A democracia continua
Ainda na noite do plebiscito, as forças que apoiam o governo começaram a procurar as causas do fracasso, um processo de autocrítica que levará tempo

Ainda na noite do plebiscito, as forças que apoiam o governo começaram a procurar as causas do fracasso, um processo de autocrítica que levará tempo
Uma eventual derrota da nova Constituição chilena no plebiscito deste domingo, dia 4 de setembro, longe de gerar um apaziguamento das posições, vai tirar do caminho os atores que hoje em dia ponderam milimetricamente os prós e contras da mudança constitucional e abrirá caminho para um cenário cada vez mais polarizado
A Constituição de 2022 é um marco político-jurídico que inclui e protege os setores mais negligenciados, redistribui o poder, desconcentra decisões que hoje em dia são altamente centralizadas e incorpora as regiões, nações e povos originários no exercício da participação
Tendo por muito tempo feito o papel de vitrine do neoliberalismo, o Chile não para de decepcionar seus admiradores de outrora: em poucos anos, esse campeão das desigualdades retomou as mobilizações populares, elegeu um presidente de esquerda e embarcou em um processo de redação de uma nova Constituição, que vai substituir o texto herdado da ditadura
A proposta de nova Constituição é entregue ao presidente Gabriel Boric: agora resta saber se ela passará pelo crivo popular
Os chilenos foram os que melhor transformaram uma crise em um projeto de país. Para o bem do mundo, ele precisa dar certo
Um processo tão complexo e intenso como a Convenção Constitucional não poderia ser levado adiante sem gerar resistências frontais à sua atividade. Mais ainda, seria até suspeito se seu trabalho não gerasse fortíssimas resistências entre aqueles que deverão ver ameaçadas suas posições de poder e riqueza. A prova de verificação de sua capacidade transformadora recai justamente nos ventos contrários que desperta naqueles que, por uma questão de simples lógica, deverão opor-se ao seu desenvolvimento. Mas esse antagonismo é diferente, provém de distintos campos, gera variados efeitos e emprega estratagemas díspares.
O governo do partido Apruebo Dignidad, chefiado pelo presidente Gabriel Boric, acabou de assumir o cargo. Há muita esperança e vontade nessa equipe capaz e decidida. Mas ela terá pela frente uma oposição frontal, na qual se manifesta pela primeira vez a ação direta do Partido Republicano, liderado por Antonio Kast, que se apresenta à opinião pública com o aval de 44% dos votos obtidos no segundo turno das eleições. José Antonio Kast e seu partido são um grupo conservador? Ou fascista? Analisar esse campo é necessário para avaliarmos sua atuação e caracterizarmos o tipo de coisa que eles estão dispostos a fazer e suas alianças com outros partidos, inclusive seus apoios internacionais.
Novo artigo do especial Novos Rumos do Chile, feito em parceria com a edição chilena do Le Monde Diplomatique traz o editorial de Libio Pérez, editor-geral da publicação.
Quem diria? Em muito pouco tempo, o feminismo cresceu e se disseminou pela consciência crítica nacional com força avassaladora, a partir de 2005, logrando mobilizar, como nunca antes, milhões de pessoas para o 8 de Março. Mas influenciou também a Revolta de 2019/2020 e a redação de uma Constituição paritária. Agora, no entanto, conseguiu chegar ao poder graças ao triunfo da candidatura do presidente eleito, Gabriel Boric, que não apenas se declara feminista, tal qual seu partido Convergencia Social e sua coalizão Apruebo Dignidad, como se comprometeu a fazer do feminismo parte fundamental de seu governo
Nesse cenário renovado, o sistema universitário deve refletir e substituir os ajustes e reformas que vêm sendo feitos no sistema educacional desde a década de noventa até hoje, caso contrário continuará sendo tutelado pelos porta-vozes que rendem homenagem a intelectuais neoliberais, à política conservadora e às premissas do mercado
A convergência e juventude podem e têm que fazer história neste domingo. Pois, ao contrário, o resultado significará um país que desperdiçará uma década, comprometendo uma geração inteira frente ao desafio de mudar a injusta realidade socioeconômica da maioria da população