Por que agora?
A combinação de uma irritação que consegue se exprimir coletivamente, da falta de mediação, dos modos de ação direta e da utilização da força policial para contê-los explica em grande parte as explosões de violência.

A combinação de uma irritação que consegue se exprimir coletivamente, da falta de mediação, dos modos de ação direta e da utilização da força policial para contê-los explica em grande parte as explosões de violência.
Pode soar arriscado, até inconsequente, confiar no povo. Frente à profunda crise do capitalismo e de sua gestão liberal democrática, quando disputas elementares sobre a fonte e o controle do poder estão na ordem do dia, a defesa dos direitos civis não deve se apoiar em uma clivagem moral, em que o povo, via de regra, representa a ameaça
A mobilização na França contra os impostos sobre os combustíveis pôs em evidência um sentimento de injustiça fiscal expresso, sobretudo, pelos assalariados subalternos e pelos pequenos autônomos. Em um país onde o imposto continua sendo uma alavanca para a redistribuição, como explicar que ele seja contestado por quem está no ponto mais baixo da escala social?
O movimento dos “coletes amarelos” recusa qualquer forma de organização, disseram. Na verdade, diversas tentativas ocorreram. Mas para se organizar é necessário um conhecimento amplamente perdido, por causa da falta de militantes que fazem trabalho de base no campo
Com os “coletes amarelos”, um poder seguro de si e querendo servir de modelo para a Europa teve de ceder diante da revolta de grupos sociais até então pouco mobilizados coletivamente. Em um mês, transportes, cobrança de impostos, meio ambiente, educação e democracia representativa foram colocados em questão (ler abaixo). Agora, após reunir os sem-voz, os “coletes amarelos” hesitam sobre a maneira de se organizar ou de convergir com outras revoltas (pág. 6). A forte presença feminina testemunha uma reviravolta sociológica cujas lições ainda estão por serem tiradas (pág. 9). Tudo concorrendo para engordar a carga que a arrogância do presidente Emmanuel Macron detonou (pág. 7)
Há mais de um ano a imprensa norte-americana se esforça para demonstrar, sem elementos comprobatórios, que o presidente dos Estados Unidos deve sua eleição às fake news fabricadas por Vladimir Putin; Macron parece tomado pelo mesmo tipo de obsessão, a ponto de esperar conjurá-la por um dispositivo tão inútil quanto perigoso.
Nossos infindáveis moinhos de orações concluíram desse episódio que seria preciso haver mais da Europa. Mas, quanto mais esta se expande e se institucionaliza, menos resiste às ordens norte-americanas.
Macron tinha previsto comemorar Maio de 68. Tal festa teria um sentido, mas contra o “velho mundo” que ele representa. Este velho mundo que, cinquenta anos depois, ainda se lembra do seu medo e pretende completar sua vingança.
Não se derruba um prédio com uma martelada. É preciso fazer pequenos cortes, abrir brechas… Esse trabalho fragiliza a estrutura: um mínimo movimento pode agora provocar o colapso do edifício. O mesmo vale para empreendimentos de demolição social. Desde os anos 1970, os liberais se empenham em enfraquecer os dispositivos de solidariedade nacional da França. O atual presidente, Emmanuel Macron, parece apostar que certos serviços públicos, como o das ferrovias, se tornaram degradados e impopulares o suficiente para que ele possa dar a estocada em favor do mercado. Pelo contrário, não era hora de fortalecer o interesse geral ?
Há dois séculos, dirigentes de todas as tendências políticas reivindicam a diminuição do número de agentes do Estado na França – por razões, por vezes, diametralmente opostas
Em 2011, o movimento Occupy Wall Street se construiu em torno de uma ideia, um slogan: “Temos em comum o fato de sermos os 99% que não toleram mais a avidez e a corrupção do 1% restante”. Diversos estudos acabavam de demonstrar que a quase totalidade dos ganhos da recuperação econômica tinha beneficiado o 1% dos norte-americanos mais ricos. (escute o artigo na versão original)
Nunca na história do voto universal na França uma eleição legislativa mobilizou tão pouca gente (mais de 56% de abstenção, contra 16% em 1978…). Esse placar pífio, no estilo norte-americano, concluiu uma campanha nacional quase ausente, com ritmo ditado por “casos” com frequência secundários.