Um voto na terra do medo e da desinformação

OPINIÃO

Um voto na terra do medo e da desinformação

por Silvia Baptista
14 de julho de 2022
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É preciso eleger um poder executivo favorável às trabalhadoras e trabalhadores, é indispensável colocar as cores da diversidade dos povos no Congresso Nacional. Eleger expressivamente uma bancada preta, indígena e Lgbtqia+, desde que esses corpos insurgentes empenhem a bandeira contra todas as opressões

O enfrentamento da única pandemia de nossa geração deixou um rastro de dor, luto e deformação das conquistas históricas de trabalhadoras e trabalhadores do Brasil. Até agora foram 674.554 pessoas mortas por Covid-19. Especialistas avaliam que este número pode estar subestimado, porém, o número real divulgado encerra em si um terror suficiente para as famílias, comunidades, organizações e instituições impactadas pela morte, em sua maioria evitável. É necessário viver o luto por essas vidas. O luto, porém, precisa de um interregno, de um tempo livre de novas ameaças. Até hoje esse intervalo não foi  possível.

Todos os dias somos bombardeadas por essa tempestade perfeita: uma pandemia sob a regência da força política emersa das urnas em 2018. Vamos completar quatro anos de ação deliberada contra os povos originários, contra as mulheres, contra a população negra e Lgbtqia+, eleitos os inimigos do poder sazonal que se diz governo. São também anos de ecocídio com desastres inomináveis quando vivemos já os efeitos das emergências climáticas.

Enquanto vivemos a necessidade de atuação coletiva à altura da pandemia e das emergências climáticas, todos os dias somos instadas a lutar contra uma nova emergência local ou nacional. Nosso luto é assim adiado. E ainda não sabemos os danos futuros por essa falta de espaço de vivência do luto. Por outro lado, sabemos bem o que produzimos de mudanças para sobreviver esses anos ou para mitigar os danos físicos e mentais desta “tempestade perfeita”.

Assumimos uma postura de cuidado radical ao pontuar a defesa da alimentação livre de agrotóxicos para todas como principal determinante da saúde coletiva. Voltamos às ervas, aos saberes tradicionais, aos banhos, aromas, escalda-pés. Mesmo adeptas das benzeduras, participamos da criação da Escola de Reiki, prática experimentada coletivamente desde 2020. E não vemos o ‘reike-prática-branca’. Vemos a potencialidade de uma prática integrativa do SUS capaz de salvar vidas e psiquês, capaz de atender todas as mulheres, de todas as religiões, alcançando a maioria das mulheres pretas da periferia onde a benzedura não chega, mas a ancestralidade traduz como imposição das mãos. No Reiki encontramos cura e respeito à transição da maioria das mulheres até que todas sejamos livres.

Bradamos, com Audre-Lorde, “autocuidado é revolução”. Posso afirmar que fomos eficientes no cuidado coletivo do ponto de vista comunitário e local. Fomos eficazes em nossa ação de base territorial. Não somos ingênuas, no entanto. Não há prática de cuidado coletivo ou de autocuidado que possa ignorar a origem das opressões que se abatem sobre a população preta, pobre e periférica.

Capitalismo

Tenho repetido uma estória de autor e fonte desconhecida. Conta-se que um dia dois jovens estavam às margens de um rio turbulento. Aparentemente uma forte tempestade tinha acometido a nascente e agora um turbilhão de água descia das montanhas próximas. De repente os rapazes avistaram uma criança descendo nas águas, se debatendo tentando se agarrar no que era possível. Não tiveram dúvidas. Pularam na água e juntos conseguiram salvar a criança. Só que, em seguida, veio outra criança e depois outra e outra. Até que um deles saiu correndo. Um rapaz, voluntário, ficou. Por um momento, achou que o outro fugia à luta e interpelou o parceiro com violência até. Mas o rapaz que corria falou apressado: “Vou rio acima verificar quem está jogando as crianças na água”.

É o Capital que lança à morte as crianças, as pessoas indefesas. Temos que reconhecer a letalidade da forma neoliberal contemporâneo do capitalismo financeiro, ecocida e genocida. É possível afirmar que há muitas formas de lutar contra esse sistema-moedor-de-gente.  Fazemos o melhor na periferia da periferia do Capital. Porém, a escala de luta comunitária ou os jovens voluntariosos retirando vítimas das águas turbulentas, jamais será suficiente para aplacar a virulência do capital. Precisamos alcançar a escala nacional, continental, Nuestra América, e a escala mundial.

