Slogans da intifada síria - Le Monde Diplomatique

MUNDO ÁRABE

Slogans da intifada síria

por M. Zênobie
1 de junho de 2011
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Assim como a resistência nacionalista árabe na Síria do século XX, a atual sublevação popular é marcada pelo lugar que a mesquita ocupa nas mobilizações, pelo papel motor da juventude e de setores sociais economicamente em crise ou distantes da capital, e pela participação das mulheresM. Zênobie

“Ma fi khawf baad al-yawm! (“Nada de medo a partir de hoje!”), ressaltaram os habitantes de Deraa, no dia 18 de março. Quando a repressão se intensificou, os manifestantes se opuseram à cultura do medo; em diversas cidades, eles se diziam dispostos a morrer: “Assenhora-te, oh, Banias,1 a liberdade vale muito bem [a vida] das pessoas”; “No Paraíso, os mártires valem milhões”; “Não há outro deus a não ser Deus, e o mártir é o bem-amado de Deus”. O tema do martírio ressurge em todas as regiões e é expresso em uma palavra de ordem muito usual no Oriente Médio: “Com nossa alma, com nosso sangue, nós nos sacrificaremos por ti, oh, mártir!” (“Bi-rouh bi-damm, nafdîk ya chahîd”). Essa forma de falar pode servir também para manifestar solidariedade a uma cidade em que morreram inúmeros habitantes: por exemplo, “Com nossa alma, com nosso sangue, nós nos sacrificaremos por ti, oh, Deraa!”.

Desde o dia 15 de março, a reivindicação de liberdade é expressa em todas as manifestações, alterando um slogan do governo: “Deus, a Síria, Bashar e pronto!” torna-se “Deus, a Síria, a liberdade e pronto!”. Num país que conhece o estado de emergência desde 1963, a liberdade está associada à democracia política: “Nós reivindicamos a liberdade e eleições democráticas”. Ela transcende as divisões confessionais: “Liberdade, liberdade, muçulmanos e cristãos!”; “Somos os defensores da liberdade e da paz”.

