Vijay Prashad: ‘Bolsonaro é hoje um bloqueio no caminho real da história’

ENTREVISTA

Vijay Prashad: ‘Bolsonaro é hoje um bloqueio no caminho real da história’

por Carolina Azevedo
29 de agosto de 2022
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O historiador Vijay Prashad  visitou a redação do Le Monde Diplomatique Brasil para falar sobre o lançamento brasileiro de “Uma História Popular do Terceiro Mundo” e os desafios da esquerda no Brasil após as eleições.

Vijay Prashad é um historiador e pesquisador marxista, diretor executivo do Instituto Tricontinental de Pesquisas Sociais e editor-chefe da LeftWord Books. Na última semana, Prashad veio ao Brasil para lançar seu novo livro, “Uma História Popular do Terceiro Mundo”. Publicado no país pela editora Expressão Popular, a obra resgata o debate sobre o imperialismo nos países de Terceiro Mundo, buscando a compreensão da atualidade através dos movimentos populares, que lutam  contra a sobreposição dos interesses das classes dominantes em detrimento das necessidades dos povos.

Em entrevista ao Le Monde Diplomatique Brasil, o autor fala sobre o imperialismo na era pós-Terceiro Mundo, o papel dos Estados Unidos na dominação forçada da economia global, a esquerda latino americana, as eleições de 2022 no Brasil e muito mais.

(Imagem: LMDB)

Le Monde Diplomatique Brasil: O que mudou na relação entre Estados Unidos e América Latina desde a eleição de Biden?

Vijay Prashad: Pouco mudou. Sob Donald Trump, havia certa aspereza no tom e na atmosfera das relações internacionais dos Estados Unidos, ele era muito mais bruto, querendo derrubar governos, duvidando das urnas, no eixo da tirania. Com Biden o tom é diferente: ele fala de forma muito mais moderada, expressando suas preocupações com direitos humanos. Essa é a diferença entre Republicanos e Democratas, uma mudança de tom. Democratas são muito mais “educados”, como Obama e Biden, pessoas mais decentes, e os Republicanos são muito mais brutos, como Bush e Trump.

Mas o fato é que a orientação política é a mesma, eles ainda querem interferir. Biden fez uma afirmação recentemente que deixa isso muito claro: em referência à ideia de Doutrina Monroe, de que a América Latina é o quintal dos Estados Unidos, ele disse que ela não é o quintal (backyard), mas o jardim da frente (front-yard). Mas não se pode dizer que o tom não significa nada, ele significa muito. Talvez haja mais possibilidade de diplomacia, mas não posso ter certeza. Na realidade, penso que eles estão tão focados na certeza de que os Estados Unidos devem ditar os termos para a América Latina que a mudança de tom pode até acabar não significando nada.

 

Como o imperialismo se materializa na era pós-Terceiro Mundo e como ele se diferencia do momento anterior?

A primeira pergunta a se fazer é: o que é imperialismo? Você deve entender o imperialismo em termos da estrutura do sistema. Um exemplo: o Haiti lutou contra a escravidão, fez uma revolução pouco depois da Revolução Francesa, algo verdadeiramente incrível, mas nunca pôde estabelecer sua soberania. Voltando ao presente: Jean Bertrand Aristide, ex-presidente eleito do Haiti, deveria estar no Livro Guinness de Recordes Mundiais, pois ele é o único presidente que sofreu golpe duas vezes pelas mãos dos Estados Unidos. Depois da deposição, um governo pró-Estados Unidos assumiu o poder. Nos Estados Unidos, é muito comum ver agasalhos de faculdade, com Harvard, Cornell, bordados ao centro. Grande parte desses agasalhos são feitos no Haiti, sendo vendidos por cerca de 60 dólares, até mais, mas o trabalhador recebe um ou dois centavos por agasalho. Então, o legislativo haitiano decidiu aumentar o salário mínimo, mas a então Secretária de Estado estadunidense Hillary Clinton interveio, como foi revelado pelo WikiLeaks.

Então o que é imperialismo? Imperialismo é a estrutura que garante que certas partes do mundo mantenham salários mínimos e o preço de matérias primas desumanamente baixos. É isso que o imperialismo faz hoje, ele não é mais sobre conquista de territórios, é sobre controle dos recursos e mercados de trabalho. A estrutura do imperialismo mudou pouco, mas agora se vê ligeiramente ameaçada. O que ameaça o sistema estadunidense é que, de repente, após 200 anos, um país surgiu mostrando que consegue fazer as coisas melhor, ou ao menos mais barato, que eles. Esse país é a China. Ameaçados, ao invés de competir economicamente, o que eles não conseguem fazer, os Estados Unidos usam de força diplomática, política e militar contra a China. Então essa é a natureza do imperialismo hoje. O que vemos são os Estados Unidos e seus aliados fortemente ameaçados pelo mercado chinês. A China ainda é um país relativamente pobre se comparado aos Estados Unidos, mas eles têm poder produtivo e alta tecnologia, não apenas matéria prima como o Brasil, mas produtos de alto valor agregado. Isso não é permitido, então cai a máscara sorridente dos presidentes estadunidenses, revelando o imperialismo.

