Favelas precisam de justiça racial, não de reconhecimento facial
As soluções estritamente tecnológicas não levam em consideração um problema estrutural que também afeta o desenvolvimento de tecnologias de vigilância: o racismo

As soluções estritamente tecnológicas não levam em consideração um problema estrutural que também afeta o desenvolvimento de tecnologias de vigilância: o racismo
Neste breve artigo eu exploro situações e dados sobre violência em uma sociedade que parece amalgamar seu contumaz racismo com um fascismo ascendente, em meio a um crescente armamento da população. Elementos inquietantes, que julgo merecer a devida atenção de todos nós, devido a eventuais implicações políticas
No dia 5 de maio, completamos um ano desde o massacre na favela do Jacarezinho, no Rio de Janeiro. Eu estava lá dentro e me lembro perfeitamente de todo cenário de destruição, rodeado de cheiro sangue. Foi sob esta memória e árdua lembrança que produzi este ensaio sobre a truculência da nossa democracia
Segundo dados da pesquisa “Coronavírus nas favelas: a desigualdade e o racismo sem máscaras”, elaborada pelo coletivo Movimentos: Drogas, Juventude e Favela pessoas sem escolaridade têm taxa de mortalidade por Covid-19 três vezes maior (71,3%) em relação às pessoas com ensino superior (22,5%); pretos e pardos sem escolaridade morrem até quatro vezes mais.
O desaparecimento dos meninos não é acontecimento aleatório ou episódico, mas inscrito em um conjunto de políticas voltadas para uma direção bastante específica: a de consentir a morte pela vulnerabilização da vida.
A operação realizada pela Polícia Civil no dia 6 de maio na favela do Jacarezinho se converteu em uma chacina que resultou na morte de 28 moradores. Trata-se da operação mais letal da história democrática do estado do Rio de Janeiro, pois, diferente de outras chacinas que se tornaram notórias, como a de Vigário Geral e da Baixada, o massacre do Jacarezinho não foi realizado por um grupo de extermínio, e sim avalizado pelas autoridades políticas e policiais do estado. Resta saber como é possível sua ocorrência em condições notadamente controladas pela cadeia de comando institucional do estado
Nós e eles. A narrativa que tenta justificar a barbárie e fazer da chacina mais uma notícia no jornal. Mais uma vez, a sociedade escolhe quem deve viver e quem deve morrer
Se desumanizar o outro facilita a aceitação moral de todo tipo de violência que lhe seja infligido, o “favelado” é regularmente destituído de sua dignidade humana pela sua suposta “degenerescência moral, social, cultural e racial”
O que há de diferente entre as mortes do ataque em Saudades, a chacina no Jacarezinho e as mortes por Covid-19
Perguntas que não querem calar sobre a Chacina no Jacarezinho de maio de 2021
Apesar do cenário pandêmico, destacamos que a violência nas favelas permanece como experiência cotidiana na vida dos moradores. Além da angústia com a possibilidade de adoecer de Covid-19, tem-se a preocupação de não morrer de fome e nem de bala perdida
Segundo o relatório “A cor da Violência Policial: A Bala Não Erra o Alvo”, 96,9% das pessoas mortas em decorrência de ação policial na Bahia, em 2019, eram negras