Transformar a vida - Le Monde Diplomatique

3° FALP

Transformar a vida

por Jairo Jorge
2 de julho de 2013
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O 3º Fórum Mundial de Autoridades Locais de Periferia (Falp) ocorreu de 11 a 13 de junho em Canoas (RS) e reuniu mais de 2 mil pessoas e representantes de duzentas cidades de trinta países de cinco continentes. Veja abaixo o discurso do prefeito de Canoas, Jairo Jorge, proferido durante o encontroJairo Jorge

“Irmãos, cantai esse mundo que não verei, mas virá um dia […]… não tenho pressa. […] Uma cidade sem portas, de casas sem armadilha, um país de riso e glória como nunca houve nenhum. Este país não é meu nem vosso ainda, poetas. Mas ele será um dia o país de todo homem.”

Carlos Drummond de Andrade

Nós somos aqueles que ousaram dizer que um outro mundo é possível. Somos aqueles que se recusaram a acreditar no fim da história. Somos aqueles que não aceitaram a idolatria ao deus mercado e as promessas frágeis do neoliberalismo. Somos aqueles que buscaram construir uma cidade sem portas, um país de todo homem. Em nossas cidades de periferia buscamos uma nova ordem, baseada na igualdade, na justiça, na liberdade, na solidariedade, na democracia, na sustentabilidade.

Há dez anos, como filho do Fórum Social Mundial, no marco do Fórum de Autoridades Locais pela Inclusão Social e a Democracia Participativa, nasceu o Fórum de Autoridades Locais de Periferia (Falp), na cidade de Alvorada, periferia de Porto Alegre. A rede cresceu e ganhou força. Em 2006, com o primeiro Fórum Mundial em Nanterre, na periferia de Paris. Em 2010, com a segunda edição em Getafe, na periferia de Madri. Agora reunidos em Canoas, periferia de Porto Alegre, erguemos nossas vozes, buscamos um novo modelo de desenvolvimento, queremos metrópoles mais democráticas, mais solidárias, mais sustentáveis, mais inclusivas.

O poeta da transformação Vladimir Maiakovski diz: “O tempo é escasso – mãos à obra, primeiro é preciso transformar a vida para cantá-la em seguida”.

Queremos transformar a vida. Metade do mundo vive nas cidades, há uma emergência das metrópoles. Surgem megacidades, onde a periferia, com mais intensidade, vive os dilemas do crescimento. Identidade, mobilidade, segurança, mudanças climáticas são temas que estão no centro de nossas preocupações.

Hoje, em nossas cidades de periferia, enfrentamos três grandes desafios: o desencanto, a escassez e a complexidade.

Vivemos um tempo de desencanto. Existe hoje um afastamento das pessoas da política. Há uma profunda desconstrução da esfera pública, um desgaste da política e a descrença que ela possa transformar positivamente a vida das pessoas. Aliado a isso, assistimos a um processo crescente de individualização e de esvaziamento dos sujeitos coletivos que nasceram com a modernidade. Homens e mulheres, atomizados, fragmentados, constroem sua vida, seguem solitários seus caminhos, vivendo uma espécie de narcisismo exacerbado.

Vivemos também um tempo de escassez. A crise que atingiu o mundo em 2008 ainda produz seus efeitos em 2013. A ampliação do desemprego e a redução dos direitos surgem como novas soluções, repetição do velho receituário que ao invés de remédio é o veneno que levou à falência da economia global. As fórmulas ortodoxas, pautadas pelo Consenso de Washington, e a financeirização da economia foram os grandes responsáveis pela crise.

Vivemos um tempo de complexidade. Os problemas da atualidade exigem ações articuladas que rompem as fronteiras das cidades e impactam regiões metropolitanas ou aglomerados urbanos. Há uma interdependência exigindo uma ação integrada entre diversos agentes públicos. Novos problemas exigem novas soluções.

