A miragem do “apaziguamento”
Desde que Emmanuel Macron decretou, em 9 de junho, a dissolução da Assembleia Nacional, os ânimos estão exaltados. Diante desse clima, uma solução multipartidária parece emergir: o “apaziguamento”

Desde que Emmanuel Macron decretou, em 9 de junho, a dissolução da Assembleia Nacional, os ânimos estão exaltados. Diante desse clima, uma solução multipartidária parece emergir: o “apaziguamento”
Parece que a sequência caótica aberta pela dissolução da Assembleia Nacional em 9 de junho na França vai se prolongar. Entretanto, para além da confusão entre os partidos, as alianças e os projetos, é possível identificar algumas linhas de transmissão bastante esclarecedoras
Seis meses após o cinquentenário de sua fundação, o Reunião Nacional se tornou o maior da França. Suas prioridades ideológicas – endurecimento penal, combate aos imigrantes e “assistidos” – já inspiram as políticas do presidente Emmanuel Macron. No entanto, a extrema direita se alimenta há muito mais tempo da falta de compromisso e das acomodações dos partidos no governo
Não há algo de hipócrita em nossa surpresa? Uma crise institucional, o Reunião Nacional como o principal partido da França, um “grande jogo” político: a conjuntura das últimas semanas se inscreve em uma história de pelo menos quarenta anos. A falta de compromisso das classes dirigentes, sua arrogância cultural, seu desprezo social e seu segregacionismo espacial prepararam o terreno para a extrema direita (pág. 2). Atualmente, a xenofobia e o antifeminismo do Reunião Nacional não repelem mais certas parcelas das elites (pág. 18). À frente de um Estado do qual as classes populares desconfiam (pág. 16), um presidente enfraquecido tenta improvisar. Porém, como mostra seu balanço diplomático, esse método tem limites (ver abaixo)
Fazer o que quiser em casa. Não depender de ninguém. Especialmente não depender de um Estado que não satisfaz mais as demandas que lhe são dirigidas, mas multiplica as exigências. Comum em áreas rurais, esse estado de espírito favorece o partido de extrema direita francês Reunião Nacional. Seus porta-vozes reforçam a capacidade de se destacar sem fazer reivindicações, desde que o mérito individual seja recompensado
Ao decidir impor uma modificação no colégio eleitoral da Nova Caledônia, o presidente Emmanuel Macron inflamou o arquipélago. Embora as mobilizações tenham sido interrompidas até as eleições legislativas francesas de 7 de julho, a raiva popular não diminuiu. Tendo apoiado um dos lados na disputa sobre a independência, o Estado francês ainda pode ser o garantidor do processo de descolonização imaginado há quase quarenta anos?
“Normalmente, 40% do boi vira carne moída: os cortes de segunda, que exigiriam cozimento longo e receitas trabalhosas”, explica Myriam Loloum
A descolonização no pós-guerra, a crescente integração na Europa, o progressivo aumento da influência alemã, a adoção de políticas econômicas neoliberais e a afirmação de novas potências são os fatores que podem explicar o declínio relativo do poder francês
Combates entre a França e a Rússia? Anteriormente inimagináveis, a hipótese se instalou após as declarações de Emmanuel Macron evocando uma “guerra existencial” e o envio de “tropas ao terreno” da Ucrânia. Desde então, o tom não para de subir em Paris e Moscou. Uma escalada que parece encantar os meios de comunicação franceses, em sintonia com o presidente da República
Há muito tempo os agricultores do Velho Continente estão à beira do abismo, endividados, pressionados pela grande distribuição e pelos gigantes da indústria alimentícia, dependentes de um sistema de subsídios que favorece os grandes proprietários
O país pode aprovar a criação de uma taxa caução a estudantes de fora da União Europeia. A medida, tida como discriminatória por universitários e reitores, dificultaria o acesso ao ensino francês por estrangeiros – inclusive brasileiros
Visto de longe, tudo parecia calmo. Ou caminhando para a normalização, após os recentes acordos entre Tel Aviv e vários países árabes. No entanto, quando o Hamas lançou seu ataque em 7 de outubro, os canais de notícias entraram em edição especial: para atribuir a operação ao Irã e para focar a natureza do ataque e impor o adjetivo “terrorista”. Enquanto em Israel a raiva cresce contra um poder falho que não conseguiu evitar o massacre, os palestinos contam suas mortes aos milhares. Alinhada com a dos Estados Unidos, a diplomacia francesa se fecha na impotência voluntária