Diário do Ano da Peste
Temos de entender como uma proposta tão errática, do ponto de vista institucional, e tão pífia, do ponto de vista dos resultados, examinados à luz das próprias promessas, consegue obter aprovação entre tantas pessoas

Temos de entender como uma proposta tão errática, do ponto de vista institucional, e tão pífia, do ponto de vista dos resultados, examinados à luz das próprias promessas, consegue obter aprovação entre tantas pessoas
A desigualdade é naturalizada, apresentada como uma herança histórica, uma característica de nossa sociedade com a qual temos de conviver. Não é vista como uma construção histórica que se apoia nas próprias políticas públicas e tem no Estado seu principal promotor.
Tratar mercados como abstrações serve apenas para encobrir interesses, valores e visões de mundo que operam em situações concretas. Visto como modelo puro, o mercado adquire universalidade e neutralidade inexistentes em qualquer experiência real. No Brasil, a avaliação de que “haja muito Estado e pouco mercado” atualmente só se sustenta quando se concebe um modelo puríssimo de mercado descrito por algum livro ou de certo país imaginário que, de fato, nunca existiu.
Sugerir que os problemas da saúde pública surgem em decorrência da gestão, apontando tão somente para a inovação no modo de gestão como solução, revela uma tendência em justificar sua “ineficiência” em virtude de dificuldades meramente gestacionais ao tempo em que ignora a decisão política de inviabilizar a saúde pública gerida e operacionalizada pelo Estado.
O poder das milícias ultrapassa a gestão de mercados e desemboca no acesso ao poder político. O controle territorial se converte em poder político. Uma área dominada por milícias também se tornar um nicho eleitoral, ou um curral eleitoral, para retomar um conceito fundamental de um precedente histórico importante para que se compreenda das milícias. As áreas de milícias são também celeiro para a emergência de lideranças que alcançam posições para cargos eletivos e capital político importante para candidatos que pretendam beber dessa fonte de poder.
Desde o início do século XX, pelo menos, sempre que há alguma grave ameaça à ordem econômica e política, sempre que o mundo aparenta desestabilizar-se para os “indivíduos comuns”, o nacionalismo, organizado geralmente sob a forma de partidos, aparece como uma solução que estivesse em estado de repouso, de modo que, de dentro do Estado, a nação passa a atacá-lo.
A quem interessa manter a insuficiência, a ineficiência, a ineficácia ou até a eliminação das políticas públicas em áreas como saúde, educação, cultura, segurança, mobilidade urbana, infraestrutura, saneamento básico? Se um governo não está disponível para aprimorar e assegurar políticas que visem melhorias da vida de seus cidadãos, a quem ele serve?
Longe do silenciamento das massas promovido pela TV ou o rádio, a internet autoriza a fala, o julgamento, a expressão emotiva e, nessa permissão codificada, deles nos dispensa, desacostuma, até que, sem a menor necessidade de censura, os atrofia. Se o automatismo resultante é mais palpável na operação oca de “curtir”, este se torna menos evidente nos espaços destinados à escrita
Silvia Viana
Militares são treinados para matar inimigos. As táticas de ocupação de território visam à invasão de países estrangeiros, e a “licença para matar” volta-se contra combatentes estrangeiros. O que significa, então, ocupar nossas próprias cidades, habitadas por concidadãos?
Existe racismo na América Latina. Ele atinge com mais frequência os negros, assim como imigrantes bolivianos, peruanos e colombianos. As comunidades árabes, contudo, raramente sofrem com os estigmas que frequentemente lhes são impostos na Europa. Para explicar o fenômeno é preciso analisar como foi a chegada dessas pessoas à região e a posição social que ocupam
A demolição do edifício político abriu espaço para tentações fascistas. Entre o velho que se dissolveu e o novo que ainda não se impôs emergiram formas mórbidas, como diria Gramsci. Pela primeira vez na história brasileira uma candidatura fascista apresentou altos índices de intenção de voto em 2017
Nos últimos 65 anos, a Rede Globo ocupou o espaço de um dos principais atores políticos, sempre participando com grande poder de decisão em momentos-chaves. Com o fim do regime militar, por exemplo, teve início a luta pelas “Diretas Já” e a Globo impediu que as imagens de comícios nas ruas fossem exibidas na TV, nos seus jornais e rádios