É preciso um movimento mundial. Queremos construir metrópoles democráticas, solidárias e sustentáveis. Queremos uma metrópole democrática, pois com a radicalização da democracia, com a democracia participativa, podemos reencantar as pessoas. Buscar na pólis o sentido da política, quebrando o ceticismo e o desencanto. Queremos uma metrópole solidária; com a solidariedade podemos enfrentar a escassez e buscar soluções pactuadas que apontem alternativas ao modelo global. Queremos uma metrópole sustentável; com a sustentabilidade podemos superar os desafios da complexidade, buscando soluções inovadoras, criativas e ousadas.

Em nossas cidades de periferia estamos transformando a vida para cantá-la em seguida. Esse coro é formado por milhões de vozes, de cidadãos e cidadãs, que buscam um novo caminho, que não perderam a esperança, que acalentam a utopia.

O poeta da alegria Thiago de Mello diz: “Cidadania é dever de povo. Só é cidadão quem conquista o seu lugar na perseverante luta do sonho de uma nação. Força gloriosa que faz um homem ser para outro homem caminho do mesmo chão, luz solidária e canção”.

A grande tarefa do século XXI, especialmente para os progressistas em todo o mundo, é radicalizar a democracia. O mundo precisa de mais, e não de menos, democracia. Por isso, é dever de nossa geração despertar a vocação cidadã que está dentro de cada indivíduo.

Queremos dessacralizar a autoridade, envolver o cidadão na administração pública, transformando críticos em parceiros, consumidores em construtores de políticas públicas e usuários em cogestores da máquina pública. Buscamos construir uma gestão focada no cidadão, que o integre na vida da cidade e que faça nascer uma nova esfera pública.

O poeta da igualdade Walt Whitman diz: “Cidade grande é aquela que conta com os maiores homens e mulheres: se tiver umas poucas choupanas em farrapos, ainda assim será a cidade maior do mundo”.

Aqui, homens e mulheres nos últimos quatro anos tomaram para si o destino de Canoas. Criamos um sistema de participação popular e cidadã, com o Orçamento Participativo, a Prefeitura na Rua, a Ágora Virtual, o Congresso da Cidade, o Plano Plurianual Participativo, o Prefeito na Estação e as audiências públicas. São dez ferramentas de participação, integradas, sistêmicas. Mais de 120 mil canoenses participaram dessas ferramentas e ajudaram a construir Canoas como uma cidade grande, uma cidade feita de cidadãos − homens e mulheres que escolheram o caminho da inovação, da inventividade e da coragem.

Queremos constituir uma agenda colaborativa, com a participação de toda a Rede Falp na construção de uma Plataforma de Ação das Cidades de Periferia: Ideias para Metrópoles Democráticas, Solidárias e Sustentáveis. Vamos compartilhar propostas e soluções que possam estabelecer um novo protagonismo para a periferia.

Queremos também, no período de dois anos, elaborar um Informe Mundial sobre as Cidades de Periferia, com a participação de uma rede de universidades de várias partes do mundo. Vamos preparar um diagnóstico sobre as regiões metropolitanas de todos os continentes, em parceria com a CGLU.1

Queremos também constituir um espaço para troca de práticas exitosas, permitindo o intercâmbio entre gestores com a constituição de um Banco de Experiências das Cidades de Periferia, por meio de portal na internet e publicação anual.

Para conduzir esses três grandes desafios, estruturar e coordenar as atividades da Rede Falp, queremos propor a ela uma maior organicidade, que permita dar continuidade aos debates realizados nas edições anteriores e ao aprofundamento de nossa luta. Sugerimos a criação de um Conselho Mundial de Cidades de Periferia com reuniões anuais e de uma Comissão Diretiva, com a estruturação de três secretarias − executiva, técnica e de mobilização − para organizar nossa ação.

Queremos também estabelecer uma periodicidade de três anos para o Fórum Mundial, prevendo para o primeiro semestre de 2016 a quarta edição.

Aqui falamos de esperança, transformação, alegria e igualdade. Aqui falamos de participação, solidariedade e sustentabilidade. Aqui falamos de homem e mulheres movidos pelo sonho.

O poeta da liberdade Octavio Paz nos ensina em versos:

“A alegria amadurece

como um fruto

O fruto amadurece até ser sol

O sol amadurece até ser homem

O homem amadurece até ser astro

Nunca a luz se dividiu

em tantas luzes”.

Jairo Jorge é Prefeito de Canoas (RS).



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