crescente das riquezas. Lutam pelos mais altos ideais de justiça social.

 

HILLQUIT – Em termos de redistribuição da riqueza, os mais altos ideais de justiça social não consistiriam em erigir um sistema em que os trabalhadores, sejam eles braçais ou intelectuais, líderes ou funcionários, recebessem a parte integral do que produzem?

GOMPERS – O senhor sabe, o peixe se deixa prender ao morder a isca, e o rato ou o camundongo, ao querer pegar o pedaço de queijo. O trabalhador inteligente e sensato prefere se ocupar dos problemas de hoje, aqueles que ele precisa enfrentar se quiser avançar, a perseguir um sonho que nunca teve e que, estou certo, não terá jamais a menor realidade na condução dos assuntos humanos. Um sonho que, se ganhasse vida, ameaçaria tornar-se o pior sistema de produção já inventado pelo gênio humano.

 

HILLQUIT – A Federação Americana do Trabalho é orientada por uma filosofia social de conjunto?

GOMPERS – Ela é guiada pela história do passado; ela tira daí lições para identificar os problemas com que os trabalhadores são confrontados, para trabalhar da maneira menos penosa possível, para obter os melhores resultados em termos de melhoria das condições de trabalho, homens, mulheres e crianças, hoje, amanhã, e depois de amanhã, e depois de depois de amanhã, de modo que cada dia seja um dia melhor do que a véspera. Este é o princípio, a filosofia e o propósito que guiam o movimento operário: garantir uma vida melhor para todos.

 

HILLQUIT – Mas nesses esforços para melhorar as coisas a cada dia, o senhor precisa se apoiar numa ideia clara do que é bom, certo?

GOMPERS – Não. Se você definir um programa, tudo deve se curvar a ele. E se os fatos não se encaixam em suas teorias, você diz a si mesmo: “Não importam os fatos”.

 

HILLQUIT – O senhor diz que está tentando melhorar a sorte dos trabalhadores a cada dia. No entanto, para determinar se a sorte deles muda para melhor ou para pior, o senhor deve ter alguns critérios que permitem distinguir o que é bom e o que é ruim para o movimento operário, não?

GOMPERS [eles tomam a palavra um ao outro] – Espere um minuto. Será que é preciso um discernimento extraordinário para perceber que um salário de US$ 3 por jornada trabalhada de oito horas é melhor do que um salário de US$ 2,50 para uma jornada de doze horas? Não há necessidade de uma filosofia social muito elaborada para entender isso.

 

HILLQUIT – Nesse caso, senhor Gompers, e para continuar em seu raciocínio, será que US$ 4 para uma jornada de sete horas executada em condições agradáveis lhe seriam ainda mais adequados?

GOMPERS – Sem dúvida.

 

HILLQUIT – De acordo. E depois que elas tiverem sido obtidas…

GOMPERS – Ora, nós exigimos mais.

 

HILLQUIT – Você vai continuar, portanto, a lutar por mais progresso?

GOMPERS – Sim.

 

HILLQUIT – Então eu lhe pergunto novamente: a luta do movimento sindical vai continuar até que os trabalhadores obtenham o pleno reconhecimento do trabalho deles?

GOMPERS – Ela não vai parar nunca.

 

HILLQUIT – É uma pergunta…

GOMPERS [interrompendo-o] – Não, mesmo que este ou aquele objetivo seja alcançado, seja ele o que o senhor acabou de mencionar ou outro. Os trabalhadores não vão parar nunca de lutar por uma vida melhor para eles mesmos, sua esposa, filhos e toda a humanidade.

 

HILLQUIT – O objetivo do sindicato consiste, portanto, em obter uma justiça social completa para eles mesmos, sua esposa e seus filhos?

GOMPERS – É uma luta para que a vida seja melhor a cada dia.

 

HILLQUIT – Cada dia e sempre…

GOMPERS – Cada dia. Isso não implica nenhum limite. Em outras palavras, estamos indo mais longe do que o senhor [risos e aplausos na sala]. O senhor define um horizonte para si mesmo, nós não.

 

HILLQUIT – O senhor afirma, portanto, oficialmente, que a AFL, por seus objetivos e ações, vai mais longe que o Partido Socialista quando este exige a abolição do atual sistema de lucros e de salários, e procura obter para os trabalhadores a plena retribuição do produto do trabalho deles.

GOMPERS – O senhor está tentando me fazer afirmar que sou favorável à organização social concebida por alguns de seus sonhadores, e mesmo que eu gostaria de ir além. Eu digo que o movimento de trabalhadores seguirá a inclinação que leva os humanos a exigir melhores condições de vida, e que estes irão para onde isso os conduz sem ter em mente o objetivo do senhor ou outro que fosse além.

 

A Primeira Guerra Mundial causaria o colapso do movimento operário no país. A AFL apoiaria a participação dos Estados Unidos. Posteriormente, a AFL, longe de questionar o capitalismo norte-americano, como recomendava Hillquit, procuraria conseguir que seus membros desfrutassem o quanto antes de seu dinamismo.

equipe Le Monde Diplomatique Brasil

Redação do Jornal Le Monde DIplomatique Brasil



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