O último grande repertório é o da dignidadeda pessoa e do cidadão. Um ronco de cólera se espalha: “Ninguém pode insultar o povo sírio” (“Al-chaab al-suri ma byandhal”). O martírio lava a humilhação e restitui ao ser humano as virtudes de homem e de crente, virtudes historicamente postas no panteão dos heróis nacionalistas e dos santos: “Antes a morte que o aviltamento” (“Al-mawt wa lâ-l-madhalleh”). No começo da intifada era comum, durante as reuniõesem família ou entre amigos, à noite, ouvir os integrantes da oposição saudar qualquer pessoa que vinha de Deraa ou de sua região com estas palavras: “Você ergueu nossa cabeça”, ou seja: “Você nos restituiu a dignidade” (“Rafa’tu-l-na ra’sna”). A população insurgente se une também para reagir às acusações de divisão, violência e complô. Ela proclama seu desejo de pacifismo, de unidade, e seu repúdio ao confessionalismo: “Um, um, o povo sírio é uno!”; “Pacificamente, pacificamente, muçulmanos e cristãos, pacificamente, pacificamente, não, não ao confessionalismo!”; “Não à violência, não ao vandalismo!”. Nas áreasem que foram perpetradas provocações comunitárias, os slogans e faixas contestam: “Sunitas, curdos e alauitas, queremos a unidade nacional” (“Sunni wa kurdi wa ‘alawiyya, badna wahdah wataniyyah”). O medo fomentado pelo poder no meio das minorias (cristã, alauita etc.) baseia-se na alegação de que essa revolta seria manipulada pelos islâmicos. Nesse caso, também os manifestantes respondem: “Nem salafistas, nem da Irmandade [Muçulmana], vivam os homens corajosos!”; “Árabes e curdos contra o salafismo”; “Nossa revolta é a revolta da juventude, nada de salafismo nem de terrorismo”; “Nem América do Norte nem Irã, deixem-nos viver em paz”. Ouvem-se também respostas diretas, digamos assim: “Não somos nem da Irmandade [Muçulmana] nem agentes estrangeiros, somos todos sírios, muçulmanos e alauitas, drusos e cristãos” (“Nahna ma ‘anna ikhwân wa lâ aydî kharijiyya, nahna kullna suriyya, islam wa ‘alawiyya, durziyya wa masihiyya”). Nos primeiros dias da revolta, os manifestantes se limitaram a demandar reformas e o fim do estado de emergência. O presidente Bashar al-Assad ainda desfrutava de certa simpatia.2 Com base nas lições da guerra civil que devastou durante quinze anos o vizinho Líbano e, mais recentemente, o Iraque, os sírios temiam um confronto longo e sangrento envolvendo o risco de conflitos confessionais. Mas o governo derramou sangue em Deraa, e Al-Assad, em seu primeiro discurso – muito esperado – à nação, no dia 30 de março, tratou os manifestantes com desprezo. Desde então, o slogan das revoluções tunisiana e egípcia – “O povo quer a queda do governo” (“Al-chaab yourid isqat al-nizam”) – começou a ecoar nas ruas. Diante do terror espalhado pelos pistoleiros do poder e de um número crescente de mortos, o tom subiu: “Não gostamos de você, não gostamos de você, saia, você e seu partido”. Em abril, outro slogan ganhou unanimidade: “Traidor é aquele que fere seu povo”. “Zenga, zenga, dar, dar, badna nchîlak ya Bachâr” (“De beco em beco, de casa em casa, Bashar, vamos nos livrar de você”). Depois do ataque, pelas forças de segurança, à mesquita Al-Omari, na noite de 16 para 17 de março, a morte de uma mãe e sua filhinha, assim como a retirada de feridos refugiados no templo religioso, foi de Deraa que vieram os primeiros slogans contra o presidente, antes mesmo de ele se pronunciar. As palavras que iniciam o slogan (“Zenga, zenga, dar, dar”) remetem ironicamente a um trecho de um discurso do presidente da Líbia, Mouamar Kadafi, que se disseminou rapidamente em todo o mundo árabe depois de ter sido reprisado na abertura de um programa da rede Al-Jazeera. O segundo discurso de Al-Assad, no dia 16 de abril, chegou demasiadamente tarde para permitir uma reviravolta da escalada, principalmente devido a seu silêncio sobre o artigo 8º da Constituição, que afirma que o Baas é o partido dirigente, e sobre a libertação dos prisioneiros políticos. Além disso, o fim do estado de emergência não mudou nada da arbitrariedade das milhares de prisões, nem do envio do exército e dos blindados contra os manifestantes: “A opressão tornou-se um hábito deles, a ponto de a considerarem um rito”, “Não só nos roubaram a dignidade, como também nos fizeram pagar o preço de sua corrupção”.

Os sírios declaram com veemência uma dupla ligação, com a “grande pátria” – “Viva a Síria, abaixo Bashar al-Assad” e com sua ancoragem local (a “pequena pátria”). Cada cidade interpela seus habitantes; como a tradição dos grandes combates beduínos, ela também apela muitas vezes para a sua virilidade (al-roujoula), valor central – junto com a virtude – para todo combatente árabe: “Onde está você, Deiri [habitante de Deir-ez-Zor]? Onde está você? Levante-se e passe o khol nos olhos” – pois os guerreiros das tribos se maquiavam com khol antes de partir para o combate. “Oh, Barzeh,3 somos teus homens. Deus reconhece teus traidores”; “Eis aqui teus homens, oh, Daraya! [cidade ao sudoeste de Damasco]”. O manifestante que desafia a morte sacrifica-se por sua pátria e honra sua cidade ou seu vilarejo. E vai apreciar, em seguida, seu lugar na história do país entre os seus “corajosos”. Essa revolta não é apenas política, ela é testemunho também de uma situação econômica e social degradada; grande parte dos manifestantes vem de setores sociais desfavorecidos.

