O medo dos brancos em falar da branquitude - Le Monde Diplomatique

PRIVILÉGIOS

O medo dos brancos em falar da branquitude

por Bruno Ribeiro Oliveira
30 de julho de 2020
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O medo dos brancos está em reconhecer e discutir sua branquitude, porque ela foi criada principalmente através da violência racial. Isso não é um dado totalizante da branquitude, mas é um dos seus traços mais acentuados

Existe uma dificuldade para os brancos reconheceram sua branquitude. Acredito que ela venha de alguns dados não só da história brasileira, mas da história moderna e contemporânea do mundo ocidental. E, precisamente, do modo em que as relações sociais tuteladas por ideias raciais foram desenvolvidas ao longo do tempo.

O mundo foi moldado por mestres brancos por muito tempo. Isso causou um efeito de normalização da branquitude. Nos acostumamos a entender que o branco é naturalmente melhor posicionado socialmente, nos esquecendo de que isso foi historicamente construído. Essa aparente normalidade do fato de se ser branco não gera discussão (principalmente no Ocidente), porque, uma vez naturalizada, a branquitude fica quase que imune a questionamentos.

Outro motivo sobre a dificuldade em se falar da branquitude ocorre porque os últimos séculos de domínio europeu e branco foram responsáveis pela criação de uma narrativa própria. Nesta, os fatos sinistros de suas histórias foram silenciados. Esse silenciamento e esquecimento, muitas vezes proposital, fez e faz com que apenas dados positivos da história europeia e branca sejam apresentados. E, ao produzirem escritos sobre si mesmos e sobre suas próprios lógicas (ignorando as visões de mundo dos outros), os mestres brancos não convidavam a discussão de fatos que poderiam desconstruir suas narrativas enaltecedoras.

Os últimos cinco séculos, diretamente ligados a formação da nossa contemporaneidade, estão carregados de colonialismo, escravidão e genocídios promovidos por povos de origem europeia e brancos. Portanto, propor a discussão do que significa ser branco é reconhecer que a branquitude está atrelada aos fatos citados.

Sem surpresa, sabemos que os brancos não foram massivamente escravizados desde que a Europa passou a tomar as rédeas do mundo no século XVI. Gerações após gerações de brancos não foram explorados à exaustão e à morte para o benefício de outros. Brancos não foram tratados como produtos passíveis de serem vendidos, humilhados, estuprados, torturados. Brancos não tiveram suas redes familiares dilaceradas, comunidades desmontadas e culturas atacadas, rebaixadas, proibidas ou segregadas por leis amparadas em intelectuais e ideias racistas. O contrário, nós sabemos, foi realizado por brancos.

O fim do racismos estrutural depende do reconhecimento da branquitude
Manifestações pedem o fim do racismo estrutural. Clay Banks/Unsplash

O passado racista e escravocrata brasileiro é tema de difícil trato para os meus contemporâneos brancos. Isso é evidente em suas dificuldades em reconhecer racismo seja em si, nos seus próximos e em reconhecer seus privilégios de classe e cor. Existe uma tendência em ocultar essas dificuldades sob o manto da ideia de que vivemos em iguais condições e que todos possuímos a mesmas chances num sistema que é, em realidade, desigual. Esquecem-se que onde existe racismo não pode haver condições justas de vida para todos.

Ainda que o branco possa negar ou que viva em ignorância sobre esse assunto, os seus privilégios advêm das vantagens construídas através de longos períodos de racismo e escravidão, e eles sabem aproveitar e proteger essas vantagens. Atualmente, a escravidão está terminada, mas o pensamento racista continua presente e existe de diferentes formas em nossa atualidade, como em discursos que negam a existência do racismo ou minimizam questões históricas.

Estamos acostumados a ouvir como a escravidão e o racismo marcam indivíduos negros, movimentos negros, África e a negritude. Nós, brancos, nos esquecemos que o racismo e práticas relacionadas a ele também criaram a branquitude através de um longo processo histórico. Portanto, o processo de formação da branquitude passa pelos processos de escravidão, racismo, colonialismo e formação do capitalismo.

