Rivalidades inflamadas pela ultradireita - Le Monde Diplomatique

Neoliberalismo

Rivalidades inflamadas pela ultradireita

por Mariana Pimentel Fischer
15 de abril de 2021
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A adesão a Trump em 2016 (e também a Bolsonaro em 2018) foi a forma que muitas pessoas encontraram de dizer “não”. A ultradireita soube dirigir esse impulso de ruptura para o seu próprio benefício, impedindo qualquer mudança social significativa

Em 2017, logo após a vitória de Trump nas eleições dos EUA, Nancy Fraser publicou um artigo intitulado “O fim do neoliberalismo progressista”. A filósofa mostrou que os governos de Bill Clinton e Barack Obama ajudaram a construir uma aliança peculiar: de um lado, setores hegemônicos de movimentos sociais e, de outro, Wall Street, Hollywood e grandes grupos empresariais.

Nas últimas décadas, de fato, movimentos feministas, antirracistas e LGBTQI+, que nasceram com um projeto de transformação social profunda, foram empurrados para tal compromisso. O acordo tácito produziu avanços que não podem ser negligenciados; certamente algumas mulheres, não-brancos e outros vulneráveis ascenderam em hierarquias coorporativas. O preço, contudo, foi alto.

“Libertação queer e não capitalismo do arco-íris” (Unsplash)

Poucos cabiam no espaço concedido pelos protagonistas do jogo financeiro. Grande parte das mulheres, não-brancos e LGBTQI+ continuaram em situação de intensa precarização. Junto com elas e com eles estavam a população rural, trabalhadores da indústria (especialmente do cinturão da ferrugem) e pequenos e médios empresários. Para estes últimos, entretanto, não sobrou nem mesmo a validação simbólica do multiculturalismo descafeínado dos governos do Partido Democrata.

A maior astucia de Trump e da ultradireita foi justamente explorar tais contradições do neoliberalismo progressista. Steve Bannon[1] e a Fox News foram mais eficientes do que quaisquer outros na tarefa de inflamar rivalidades artificialmente construídas. Refiro-me particularmente à instigação do ódio de trabalhadores brancos precarizados contra os chamados movimentos identitários (feministas, negros etc).

A Fox News repetia incessantemente para a população rural e para operários que não-brancos e mulheres haviam roubados seus empregos. Obama teria os ajudado a “furar a fila”. Eram larápios e furões com um discurso politicamente correto que, ainda por cima, almejavam impor como deviam se sentir. Para derrota-los, Trump. Um homem que não tem medo de dizer o que quer fazer com mulheres ou de urrar, uma vez e de novo, que irá construir um muro para afastar mexicanos.

Para além da coerência ou da viabilidade do discurso, o que realmente importava eram os efeitos de tais repetições e hipérboles para a construção inflacionada de inimigos. Exageros sucessivos foram capazes de mobilizar uma quantidade significativa de norte-americanos em uma campanha eleitoral interminável. Mais do que isso. Impediram que outro adversário, mais genuíno, fosse percebido como tal. Insisto: contradições concretas produzem adversários genuínos.

Os gestos escandalosos de Trump obscureceram o fato de que trabalhadores brancos, pequenos e médios empresários sofrem o mesmo processo de precarização que mulheres, não-brancos e a população LGBTQI+. O adversário de todos esses grupos é um só: aqueles que determinam e mantem as regras do jogo da financeirização. Movimentos como o Occupy Wall Street ensaiaram tal endereçamento. Apenas ensaiaram, já que, naquele momento, a força e a astúcia da ultradireita foi maior.

No Brasil, franqueados de Bannon repetiram a tática (devidamente customizada) e alcançaram resultados semelhantes. A campanha permanente de Bolsonaro dominou as redes sociais. Motoristas e entregadores de aplicativos reproduziram o discurso de empresários e repassaram “memes” com imagens de feministas tresloucadas, comunistas sanguinários e famílias de sem-teto prontas para invadir apartamentos de 30 m2.

Muito vem se falando, hoje, sobre percurso para o centro após a derrota de Trump e um possível enfraquecimento de Bolsonaro. Parece que o Governo Biden segue essa direção. No Brasil, fala-se em uma frente ampla contra a ultradireita em 2022. Tanto a saída norte-americana, como a possível frente brasileira podem, de fato, ter uma função estratégica. Aceita-las provisoriamente não implica, contudo, em abandonar um horizonte genuinamente transformador.

Como lembra Nancy Fraser, a adesão a Trump em 2016 (e também a Bolsonaro em 2018) foi a forma que muitas pessoas encontraram de dizer “não”. A ultradireita soube dirigir, contudo, esse impulso de ruptura para o seu próprio benefício, impedindo, no final das contas, que qualquer mudança social significativa acontecesse.

Parte da esquerda sabe que tal força de negação possui uma potência transformadora que ainda não veio a toda em todo o seu vigor. É o que vem mostrando, nos EUA, a campanha de Bernie Sanders e o movimento “Feminismo para os 99%”. No Brasil, a surpreendente campanha de Guilherme Boulos para prefeito de São Paulo seguiu uma direção semelhante. Esses setores da esquerda tentam mobilizar o impulso que surgiu após a crise econômica de 2008 e sabem que o melhor caminho é mostrar o adversário que realmente merece ser combatido.

Parece-me que esse gesto de endereçamento é a principal tarefa a ser realizada atualmente: pode despertar a potência política presente na conexão entre grupos que jamais deveriam ter sido rivais.

  

Mariana Pimentel Fischer é professora da UFPE.

[1] Sobre Steve Bannon recomendo a leitura de TEITELBAUM, Benjamin. War for Eternity: inside Bannon´s far right circle of global power brokers. Nova Iorque: Dey St, William Morrow. 2020



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