 

No livro, você fala muito do papel da ONU na movimentação do projeto de Terceiro Mundo. Qual é o papel da organização hoje no que diz respeito a esses países?

A ONU é uma organização muito complicada. Quando as pessoas pensam nela, apenas se lembram do Conselho de Segurança, dizendo que o órgão está paralisado, mas a ONU não é isso, ela se compõe de pelo menos duas partes. A primeira são as agências: Unicef, Unesco, UN Women, FAO, Acnur, uma gama de organizações. Se não fosse por essas instituições, a taxa de fome seria muito mais alta, o desespero seria muito maior. Se você for em zonas de guerra como a Palestina, o Líbano, as Nações Unidas têm um papel fundamental muito produtivo, não acho que esse papel deve ser subestimado.

A outra é a parte política da ONU. Entre as décadas de 1950 e 1990, a Assembleia Geral das Nações Unidas abriu espaço para que países do Terceiro Mundo defendessem seus olhares e demandas políticas. Então, em 1961, ela criou a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), liderada pelo economista argentino Raúl Prebisch. A UNCTAD foi peça chave no pensamento sobre políticas de desenvolvimento do sul global, empurrando um projeto de regulamentação do comércio, com subsídios e tarifas que melhorariam as condições de vida e trabalho no Terceiro Mundo.

O problema foi que, com o enfraquecimento do projeto de Terceiro Mundo nos anos 80 e 90, os Estados Unidos organizaram uma agenda política que fosse contra isso tudo, por isso a ONU está paralisada politicamente. Mas o que acontece é que, recentemente, um grupo de países que hoje compõem a maior parte da população mundial – incluindo a China, Venezuela e Cuba – está tentando movimentar a agenda política da ONU de volta à cartilha inicial de 1945, pois os Estados Unidos afastaram a ONU da cartilha. Sanções contra a Venezuela, o bloqueio econômico contra Cuba, ações desse tipo são na realidade ilegais de acordo com a cartilha, que diz que sanções unilaterais só podem ser aplicadas quando o Conselho de Segurança aprovar uma resolução. Essas ações dos Estados Unidos não têm resolução, eles há muito tempo foram além do limite, dominaram a ONU, fragilizando-a. Mas esses problemas não acabam com o poder das agências: ao mesmo tempo, crianças no mundo todo estão sendo vacinadas para coisas básicas, pessoas recebendo comida, tudo isso por conta da ONU, um trabalho que às vezes esquecemos de ver.

 

Você também comenta sobre o papel das mulheres na revolução e como elas foram muitas vezes ignoradas até mesmo pelos projetos mais progressistas. Isso é a norma em grande parte da esquerda até hoje. O que pode colocar um fim nessa tendência?

Não vamos superestimar o impacto do feminismo no mundo, pois coisas como o patriarcado e o racismo, hierarquias socioculturais, são fortemente enraizadas. É fácil fazer uma revolução política, ganhar uma eleição, fazer um golpe, retirar um governo. Você pode criar políticas diferentes, legalizar aborto, criar creches, mudar a sociedade, mas a mudança cultural é muito difícil. Não estou dizendo que não devemos mudar nada, apenas que vai levar tempo, estou aconselhando paciência. A esquerda deve continuar tentando se transformar ao mesmo tempo em que tenta transformar a sociedade.

Eu penso que há na esquerda uma dificuldade de lembrar que as mulheres tiveram um papel enorme nas lutas pela liberdade no Terceiro Mundo. Ao falhar em lembrar a natureza da luta, a esquerda também falha em reconhecer o presente. É por isso que a memória é tão importante, trazer à tona histórias de lutas lideradas por mulheres, pelas quais muitas inclusive morreram. É bizarro como o feminismo se embranqueceu, virou europeu ou norte-americano. A União Soviética, por exemplo, foi o primeiro país a estabelecer a licença maternidade, por volta de 1918, antes de qualquer outro país. Mas não o fizeram porque um dia Lenin de repente pensou nisso, foi porque o Movimento Internacional de Mulheres Socialistas havia, por pelo menos uma geração, colocado isso sobre a mesa. Então, quando a revolução acontece, isso está entre as demandas do movimento como qualquer outro tema. Na Índia, mulheres tiveram um papel importantíssimo no Movimento de Libertação Indiana, por isso não houve debate sobre sufrágio feminino quando os ingleses saíram em 1947, foi algo automático, pois o povo tinha consciência de que as mulheres também lutaram pela independência do país. O reconhecimento da luta realmente muda políticas.

Nesse sentido, é importante enfatizar que, na década de 1950, nas Conferências Afro-asiáticas da Mulher, as pautas que elas tinham em mesa estavam muito a frente do que a Segunda Onda do Feminismo estava fazendo no Ocidente. O feminismo não é europeu ou estadunidense, esse feminismo esquece de determinadas mulheres, deixa elas de lado. Talvez elas não tivessem essa ou aquela teoria, mas já estavam defendendo suas próprias demandas. Isso é feminismo, não é porque Simone de Beauvoir escreveu um livro sobre essa discussão que ela inventou o feminismo. Não há nada novo ali, são coisas que pessoas em lugares como o Irã já haviam reconhecido, como mostra a poesia de Forugh Farrokhzad, cujos poemas cito no livro.