O fazer-se do branco e a superioridade criada pelos brancos para si mesmos não podem ser separados dos processos de criação do outro, ou seja, dos não brancos. Não se trata de um processo de trocas entre brancos e não brancos, mas de imposição de formas de classificação criadas por brancos sobre os não brancos. Essas formas de classificação não são neutras, elas são acompanhadas de práticas violentas nesses relacionamentos geridos por pensamentos racistas. Ao criar a inferioridade do outro, a branquitude criou sua superioridade.

É necessário entender que a construção da branquitude foi também um processo de construção da humanidade. Mas não no sentido que conhecemos hoje em dia. Tratava-se de uma humanidade excludente, onde os humanos (brancos) deveriam possuir a primazia sobre os não humanos (não brancos). A ideia de humanidade demorou a se tornar englobante como a conhecemos hoje. Ainda que persistam tantos problemas, a ideia de uma humanidade cujas diferenças não devam ser mais importantes do que a cor dos olhos conseguiu se estabelecer em diversos corações e mentes. Mas a luta continua.

O medo dos brancos está em reconhecer e discutir sua branquitude, porque ela foi criada principalmente através da violência racial. Isso não é um dado totalizante da branquitude, mas é um dos seus traços mais acentuados.

O branco passa a existir com a ideia de que existem pessoas que não são brancas. Porém, a diferença não terminou na cor da pele, os próprios brancos trataram de desenvolver as diferenças que, por exemplo, se apresentaram no darwinismo social, em legislações segregacionistas e em movimentos supremacistas. É difícil para os brancos reconhecer que parte de sua identidade, história e memória está fundamentada em tantos males passados e que, não só persistem por diversos modos em nosso cotidiano, mas permitem os privilégios da branquitude.

Foram seres humanos brancos que criaram as lógicas da escravidão do período moderno, que desenvolveram as teorias raciais que levaram ao colonialismo, as segregações raciais e a formas autocráticas de poder que negava aos não brancos a autodeterminação de seus povos. Foram ações de povos e indivíduos brancos que dividiram o mundo entre desenvolvido e subdesenvolvido. E essa divisão é também uma divisão entre raças.

Não dá para olhar para trás e sentir orgulho de ser branco uma vez que parte da branquitude foi construída sobre a destruição do outro. Existe uma urgente necessidade em se discutir o que significa ser branco, ainda mais em contextos racistas como é o brasileiro. Evidentemente, será preciso olhar para a história da construção do que significa ser branco na atualidade, do que significou em outros períodos e quais os possíveis caminhos que a branquitude pode tomar.

O mundo contemporâneo sofre as consequências dos atos passados. Não nos ajuda dizer que em determinado tempo as coisas eram diferentes e que não mais fazemos o que fizeram nossos antepassados (ainda bem que não fazemos). E, mesmo que humanos de outros tempos possuíssem outras mentalidades, foram justamente os antepassados que nos deixaram problemas para nosso presente e é no presente que habitamos, e nele precisamos agir.

Não se pode enfrentar o racismo apenas deixando-o ser discutido por aqueles que não desenvolveram, teorizaram e aplicaram essa ideia em diversos locais do mundo. Os que sofrem o preconceito já dedicam muito tempo de sua vida a enfrentar e sobreviver ao racismo cotidiano e às estruturas que o sustenta. É preciso que a branquitude seja discutida, porque ela é parte constituinte das relações raciais seja no Brasil, seja em países predominantemente brancos ou em outros locais onde brancos colonizaram e permaneceram.

Brancos não estão acostumados a serem alvos de estudos que o analisem como raça. Mas se faz necessário diversas indagações nesse sentido, porque ser branco diz muito sobre quem somos, como somos, de onde viemos e servirá para planejar se a branquitude trilhará novas e desconhecidas rotas ou permanecerá em sua toxicidade.

 

Bruno Ribeiro Oliveira é mestre em História de África pela Universidade de Lisboa e doutorando do Programa de História e Artes da Universidade de Granada.



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