Por meio do repúdio à corrupção, manifestam-se contra redes clientelistas do regime, demandam uma distribuição mais justa das riquezas e empregos. Estes são condicionados aos membros do Partido ou a certas comunidades confessionais, principalmente dos alauitas e, em menor medida, dos cristãos. Um não-dito oficial, bem conhecido daqueles que não pertencem a nenhuma das categorias privilegiadas: “Eles comeram o ovo e sua casca e nos deixaram na miséria” (“Akalu al-bayda wa-l-ta’shira wa khalluna ‘ala al-hasira”). Rami Makhlouf, primo de Bashar al-Assad, controla direta ou indiretamente todos os setores lucrativos da economia (o ramo sírio do banco libanês Byblos, sociedades fundiárias e da construção civil, duas companhias de aviação, hotéis, as Duty Free nas fronteiras, a Syriatel – telefones celulares – assim como grande parte da MTN, que é mais uma empresa de telefonia móvel, e outras dezenas de empresas). Por isso, os manifestantes de Deraa e de Latakia incendiaram o escritório da Syriatel de sua cidade. A espontaneidade dessa intifada não deve dissimular as disparidades entre a cidade e o campo, nem entre Damasco, Alepo e o resto do país. A reticência das grandes cidades em se rebelar não é nova. Alepo era depositária de estoques de armas otomanas na época da Revolta do Norte (1919-1921) contra a ocupação francesa e, no entanto, não se mexeu naquela ocasião, da mesma maneira que Damasco não se sublevou durante a Grande Revolta síria de 1925-1926 contra o mandato francês. Então, que a iniciativa da sublevação tenha vindo de Deraa, na periferia rural e meridional do país, não é de espantar. Os manifestantes esperavam que os primeiros tumultos em Damasco, nos dias 15 e 16 de março, fossem se traduzir em uma grande mobilização na capital, no centro do poder. Foram os subúrbios (como em 1925) e os bairros desfavorecidos da periferia da capital que salvaram a honra, enquanto Alepo, após longa hesitação, deve a algumas centenas de estudantes o fato de ocupar um lugar na geografia do levante. O que lhe valeu, em 29 de abril, um comentário irônico de sua vizinha, Hama: “Bom despertar, Alepo!” (“Sah al-nawm yâ Halab!”). Todos esses slogans e palavras de ordem marcam uma ruptura importante com a ideologia dos partidos políticos do Oriente Médio no século XX: nada lembra nem o nacionalismo árabe nem o islamismo. Mas o temor deste último e, mais precisamente, do salafismo, foi reforçado pelo rumor de que a libertação de prisioneiros políticos, decidida por Bashar al-Assad em 30 de março de 2011, estaria relacionada com a do líder dos militantes, ou considerados como tal, da Irmandade Muçulmana (junto dos presos comuns). Se esse medo é instrumentalizado pelo regime, é preciso observar a prudência dos representantes ou dos chefes de instituições cristãs que nem sequer condenaram o massacre de civis. A intifada síria funciona como ruptura com o passado político do país, ao mesmo tempo que reproduz representações já ativas nas mobilizações do século XX: lugar da mesquita no espaço urbano; mesquita-refúgio (onde os feridos e os perseguidos poderiam se refugiar); cultura islâmica nos slogans (“Allahu Akbar”); figura do militante sintetizando as antigas figuras do herói e do mártir com base em dois valores de referência: a virilidade e a virtude, valores identitários que se enraízam em um território… Ao mesmo tempo, ela é fruto de uma conjuntura regional e de evoluções internas. Ela é profundamente popular e patriótica; um patriotismo que, paradoxalmente, foi injetado e cultivado pela escola pública do Baas, mais ou menos da mesma maneira que efetuou a Terceira República Francesa. O futuro da sublevação, sem qualquer apoio externo, regional ou internacional, depende de sua capacidade de mobilização e de parâmetros incertos: divisões internas do Exército, adesão de chefes religiosos, de personalidades e vilarejos de comunidades minoritárias. Os manifestantes sabem disso e o apelo às minorias drusa, cristã e alauita, em nome da unidade nacional, está presente todo o tempo nas ruas. Os apelos lançados ao Exército ainda são pouco numerosos: “Exército sírio, oh, todo-poderoso, proteja Deraa do cerco” (“Al-jaych al-suri yâ jabbâr radduw ‘an Der’â al-hisâr”). Antiga vanguarda política que ganhou seus títulos de glória na luta anticolonial e, em seguida, foi menosprezado – bem mais pelo exercício do poder que por seus erros diante de Israel –, o Exército poderia paradoxalmente representar a principal esperança da intifada, na falta de outras perspectivas realistas.

M. Zênobie é jornalista.



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