“Importar” manifestações contra o racismo?
O Brasil é fundado na desigualdade racial, escondida no mito de democracia racial

O Brasil é fundado na desigualdade racial, escondida no mito de democracia racial
Para Hans Jonas, o racismo se apresenta como o oposto intocável da racionalidade e, mais ainda, como uma tendência que resistiu até mesmo ao Iluminismo e mesmo às teses mais otimistas ao longo da modernidade. Em outras palavras, o racismo é uma espécie de percalço no caminho da civilização.
Pesquisas realizadas em creches apontaram que crianças negras recebiam menos carinho de cuidadoras e educadoras que crianças brancas. A branquitude retira das crianças pretas qualquer perspectiva de cuidado e proteção integral, sobretudo quando esta divide atenção com outras crianças brancas, e em alguns casos, com o cuidado com os animais de estimação.
Nos Estados Unidos, uma pessoa negra é morta brutalmente, e a população sai às ruas fazendo-as arder, apesar da polícia, apesar da Ku Klux Klan. No Brasil, o assassinato insuportável de pobres, negros ou brancos quase negros de tão pobres, se rotiniza. Quando gera protestos nas favelas, logo a polícia dissipa, o tráfico controla, a milícia gerencia e a esquerda faz posts indignados
George Floyd, Christian Cooper e João Pedro Matos são três nomes para a lista infindável de mortos e vítimas de racismo no mundo. Mesmo após a abolição da escravatura, os centros decisórios de poder ainda enxergam a vida negra como descartável
Por um lado, as mídias sociais podem visibilizar atrocidades e causar um alvoroço pela justiça social, mas, por outro, é ainda mais eficaz para nos distrair deles e garantir que o alvoroço seja estéril.
A morte de João Pedro perante o mundo não causa tanto impacto quanto a de João Hélio, não causa coletivização de uma pauta, não gera programas inteiros em canais abertos sobre o ocorrido
Quantas operações de incursão em favelas são realizadas? As próprias instituições policiais não sabem dizer, muito menos sua razão e seus resultados. Foi justamente para preencher essa lacuna que fizemos um levantamento inédito sobre as operações policiais no Rio de Janeiro, em série histórica
Sucesso incontestável nas políticas públicas das últimas duas décadas, as cotas raciais lidam também com possibilidade de fraude e reacendem a discussão sobre quem é negro no Brasil
“Pra mim, refugiado é uma categoria da ONU e tá incompleta… Aqui no Brasil, a gente tem refugiado branco e refugiado negro. Todo mundo prefere refugiado sírio. A Síria tá em guerra há seis anos, o Congo tá em guerra há vinte! (…) O sírio, ele vai ser comerciante, dono de restaurante… o africano e o haitiano vão ser garçom, pedreiro… essas coisas, e se conseguir trabalhar. Na ocupação, você não encontra sírio, mas encontra haitiano, congolês, nigeriano. Quem vai morar na rua é africano, haitiano… então, tem refúgio branco e refúgio negro no Brasil. Pro negro é diferente. É por isso que ninguém sabe o que tá acontecendo no Congo.” ( Registro de campo de pesquisa etnográfica)
A fome, o analfabetismo e o racismo compõem uma trajetória histórica da desigualdade superáveis por boa fé? Ou demonstram fraturas estruturais que exigem o forjar de uma outra feitura política societária?
Se hoje a arte contemporânea pauta constantemente o debate pós-colonial, no passado não era assim: por isso a tela de Portinari é especial. Apesar de, neste caso, temos a repetição comum de um autor branco se debruçando sobre o tema da mestiçagem, a abordagem de Portinari evidencia a consciência de classe do pós-abolição. O mestiço não ilustra apenas um brasileiro nato numa nação construída a partir da mistura violenta de raças. A obra evidencia também a cor da classe trabalhadora do Brasil.