A morte é o dilema do nosso tempo
O que antes só se vivia na guerra, agora é a vida cotidiana. Morrer é tristeza, mas também resignação

O que antes só se vivia na guerra, agora é a vida cotidiana. Morrer é tristeza, mas também resignação
No Brasil, ao lado de uma biopolítica neoliberal que faz viver e deixa morrer, estamos diante de uma necropolítica que faz morrer e deixa morrer, a qual se desenvolve por meio de diferentes práticas e dispositivos que contam com apoio de várias camadas da população
Longe de se tratar de tema lateral para a compreensão dos rumos políticos do país, a negativa para a distribuição gratuita de absorventes explicita, mais uma vez, cruéis assimetrias de poder que hierarquizam sangues, corpos, pessoas
Se desumanizar o outro facilita a aceitação moral de todo tipo de violência que lhe seja infligido, o “favelado” é regularmente destituído de sua dignidade humana pela sua suposta “degenerescência moral, social, cultural e racial”
Somente a partir de um lugar de privilégio social, de segurança sanitária e de pleno acesso a recursos de saúde é possível pensar em relaxar regras de isolamento, retomar a atividade comercial e negar o risco de morte a que a maior parte da população está exposta. Mais do que isso, é observando a lógica de descartabilidade de determinadas vidas em prol do mercado que opera o Estado
Um nefasto teatro dos horrores tomou conta da capital federal. Pedidos por ruptura institucional e toda sorte de manifestações com grotescas referências a momentos sombrios da história da humanidade fazem parte da nossa rotina dominical
O Brasil usa do escapismo para lidar com seu registro cotidiano de destruição de formas de vida. Afinal, não é de hoje que todos os brasileiros e brasileiras sabem dos números gigantescos de homicídios, estupros, sequestros, desaparecimentos e mortes por condições sanitárias medievais.
O primeiro caso da Covid-19 confirmado no Brasil foi no dia 26 de fevereiro e, na primeira semana, ninguém morreu. Carnaval, é disso que o Brasil é feito. Na segunda semana, ninguém morreu. No Carnaval, todo mundo se encontra, pobre ou rico, preto ou branco, patrão ou trabalhador. Na terceira semana, ninguém morreu. O Brasil do Carnaval é abençoado, sem desastres naturais e o futuro pertence a essa nação: Deus é brasileiro! Na quarta semana, dezoito pessoas morreram. Na quinta semana, outras 114 morreram
No cenário pré-pandêmico, tinha-se a necropolítica, que geria parcela considerável das mortes de negros e pobres através de políticas de segurança pública “de guerra”, constituindo, assim, uma população mais matável. A pandemia trouxe à tona novas formas de tecnologias de gestão da morte descentralizando o poder de decidir quem pode viver e quem deve morrer, exsurgindo-se, ao que parece, uma expansão do poder de expor à morte.
Quando crianças negras com uniforme escolar ou mesmo dentro de casa são mortas começamos a pensar como retiramos dos negros o futuro. Para ser preciso lhe delegamos um futuro: a morte
Em “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, Carolina de Jesus retira os tapumes que escondem o estado paralelo que se caracteriza antagônico aos deveres do Estado – instituição política – com seu contingente populacional
O presidente da República continua se pronunciando para minimizar, ridicularizar e atacar medidas de contenção. Recordemos suas ênfases naquela primeira entrevista televisiva: “Vão morrer alguns pelo vírus? Sim, vão morrer! Vai acontecer? Vai acontecer, lamento! Mas essa histeria prejudica a economia”.