O neoliberalismo e a degradação da democracia
O neoliberalismo, nem tanto por seus parcos e vagos preceitos, mas seguramente pela agressividade de seus procedimentos e por suas consequências, vem promovendo uma intensa degradação da democracia.

O neoliberalismo, nem tanto por seus parcos e vagos preceitos, mas seguramente pela agressividade de seus procedimentos e por suas consequências, vem promovendo uma intensa degradação da democracia.
O discurso “responsável” do centro teve um apelo nulo, enquanto as incongruências da direita começaram lentamente a cavar espaço na mídia convencional. A verdadeira funcionalidade do malabarismo discursivo direitista não é só desmoralizar a política e, assim, conquistar um voto de protesto. Trata-se de representar eleitoralmente a última ideia de uma sociedade moribunda: o Estado policial democrático
Segundo Negri e Hardt, vivemos um momento de transição nas formas de exploração capitalista: de uma ordem baseada na hegemonia do lucro (pela exploração do trabalho industrial), transitamos para uma ordem dominada pela renda, em que a dívida é um elemento central para produzir a subordinação e construir os elos de uma nova servidão
É um esboço cada vez mais bem-acabado. Um governo – progressista ou reacionário – toma uma decisão que desagrada às preferências das finanças. Os mercados ameaçam, o poder político renuncia, a mídia aplaude. A crise italiana demonstrou que o “círculo da razão” neoliberal se parece mais e mais com um nó apertado em torno do pescoço do eleitor
A solução da crise econômica tem se dado por meio de expropriações capitalistas que, para desativar a sobreacumulação de ativos fictícios, precisam mercantilizar espaços ainda não exclusivamente mercantilizados, de modo a deixar o capital fluir, se expandir e se (re)acumular. Expropriações são processos indiferentes à anuência do expropriado e, portanto, violentos simbólica e fisicamente.
Os adeptos da ideologia neodesenvolvimentista reforçam a lógica do capital contra o trabalho e demarcam uma nova fase em que as lutas sociais se darão em um ambiente social ainda mais empobrecido, endividado, violentado nos direitos sociais e ameaçado por um cotidiano de naturalização da criminalização, como mecanismo de contenção dos levantes populares
Em 1964, a direita prometia “revolução” com caráter “democrático”. Hoje, não promete nada senão o corte de mandato legítimo, e teremos como consequência real a involução. Considerando-se que isso se dá em uma conjuntura em que se associam sinergicamente crise econômica e política, numa sociedade ainda pouco democráticaGabriel Cohn
Nos dias atuais, Caio Prado Júnior por certo se levantaria contra as manobras e articulações que buscam levar adiante um processo arbitrário das elites brasileiras para assumir o poder e aplicar uma agenda ainda mais retrógrada, entreguista e privatizante, que será altamente prejudicial às massasLuiz Bernardo Pericás
A história sangrenta da luta pelo sufrágio universal é apenas um dos exemplos capazes de denunciar tanto o engodo de uma suposta tradição democrática intrínseca ao capitalismo como a incoerência do marxismo vulgar que despreza a democracia ao conceituá-la pejorativamente de “burguesa”Leandro Gavião
O aprofundamento das políticas econômicas de “austeridade” pós-golpe requer a radical supressão de direitos sociais e trabalhistas. Nesse caso, um dos focos é acabar com a cidadania social conquistada pela Constituição de 1988, marco do processo civilizatório brasileiroEduardo Fagnani
Um projeto alternativo não cai do céu. Não basta querê-lo, mesmo que a urgência justifique a precipitação. Um projeto se inscreve no tempo histórico, que combina o longo prazo e as rupturas, entre a maturação demorada das ideias e a aceleração dos períodos revolucionáriosGustave Massiah
Derrota acachapante na Venezuela, virada à direita na Argentina, crise econômica e política no Brasil, manifestações de rua no Equador: a esquerda latino-americana entrou em pane. As maquinações de Washington não bastam para explicar tal esgotamento.Renaud Lambert