 

As vitórias recentes da esquerda na América Latina sugerem um novo momento para o Terceiro Mundo? Quais os limites desse momento e as possibilidades de avanço de uma nova agenda de esquerda no continente?

Desde a eleição de Chávez em 1998, todo mundo está esperando que a esquerda latino americana salve o continente da catástrofe. Eu diria que essa é a quarta onda da esquerda na América Latina: a primeira onda foi a Revolução Cubana, que movimentou um sentimento no continente de que aquela revolução poderia ser replicada, e foi isso que os países tentaram. Essa segunda onda foi em grande parte destruída pelas ditaduras militares: os golpes de 1964 no Brasil, 1973 no Chile e 1976 na Argentina não foram nada além de uma reação, movimentada pelos Estados Unidos, àquilo que estava acontecendo depois de Cuba. Uma terceira onda foi justamente com a Revolução Bolivariana na Venezuela, em que se fortaleceu em toda a região o projeto bolivariano, um momento em que os preços de commodities estavam altos e os Estados Unidos distraídos pelo Iraque. Essa onda foi destruída pela guerra híbrida dos Estados Unidos contra a América Latina, ao lado da queda no preço das commodities.

Neste momento, a única possibilidade para a América Latina reside na social-democracia. Esses governos que estão chegando não são governos de esquerda, eles são seculares. Líderes como Gustavo Petros estão fazendo trabalhos incríveis, mas o espaço de manobra é social-democrático. Então, quando Lula assumir o poder no Brasil, ele não vai conseguir estabelecer um governo de esquerda, mas sim uma social-democracia de centro-esquerda, e isso já é ótimo. A esquerda precisa entender que a história acontece de acordo com as condições materiais, não apenas com sua própria programação, é preciso ver o que é possível e então tentar mudar as condições. Então se Lula ganhar as eleições, o papel das esquerdas não é de ser a oposição do governo, mas tentar mudar as condições do país e abrir mais espaço para a política da esquerda. É importante estabelecer e organizar uma esquerda unificada para mudar as condições sociais, para que novos argumentos possam ser formulados a respeito da fome, do desemprego, do racismo.

 

Qual o maior desafio da esquerda no Brasil hoje, caso Bolsonaro seja reeleito ou Lula eleito?

Isso é algo que apenas a esquerda brasileira pode dizer, mas algo que sei é que em países ao redor do mundo, um dos principais desafios é estabelecer a unidade da esquerda. A esquerda caminha mas está fragmentada, desmoralizada, então o máximo de união é importante. Em segundo lugar, a esquerda tem que entender que o socialismo é o movimento real da história, então é preciso lutar para mudar as condições materiais e tornar a história possível. Bolsonaro é hoje um bloqueio no caminho real da história. É como se estivéssemos batendo no portão que ele representa, tentando abrí-lo para que a história possa andar. Mas Lula não tem o poder de dirigir a história a não ser que o caminho seja construído, e é esse o papel da esquerda. Por fim, a esquerda, globalmente, precisa acreditar no futuro. Muitas pessoas da esquerda não acreditam que consigamos estabelecer o socialismo, pensando que eleger Lula já vai fazer todo o trabalho que precisa ser feito, mas isso não é a realidade, a eleição de Lula não avança a história por si mesma. É claro que ela é uma vitória importante, mas é preciso construir esse caminho, Lula não vai conseguir fazer isso sozinho, a esquerda precisa apoiá-lo, e isso é acreditar no futuro.

 

Que papel as eleições de outubro no Brasil podem desempenhar na balança da política regional e mundial?

É enorme. O Brasil é um dos principais países da América, acho errado colocá-lo como um dos principais da América Latina, ele é um dos maiores da América. Imagine só se o Brasil e o México, dois países muito poderosos, estabelecessem uma nova forma de pensamento nas Américas. Acho que isso às vezes é deixado de lado, seria muito interessante ver o Lula estabelecer um novo projeto para as Américas, propondo por exemplo uma América sem armas nucleares, sem exercícios militares no Caribe, livre circulação de pessoas, melhor tratamento dos Estados Unidos com mexicanos. Esse pensamento tem o poder de radicalizar a região inteira, pressionar a esquerda nos Estados Unidos.

Em segundo lugar, o Brasil tem papel fundamental na revitalização dos Brics. Rússia e China já são próximas e, assim como Índia e África do Sul, não estão felizes com a Ordem Mundial. Os Brics desapareceram um pouco da cena, mas penso que quando Lula for eleito, ele vai enfatizar a importância do  bloco, pois ele pode realmente beneficiar o povo brasileiro economicamente.

 

Carolina Azevedo faz parte da equipe do Le Monde Diplomatique Brasil.



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