Carta aos novos intelectuais
Minha mãe deveria estar orgulhosa. Mas não. Ela está com medo

Minha mãe deveria estar orgulhosa. Mas não. Ela está com medo
Não se trata de acaso que as principais vítimas da violência eleitoral sejam os grupos mais atacados por Bolsonaro não somente nesta campanha, mas ao longo dos 27 anos de sua vida pública, ou seja, mulheres, negros e a população LGBTI
O telespectador, o ouvinte e o leitor não se vêm nas imagens, nos sons, nos textos, enxergam e escutam apenas o outro, o diferente, o não ser, despossuídos de direitos, quase sempre o negro, o pobre, aquele que não merece nem mesmo as “grades” das prisões nacionais
Já existe o desenvolvimento institucional de um movimento de ideário fascista na política brasileira
Como a vertente fascista está mais explícita, minha tentativa será contribuir com o leitor para analisar Jânio Quadros e seu tempo histórico dos anos de 1950 e 1960 para que possa responder a si mesmo por que se fala que há semelhanças entre os candidatos e os dois momentos históricos
É evidente a inclinação do presidenciável na tentativa de colocar sobre as costas dos pobres os encargos e socializar os lucros com os ricos e seus defensores
É possível ser cristão e odiar o próximo, ter ojeriza à caridade, e rejeitar por completo o Sermão da Montanha, no qual Cristo falava em nome de uma religião que incluía e que jamais excluiria alguém
O bolsonarismo atende aos anseios da sociedade ao oferecer algo aparentemente novo e aqui exige um cuidado fundamental: o novo não é na figura, mas na forma. A forma de comunicar, de tratar dos problemas e achar soluções
Aprendi que esses eleitores não debatem programas políticos – como muitos brasileiros – mas indivíduos, e estão presos numa lógica que beira a irracionalidade que personifica e individualiza os problemas pautando-se por valores e julgamentos morais carregados de ambiguidades entre um aparente liberalismo, mas em seu conteúdo revela o conservadorismo enrustido, personificado e presente na cultura política brasileira
As classes médias são cada vez mais abandonadas à ditadura do mercado. Diante de serviços públicos deteriorados, elas dependem de novos nexos com o setor financeiro. Isso significa exposição a mercados desregulados e à dinâmica de endividamento, que reforçam o agravamento de sua vulnerabilidade social. Esse agravamento, somado à falta de políticas alternativas de justiça social, torna as classes médias campo fértil do discurso de extrema direita
O despreparo e ausência de estratégias para lidar com os problemas ambientais evidenciam-se em ambos os polos do espectro ideológico
A situação geral demonstra o que as elites norte-americanas, britânicas e europeias, traumatizadas com a eleição de Trump e com o Brexit, sempre se negam a admitir: o autoritarismo não nasce do nada. A aposta da elite brasileira está condenada ao fracasso e acelera a chegada ao poder de um personagem que encarna uma verdadeira ameaça