Eleições

Há diversidade de práticas, ações, organizações na política multi escalar necessária ao enfrentamento ao capital. Dentre elas, algumas pessoas e organizações defendem a não participação nas eleições burguesas. Eu respeito esse argumento. No entanto, advogo que participar das eleições é traçar metas de curto e médio prazos para mitigação de danos aos nossos iguais.

O Estado não é um inimigo monolítico, ou composto apenas da extrema direita que ascendeu ao poder em 2018 no Brasil. Ele se compõe de frações da classe dominante em luta entre si. No movimento entre essas frações temos conquistado brechas na defesa da vida ao longo das décadas e séculos de nossas ancestrais. Neste sentido, as eleições de 2022 têm cores preferenciais. São nossas as cores de nosso panteão verde-amarelo. E, se temos o sangue avermelhado, reivindicamos também essas cores em nossas bandeiras de luta.

A eleição que se avizinha tem também as cores do arco-íris da diversidade, dando um sentido amplo ao levante das oprimidas e dos oprimidos para assumir seu lugar de direito na condução dos interesses dos povos tradicionais e dos direitos da natureza.

Em que pese a importância da eleição majoritária, do novo presidente da República e dos senadores, um poder executivo alternativo à via autoritária em curso e favorável às trabalhadoras e trabalhadores, é indispensável colocar as cores da diversidade dos povos no Congresso Nacional. Eleger expressivamente uma bancada preta, indígena, Lgbtqia+, desde que esses corpos insurgentes empenhem a bandeira contra todas as opressões. Ou seja, não basta ser preta, tem que ser anticapitalista e defender o fim do binarismo de gênero ou de orientação sexual que tem imposto morte nas periferias por homofobia.

José Cruz/Agência Brasil

Zona oeste

Apesar desta meta estar bastante negritada e retinta, os caminhos a seguir para alcançar êxito eleitoral não estão evidentes. O segundo semestre nos reserva dúvidas imensas. E, relembro que a cabeça pensa onde o pé pisa. Meu corpo se desloca pela zona oeste do Rio de Janeiro, local de origem do poder que assumiu o mais alto posto do país.

A zona oeste é um lugar de potência. É um lugar que produz água potável, apesar do ecocídio, permitido pela falta de uma política urbana eficaz. Produz comida de verdade, tem agricultura urbana, agricultura quilombola, cultura popular de fôlego. Por outro lado tem um estigma por ser considerado território de “mi-mi-mi”, milico, milícia e mito. Este último no sentido contemporâneo da mentira, da mitomania.

Hoje posso dizer que a região é o império do medo epidêmico. Ele se alastra pela periferia em silêncio, no inaudito ou nas ameaças sussurradas que não permitem registro capaz de judiciliazação. Nessa região impera uma prática histórica de (in)segurança pública. Se, por um lado, o Planalto reverbera contra a segurança das urnas, por outro, faz cortina de fumaça contra a nossa impossibilidade da população  exercer nossa liberdade de expressão ou direito de ir e vir dentro da periferia.

A subjetividade do medo impede também a avaliação do que é risco, ameaças concretas e o ‘não saber’ governará nossa campanha eleitoral. O medo é um miasma, uma fantasmagoria que parece reger nossas relações políticas. Foi muito bem semeado e cultivado pela repressão midiática e estatal contra as manifestações em especial de 2013. Foi adubado pelos assassinatos, estupros corretivos, desaparecimentos forçados e jamais solucionados. E isso não brotou das urnas em 2018. É muito anterior. Houve um longo desenvolvimento das políticas e práticas de insegurança popular. Estamos presas nesta dimensão.

Outro aspecto desse ambiente adoecido e avesso à cidadania é o negacionismo e a desinformação. Durante os meses mais difíceis da pandemia a coletiva de mulheres onde me organizo, travou um enfrentamento diário contra as mentiras virais, como prefiro chamar ao fenômeno que recebe nome atraente de fake-news.  Naqueles dias, porém, havia um elemento unificador, a pandemia, o propósito coletivo a favor das vacinas, do uso da máscara, pela ciência.

No período eleitoral aparece uma difusão de interesses, atores, vozes, veículos. Essa multiplicidade de atores não favorece o combate à desinformação. Creio que o espectro político alinhado na defesa da democracia, dos direitos sociais e da soberania popular, precisa tecer um núcleo aglutinador de narrativas, que consolide uma utopia de futura transformação radical da sociedade. Neste sentido criar um compromisso nas classes transformadoras que vá além das necessárias eleições de 2022. Tenhamos fé.

 

Silvia Baptista é mulher negra, pesquisadora militante e organizada na Coletiva Popular de Mulheres e Teia de Solidariedade da Zona Oeste do Rio.

 

 



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