A tentação de recorrer ao “inevitável”
Preocupado com os riscos de estagnação econômica, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson lançou uma aposta arriscada: a da imunidade coletiva. Em poucos dias, deu uma guinada de 180º

Preocupado com os riscos de estagnação econômica, o primeiro-ministro britânico Boris Johnson lançou uma aposta arriscada: a da imunidade coletiva. Em poucos dias, deu uma guinada de 180º
Talvez não seja por acaso que Bolsonaro acuse a imprensa de histeria, essa que se encontra tão confundida com a feminilidade ao ponto que, ao exprimir a palavra de histeria já se configure como uma ofensa às mulheres, conforme ensina o dicionário, “hyster”, do grego, designa útero. Porém, há algo que Bolsonaro ignora para além dos riscos de seu discurso irresponsável, neoliberal e genocida: que há na histeria um potencial político e produtivo.
A maioria de nós não passou diretamente nem por uma guerra, nem por um golpe militar, nem por um toque de recolher. No entanto, no final de março, quase 3 bilhões de habitantes já estavam confinados, com frequência em condições extremamente difíceis. Aconteça o que acontecer nas próximas semanas, a crise do coronavírus terá constituído a primeira angústia planetária de nossa vida: isso não se esquece.
Em todas as regiões brasileiras, famílias residentes em favelas e cortiços, onde, não coincidentemente, cerca de 70% delas é negra (TETO, 2017), têm o agravante de concentrarem muitas das 3 milhões de famílias em situação de coabitação (quando mais de uma família divide a mesma casa) e das quase 320 mil famílias que vivem com mais de 3 moradores dormindo no mesmo cômodo.
Onde o controle vertical foi experimentado e mantida a circulação das pessoas, houve uma disseminação mais rápida e ampla do vírus, o que fez com que se voltasse atrás ao se perceber o erro – como é o caso da Itália e do Reino Unido. A comparação de China e Coreia do Sul com Itália e Espanha sugere que aqueles que relutaram em suspender o grosso da atividade econômica têm enfrentado desafios maiores que os demais.
Em tempos de pandemia e de um governo ultra-neoliberal de extrema-direita no Brasil, a pandemia de covid-19 coloca em relevo a fabricação de uma dicotomia visível e ilusória entre o cuidado individual, cujo alvo é manter a biologia individual em um pólo que se considera saudável, e o cuidado coletivo, que visa impedir o espraiamento do vírus por meio do distanciamento e o isolamento social.
A racionalidade neoliberal nos constrói, nos atravessa subjetivamente para que façamos de nós microempresas, empresários e negociantes de nós mesmos. Nosso modo de nos relacionar é individualista porque é competitivo. E a competitividade é um valor generalizado e naturalizado a tal ponto que não percebemos isso.
Diante da emergência planetária atual provocada pelo Covid-19 mais uma vez o indivíduo da sociedade global contemporânea vai experimentar sua existência em termos de crise. Trata-se de uma nova experiência de crise. Inédita. Que, em razão da magnitude dos efeitos globalizados em níveis sanitários, econômicos, sociais, políticos proporciona às pessoas repensarem suas vidas em relação às dimensões temporais passado, presente e futuro. A atual pandemia as obriga em assumir uma disposição de reflexividade diante de algumas questões fundamentais. Sobressai, entre outras, a da controvérsias públicas em torno das ciências.
Desde o início do governo de Jair Bolsonaro os governadores têm adotado maior ativismo no campo das relações internacionais, sobretudo na temática envolvendo as mudanças climáticas e a questão ambiental de maneira mais ampla sempre em contraposição à conduta adotada pelo governo federal.
Ao questionarmos sobre a origem da pandemia, caímos novamente em uma pergunta cada vez mais longe de ser respondida
Como esperado, são os governos que estão tomando a dianteira nas tentativas de reorganização social neste momento de pandemia. E diante da necessidade urgente de ação fica mais evidente os tipos de ações tomadas de acordo com os tipos de governos e regimes políticos de cada país.
A junção entre pandemia e hiperconexão nos dá a oportunidade de transmitir e assistir o sofrimento em tempo real. Os efeitos dessa novidade precisam ser explicitados para que possamos compreender as camadas subjetivas da crise do coronavírus.