Se oriente, rapaz
Inverta o seu olhar do mundo, na tradição de Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Eduardo Galeano
Na Antiguidade, muitas culturas usavam o sol nascente como referência para se localizar no espaço. Assim, “orientar-se” era literalmente voltar-se para o oriente e, a partir dali organizar os outros pontos cardeais – norte, sul, oeste. No sentido figurado, orientar-se passou a ser usado para acertar o passo e encontrar um rumo e um sentido à vida.
Alexandre Magno disseminou a cultura grega até a Pérsia; e Roma expandiu o império pelo Mediterrâneo, dominando a Europa Ocidental e o norte da África. O Império Romano desmoronou no ocidente no século V, sobrevivendo no Oriente Próximo enquanto Império Bizantino, com sede em Constantinopla. Os árabes dominaram o Oriente Médio, norte da África e a Península Ibérica dos séculos VII ao XIV. O Império Romano do Oriente sobreviveu por todo um milênio, até a queda de Constantinopla, conquistada pelo Império Otomano no século XV.
Com a queda de Constantinopla, voltaram para o ocidente os textos clássicos originais, gregos e romanos, suas traduções, o conhecimento, as ideias e a cultura que serviram para alavancar o Renascimento Europeu. A partir das Grandes Navegações do século XV a Europa atingiu as Américas, África, Ásia e Oceania, instalando feitorias e estabelecendo entrepostos comerciais. Depois de invadir as Américas, a Europa submeteu, escravizou ou exterminou os povos nativos, promoveu a imigração compulsória de africanos e imigrou em massa, principalmente para os atuais Estados Unidos, Canadá, Argentina e Brasil.
No século XIX, com a Revolução Industrial, a Inglaterra, efetivamente, acabou por tomar conta dos quatro cantos do mundo, dominando as longínquas Índia e China. Na ocasião, só dois impérios escaparam de ser submetidos à Europa. O Império Russo, que derrotou Napoleão em 1812, foi suplantado pela União Soviética e até hoje não se sujeita ao mundo ocidental. O islâmico Império Otomano no Mediterrâneo Oriental, por sua vez, que compreendia a Turquia, os Balcãs, a Grécia, norte da África, o Levante e a Mesopotâmia (Iraque), se desintegrou no final da Primeira Guerra Mundial.
Em seu romance Assassinato no Expresso do Oriente, Agatha Christie imortalizou o luxuoso trem que ligava a Europa ao Oriente, isto é, Paris a Istambul (“Islambol”, antiga Constantinopla). A cidade é dividida pelo estreito de Bósforo, com uma pequena parte na Europa e a maior parte na Ásia. Apenas 3% da atual Turquia fica na Europa, o que quer dizer que o Oriente, historicamente, começa em Istambul, então denominado Oriente Próximo.

Depois da dissolução do Império Otomano, o General Mustafa Kemal, denominado Ataturk (pai dos turcos), Presidente da República, proibiu a poligamia, tornou o uso do hijab opcional e substituiu a grafia árabe pelo alfabeto latino, entre outras reformas para ocidentalizar o país. Não obstante, apesar de seu pezinho na Europa, apesar de mais moderna e apesar de “próxima”, a União Europeia reluta em aceitar a Turquia como país membro, porque ainda a considera muito oriental – além de muçulmana.
Do ponto de vista da Europa e de seu eurocentrismo, ao Oriente Próximo seguem-se o Oriente Médio (o Levante, Iraque, Arábia e a Pérsia-Irã), o Coração da Ásia (Sul da Ásia, Índia), o Sudeste Asiático (continental e insular) e o Extremo Oriente (China, Korea e Japão). Com o fim do Império Otomano, a Inglaterra, usando régua e esquadros, dividiu o Levante em países, Líbano, Síria, Palestina e Jordânia.
Até a Primeira Guerra Mundial, a Inglaterra detinha a hegemonia internacional – econômica, financeira, política e militar. Todas as transações do mundo passavam por Londres. Após a Segunda Guerra Mundial, o mundo foi dividido em dois blocos: capitalista (ocidental), com hegemonia norte-americana; e comunista, capitaneado pelos russos. Com o fim da União Soviética e da Guerra Fria, os Estados Unidos comemoraram euforicamente uma nova era de inconteste hegemonia norte-americana, sem plausível concorrência.
Orientação
O milenar Império Chinês, que havia sido submetido à Inglaterra nas Guerras do Ópio, ruiu em 1911. Em guerra civil desde 1927 contra Chiang Kai Shek, Mao Ze Dong liderou o ingresso da China no bloco comunista depois da Segunda Guerra Mundial, mas rompeu com a Rússia no final dos anos 1950, após o XX Congresso na União Soviética. E, nos marcos da Guerra Fria, para enfraquecer a Rússia, os Estados Unidos se aproximaram da China.
Os chineses, pragmáticos, para se vingarem da humilhação sofrida nas Guerras do Ópio, resolveram armar-se contra o ocidente com a utilização do próprio padrão ocidental mercantil. A China se industrializou e, valendo-se de uma taxa de câmbio administrada pelo estado, invadiu o mercado mundial com produtos descartáveis, produzidos por trabalhadores autômatos com baixo nível de consumo.
O despertar da China como uma potência internacional tem levado o Império Americano, que ainda nem completou um século de vida, ao completo desespero, destemperança e agonia, expressa na figura patética de seu líder que ocupa o cargo de presidente.
Sulear-se
Com o avanço da navegação marítima, nortear-se, assim como orientar-se, passou a ser uma referência para se localizar no espaço. A Estrela Polar, Polaris, a estrela mais brilhante da constelação Ursa Maior, visível no hemisfério norte, praticamente fixa no céu noturno, é utilizada como principal ponto de referência para os marinheiros se orientarem.
Mas o irreverente Gilberto Gil, para se orientar, resolveu pôr o mundo de cabeça para baixo, substituir a Ursa Maior pela constelação do Cruzeiro do Sul e trocar “nortear-se” por “sulear-se”, invertendo o olhar do mundo, na tradição de Paulo Freire, Darcy Ribeiro e Eduardo Galeano.
Ao que tudo indica, o mundo vai atravessar um mar revolto, sob um céu encoberto, sem bússola e sem radar. O Brasil, particularmente, corre o risco de se tornar bucha de canhão na guerra entre os Estados Unidos e a China.
The future is not ours to see, 未 来 不 是 我 们 能 预 见 的.
Samuel Kilsztajn é professor titular em economia política. Autor, entre outros livros, de Salaam Aleikum, Palestina!

