A nova Guerra Fria - Le Monde Diplomatique

ESTADOS UNIDOS E RÚSSIA

A nova Guerra Fria

por Serge Halimi
4 de setembro de 2014
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A nova Guerra Fria será, no entanto, diferente da antigaSerge Halimi

Em 1980, para resumir sua visão das relações entre os Estados Unidos e a União Soviética, Ronald Reagan proferiu esta fórmula: “Nós ganhamos; eles perdem”. Doze anos depois, seu sucessor imediato na Casa Branca, George Bush, felicitava-se pelo caminho percorrido: “Um mundo outrora dividido entre dois campos armados reconhece que existe apenas uma superpotência preeminente: os Estados Unidos da América”. Esse foi o fim oficial da Guerra Fria.

Esse período acabou agora. Sua sentença de morte soou no dia em que a Rússia se cansou de “perder” e na medida em que seu rebaixamento programado nunca tocará o fundo, com cada um de seus vizinhos se vendo um de cada vez atraído – ou subornado – para uma aliança econômica e militar dirigida contra ela. “Os aviões da Otan patrulham os céus acima do Báltico, nós reforçamos nossa presença na Polônia e estamos prontos a fazer ainda mais”, relembrou Barack Obama em março em Bruxelas.1 Diante do Parlamento russo, Vladimir Putin denunciou a “política infame de confinamento” que, segundo ele, as potências ocidentais impõem a seu país desde… o século XVIII.2

A nova Guerra Fria será, no entanto, diferente da antiga, pois, como revelou o presidente dos Estados Unidos, “contrariamente à União Soviética, a Rússia não dirige nenhum bloco de nações, não inspira nenhuma ideologia global”. O confronto que se instala também deixou de opor uma superpotência norte-americana que desenhava na sua fé religiosa a confiança imperial em um “destino manifesto” contra um “Império do Mal”, que Reagan amaldiçoava também por causa de seu ateísmo. Putin corteja, ao contrário, não sem sucesso, os cruzados do fundamentalismo cristão. E quando ele anexou a Crimeia, relembrou imediatamente que é o local “onde São Vladimir foi batizado […]; um batismo ortodoxo que determina as noções de base da cultura, dos valores e da civilização dos povos russos, ucranianos e bielorrussos”.

É o mesmo que dizer que Moscou não admitirá que a Ucrânia se torne a base de seus adversários. Aquecido por uma propaganda nacionalista que excede até mesmo a lavagem cerebral ocidental, o povo russo se oporia a isso. Ou seja, nos Estados Unidos e na Europa, os partidários do grande rearmamento aumentam suas apostas: proclamações marciais e avalanche de sanções heteróclitas que só fazem aumentar a determinação do campo adversário. “A nova Guerra Fria será talvez mais perigosa ainda que a precedente”, já advertiu um dos maiores especialistas norte-americanos sobre a Rússia, Stephen F. Cohen, “porque, contrariamente à anterior, ela não encontra nenhuma oposição – nem na administração, nem no Congresso, nem nas mídias, nas universidades, nos think tanks”.3 É a receita conhecida de todas as derrapagens…

Serge Halimi é o diretor de redação de Le Monde Diplomatique (França).



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